17 de novembro de 2012

Histórias de orvalho e juventude


Foi quando ela disse:

- Eu não quero sair daqui nunca mais, Beto.

Aí minha cabeça girou, por algum motivo qualquer desses que fazem as cabeças das pessoas girarem, agradeci a mim mesmo por estar deitado e respondi algo que achei que seria incrivelmente profundo, mas, quando terminei de dizer a última sílaba, vi que era uma das frases mais estúpidas que já havia dito em todos aqueles vinte e poucos anos:

- Pois eu quero estar em qualquer lugar que não seja aqui, Alina.

Ela se levantou, apoiando-se no braço esquerdo e me encarou. Por entre os cachos castanhos foi difícil decifrar aquela expressão: meio raiva mortal e meio entendendo exatamente o que eu queria dizer.

- Hahaha! Você não sabe de nada, né cara? Não pode sair falando isso na cara dos outros não!

Era o Leo, rindo de mim pra variar, deitado do outro lado dela. Pelo que consigo recordar, estávamos os três em algum lugar gramado, deitados um do lado do outro, por alguma razão que eu não me lembro mais. Talvez meio bêbados ou só incrivelmente esgotados.

- Estou de saco cheio desse lugar, cara...

- Mas acabamos de chegar, a galera é super gente boa... E eu tenho assuntos inacabados andando por aí ainda... Do que você tá falando?  - O Leonardo, ao contrário do que pode parecer por essa conversa em particular, era o que costumamos chamar de ser inteligente.

- Não estou falando desse lugar, Leo... Estou falando desse lugar, entende? Do meu lugar, do lugar que me deram, do lugar que eu procurei... sei lá, cala a boca e deita aí... – respondi, mais áspero do que gostaria até, na verdade. Ele já tinha me salvado de umas poucas e boas.

Naquela noite, haviam restado ainda algumas nuvens da fina chuva do final de tarde no céu e a lua brilhava com uma intensidade que iluminava o sítio inteiro. Ficamos os três calados por um tempo, num silêncio amenizado pelo zumbido da festa na casinha há uns 50 metros dali: eu profundamente absorto nas minhas dúvidas, Leo meio ressentido e Alina cuidadosamente escolhendo as palavras, conforme ela mesma me contou depois.

Vale registrar aqui uma informação relativamente importante: Alina fazia aulas de canto lírico desde os oito anos de idade. Dito isso, fica evidente que não há nenhum tipo de julgamento subjetivo na minha afirmação de que, quando ela falava, era como se cantasse continuamente, conseguia mesmo nos envolver... Tipo um cobertor de lã felpudo numa daquelas noites frias como o ártico que tínhamos por lá:

- Tive um sonho outro dia. Um sonho estranho em que eu corria, corria, corria...

- Todo mundo tem esses sonhos, Alina. Não há nada de estranho nisso. – Embora fosse inteligente, Leo tinha essa irritante mania de menosprezar a sagacidade dos outros que era um saco.

- Eu sei. Mas esse era diferente. Quanto mais eu corria, menos cansada eu ficava e não queria parar nunca mais. Tipo Forest Gump, só que era eu... Ia acelerando cada vez mais. Quando acordei, estava ensopada de suor, mas totalmente renovada, louca para sair correndo por aí até chegar ao penhasco do fim do mundo...

- Que loucura.

- Loucura.. – nós três respondemos.

- Também tive um sonho outro dia, como todas as pessoas normais têm, não é mesmo Leo?

- Não precisa ser irônico, Beto. Já entendi a indireta, vou ficar calado.

- Hahaha! Enfim, nesse sonho eu estava parado no parapeito de um terraço, num doente ambiente urbano qualquer.  Mas com um pôr-do-sol de cinema na minha frente... E lá estava eu, quieto, curtindo uma nostalgia...

- Sozinho?

- É, Lina. Sozinho. Mas não era ruim não. Era bom. Quer dizer, agora que você falou, está soando meio deprimente... Mas o fato é que eu estava lá, todo nostálgico. Sentindo as tais borboletas no estômago...

- Na verdade, “borboletas no estômago” é metáfora para estar apaixonado. No caso de ansioso, nostálgico e coisas do gênero, o certo é “nó na garganta”... não vá misturar as expressões!

- Porra, Leo! O sonho é meu! Você acha mesmo que eu ia ficar pensando nessas convenções “pseudo-literárias” de merda? Eu estava lá, sentindo as tais borboletas no estômago e pronto. Mas aí, foi virando enjoo, depois dor mesmo, pra valer. Minha barriga começou a mexer esquisito, como se alguma coisa lá dentro estivesse se movendo...

- Credo! – Alina suspirou.

- Que bizarrice é essa, Beto?  - disse Leo.

- Pois é! Aí entrei no edifício e desci as escadas voando. Não, Leo, não literalmente... Eu só estava tão rápido quanto podia... Poxa, tinha alguma coisa dentro da minha barriga, né? Finalmente achei uma porta aberta que dava, pasmem, pra cozinha do meu apê. Aquela mesmo, com detalhes em madeira escura e com o pinguim do Gonçalo em cima da geladeira...

- E sua barriga?! – Falou assustada, Alina. Até hoje me pergunto se ela estava mesmo tão espantada assim ou se a mão na boca era pra segurar a risada daquela história maluca... Enfim.

- Uai, aquilo continuava rodobiando caoticamente dentro de mim. Eu vasculhei as gavetas atrás de uma faca pra arrancar tudo...

- UMA FACA?! Vai me dizer agora que você cortou sua própria barriga? Não há a menor possibilidade de isso acontecer. Com certeza morreria de tanto sangue que ia jorrar. E a dor...

- Leo, é uma conversa sobre sonhos, não é? Eu não posso controlar os meus... Putz, você está incrivelmente insuportável hoje... De qualquer modo, eu peguei a faca, virei a lâmina contra mim mesmo e afundei-a na minha carne... Puxa, como eu senti o fio rasgando minha pele, meus músculos... tudinho, em câmera lenta... Lancinantemente... Nessa hora eu achava mesmo que era verdade, por mais absurdo que fosse.  Lembro de mim mesmo pensando algo do tipo: “Que droga! Eu acabei de me esfaquear! Isso não faz o menor sentido?!”. Revirei um tempo no chão, depois recobrei o controle, na medida do possível, deitei no sofá e fui fazer meu próprio parto. Ou coisa que o valha.

- Hahahaha. Parto? Gay.

- Pfff, garotos... 

- Hahahaha! Né? Mas foi bem isso, cara. Abri ainda mais aquela fissura na minha barriga em busca daquilo, sujando as mãos de sangue e...

- Poderia pular essa parte, por favor? Afinal, o que tinha dentro?

- Desculpe, Lina. Então... era A Nostalgia.

- O QUE?! – Disseram os dois.

- Não a nostalgia, A Nostalgia. Não me pergunte como eu sabia que era ela, só sabia. Uma coisa disforme, peluda, escura, embora meio fofa. Claro, na medida em que uma coisa toda suja de sangue que sai de dentro de alguém pode ser fofa, obviamente. Na verdade, até lembrava um pouco o Edgar, mas sem cabeça, calda ou patas. Só algo meio oblongo, peludo e fofo.

- Faça-me o favor de deixar meu gato de fora dessa, Alberto! – Quando Alina me chamava de Alberto era sinal de que a coisa não estava nada bem.

- Desculpe, mas é verdade. Então eu, sei lá porquê – talvez porque detestasse a ideia de que A Nostalgia tivesse me feito sentir tão mal -, mas catei a faca e abri aquele troço. E virei-o do avesso.  O lado contrário era esverdeado, tipo capim queimado de sol e estava mesmo meio morno. Aí coloquei dentro de mim de novo. Afinal, estava sentindo todo aquele vazio – é essa a metáfora correta para crises existenciais, Senhor Leo? - que só aquilo preencheria. Tinha gosto de asfalto. A Nostalgia ao contrário tinha gosto de asfalto, ou seja, A Utopia tinha...

Era uma noite quente e a grama molhada roçava em nossas nucas de um jeito não necessariamente ruim. Alina encostou a cabeça no meu ombro direito e as nuvens continuavam a se mover lentamente centenas de quilômetros sobre nós.

- Eu não sei como acabo com amigos tão malucos como vocês, sinceramente... – Puxou conversa Leo de novo, depois de um tempo, daquele jeito debochado dele. Ninguém respondeu, não era preciso. Estávamos nos fazendo a mesma pergunta, achando que provavelmente nós três deveríamos ter sido presos num hospício qualquer há muito tempo.

- Se é pra contar sonhos bizarros, também vou contar o meu. – Recomeçou ele – Mas acho que não tenho tanta poesia quanto você, Beto. Sei lá, não lembro dos detalhes assim... Pra mim, são apenas flashes marcantes que eu costuro com algum enredo meia boca pra fazer sentido.  Seja como for, no sonho, eu estava de frente pra uma multidão. Centenas de pessoas em um auditório me ouvindo falar. Todo mundo muito atencioso, muito quieto. E eu sentindo a minha voz sair rouca, rasgando a garganta, sabe? E me subia um bafo podre pelas narinas. Meu bafo. Eu nem conseguia me mexer direito de um lugar para o outro e minhas roupas cheiravam a naftalina. Tipo do seu pai, Beto.

- Vai se ferrar, Leo!

- Hahaha! Enfim, eu me sentia como um velho professor universitário, sabe? Dando uma aula muito importante em um auditório qualquer. Respirava fundo, tinha lapsos de memória durante o discurso e coisas do gênero... Mas quando cheguei perto da janela no meio daquele monólogo interminável do qual não me lembro uma palavra... Quando me vi no reflexo, eu não era velho. Eu era eu, assim, igualzinho tô aqui agora falando com vocês. Quer dizer, tecnicamente, eu não estava com essas roupas e, como esse sonho já tem algumas semanas, talvez nem tivesse essa cicatriz no braço direito... Mas vocês entenderam...

- Tipo Benjamin Button? – E foi a vez da Alina falar sua única merda da noite.

- Não, Lina... Button nasceu velho e foi rejuvenescendo... Parece que, nesse caso, ele tava novo e velho ao mesmo tempo. E aí, Leo? O que rolou?

- E aí que, do nada, fui ficando mais cansado... Minha voz foi enfraquecendo... Meus lábios pesando... Até que não ouvia mais som algum enquanto falava e nem sentia o cheiro podre do meu hálito... Embora ninguém na plateia parecesse notar, eu sabia que não estava falando mais. Então, levei a mão à boca e não havia mais boca para tocar, cara... E ninguém nas cadeiras tinha ouvidos mais... Sério, foi aterrorizante.... Eu gritava e ninguém ouvia, mas também não podia tentar gritar muito senão me sentia incrivelmente farto, entediado e exausto.  Foi quando um bando de brutamontes vestidos de vermelho entraram no auditório. Cada um com uma hipócrita expressão facial horripilantemente diferente do outro: atônitos, estupefatos, irradiantes, complacentes, atenciosos, esnobes, tristes, tranquilos... Aí…

- Hey, guys? Are you high or something? Last time I saw you was about two hours ago! – Era Jenny, uma intercambista americana que Leo andava paquerando e também estava na festa.

- It’s depends, Jenny. Leo is about 70”. Is that high enough for you?

- Very clever, Beto. Come on, Leo… I miss you…

Assim a gente terminou aquela conversa. Com as costas e as calças molhadas de orvalho, Leo se levantou para ir em direção à casa e eu já o ia seguindo, quando me perguntou, de um jeito sério que não combinava com ele:

- Beto, você sempre sonha quando dorme?

De repente, lembro que na hora bateu aquela mania besta – e quase prepotente - que eu tinha de sempre tentar dar uma resposta profunda pra tudo. Só que daquela vez, acho que deu meio certo:

- Sei lá, cara... E você, sempre dorme quando sonha?

Ele me olhou com uma risada de deboche na cara e foi se encontrar com Jenny. Alina não tinha se levantado, me puxou de volta e disse que queria conversar um pouco mais. Tivemos uma ótima “conversa” que, definitivamente, não teve nada a ver com sonhos. Aliás, tem muito tempo ninguém da turma conversa sobre isso.

15 de novembro de 2012

Sobrevivendo




- Nós estamos completamente perdidos.

- Para com isso, não é pra tanto. Mais cedo ou mais tarde vamos acabar encontrando alguma coisa.

- Não, você não está entendendo. Estamos sem rumo, sem propósitos e já sem memórias. As coisas na nossa cabeça começam a ficar turvas assim como as árvores que passam pela gente e adormecem na névoa escura atrás de nós. Tem sido cada vez mais difícil lembrar como eram os dias no colégio, como era vagar por um sebo a procura ou não de um livro, como era o perfume e o toque sutil daquelas garotas que amamos. E o qual é o nosso plano? Simplesmente seguir andando, a esmo, esperando sabe se lá o que?

- E qual a alternativa? Me diga: qual a porcaria da alternativa que você me oferece? Que a gente simplesmente se sente nessa merda de chão lamacento, comemos toda a comida que resta, fiquemos olhando um para o outro com cara de paisagem até as forças acabarem e nós simplesmente não acordarmos mais? É isso?

- Não sei... Só sei que a gente não faz a menor ideia do que está fazendo. Nem eu e nem você fomos escoteiros ou coisa do gênero para aprender a nos orientar pra valer. Quem garante que não estamos dando voltas disformes desde quando acordamos? Essas árvores são todas iguais, nenhum rio, nenhuma casa, nenhum animal sequer. Estou ficando cansado. Cansado e entediado, cara.

- Vou te dizer que ficar parado em um só lugar não é lá a coisa mais divertida do mundo. Não pelo que me lembre. Eu sei que está difícil nos guiar, principalmente agora que as baterias das lanternas acabaram. Eu sei, mas eu não vou conseguir seguir se você continuar me puxando pra baixo assim...

- Eu só estou dizendo que, de um jeito ou de outro, isso tudo vai ter um fim mesmo. Então, qual a diferença entre acabar aqui, com a gente descansado, sentado, talvez até contando algumas histórias que ainda conseguirmos nos lembrar... qual a diferença disso para com um deslize daqui uns 3 ou 30 quilômetros e uma queda agonizante em um desfiladeiro? Pelo menos provaríamos o prazeroso sabor simples, ingênuo e até inconsequente da alegria uma vez mais. Ou alguma coisa parecida com isso.

- Ou então, famintos, aguardaríamos sorrateiros até o outro adormecer para atacar, como animais, lutaríamos e então, ao vencedor, a derrota mais trágica. Quem sabe o que poderia acontecer? Não, temos que seguir. Você acredita mesmo que não há mais ninguém como nós?

- Já teríamos, pelo menos, escutado algo ou alguém. Sua voz é o único som que entra pelos meus ouvidos há muitas semanas... Pra ser sincero, às vezes, nem sei mais se é a sua ou a minha. Nem sei se falo ou penso. Nem sei se somos dois ou se sou só eu delirando sozinho.

- ...

- O que? Não vai dizer nada?

- ...

- Você ainda está aí, cara? Por f..

- Cala a boca! Acredito que ouvi ...

- Mesmo?

 - Shiii!

- ...

- .

8 de setembro de 2012

Paixão de soslaio



Era alta, esguia, branca, com negros cabelos lisos que desciam até à cintura, olhos castanhos e parecia jovem. Todos os dias, quando eu descia ao bar para tomar algo, repetia-se o ritual. Ela entrava, ordinariamente, dirigia-se diretamente ao balcão, pedia um cigarro apenas e uma dose de rum. A partir daí, revessava-se entre três movimentos simples: diluir o gelo no rum com os longos dedos com unhas rubras, sorver um mediano – nem demorado ou muito menos apressado – gole de bebida ou uma tragada profunda no cigarro.

Minto. Esses eram os três estágios medíocres daquele show banal do qual só eu era espectador. Compunham o primeiro ato. Havia, é preciso dizer, o Nada e o Tudo.  Dois instantes diametralmente opostos no comportamento daquela estranha, duas cenas daquele enredo diário que, desconfio, eram os responsáveis por toda a ansiedade e saudade que passei a sentir por aquela mulher sem nome e sem história.

Cerca de oito ou nove minutos depois que Ela entrava, sucedia-se o Nada. Com a dose e o cigarro perto do fim, Ela retirava o filtro da boca devagar (ou assim eu imaginava?) e permitia que o braço pendesse lentamente. De pé, apoiando o braço direito no balcão e o esquerdo estendido: Indicador e médio seguravam o que sobrava do cigarro e os demais dedos restavam entrefechados. Um tanto vulgar, é verdade. A fumaça que despretensiosamente subia pelas nuances de seu corpo reforçava teses pouco respeitosas sobre Ela, outra conclusão igualmente plausível.  Eu bem pensaria que estava â espera de alguma companhia (que bem poderia ser eu) se não fosse o olhar vazio.

Por trás do forte traçado negro do lápis nos olhos, era difícil acreditar que havia íris, pupila ou mesmo alma. Petrificada, Ela mirava o horizonte além das paredes imundas daquela taverna sufocante. Parecia que viajava tão distante quanto o homem jamais conseguiu ir. Não sei se em busca de alguém, um amor fraterno, maternal, carnal, ou talvez à procura dela mesma. Numa perturbadora incursão dentro do universo de si, mergulhando sem equipamentos nas mais profundas águas: os lençóis de nossas memória. 

Então, enquanto eu estava hipnotizado pelo imenso abismo daqueles olhos escuros como o céu noturno do campo entre as estrelas carentes de atenção; nesse momento, o braço subia outra vez, trazia o cigarro de volta aos frouxos lábios vermelhos e Ela não tragava.  Só tocava com a mão direita uma fina pulseira no pulso esquerdo. Sabe-se lá a história daquele acessório, daquelas unhas e daqueles lábios.

Quando chegava a esse ponto, já estava certo do que viria: a epifania.  De uma só vez, tragava o resto do cigarro (e meus olhos pareciam capazes de dar um zoom a fim de perceber melhor os detalhes da fumaça que quase escapava pela boca entreaberta, mas era imediatamente sugada para dentro daquele mistério alvo), virava-se para o garçom e chamava-o pelo nome:

- Pedro, pode tocar a minha, por favor, meu amigo?

Quem negaria? Eu não e, pra minha sorte, nem Pedro. Então, era a última vez daqueles longos dedos tocarem o copo de rum naquela noite e Ela entornar o derradeiro terço de dose em um gole só. Nos primeiros dias, eu ainda aguardava uma canção tipo balada, uma música em que aquela mulher pudesse se soltar, escapar de toda sensação de sufoco que parecia ter e sentir-se livre. Mas não, a música “dela” era Blackbird.

Já nos primeiros acordes, Ela se levantava, atravessava o salão em direção a uma mesa mais reservada que o balcão, onde pudesse (como de fato sempre fazia) sibilar cada palavra da letra no ritmo e (eu poderia jurar) sotaque corretos. Quando passava, ficava visível a mim, se não estivesse de calças, a tatuagem que tinha na panturrilha direita: um desenho complexo, talvez exotérico ou um símbolo em outro idioma, coisa que nunca descobri o que era, por mais que eu tenha tentado. De olhos fechados, Ela balançava a cabeça no compasso da guitarra de Paul e seu belo rosto era quase encoberto pela cachoeira negra que derramava-se rente sua pele.

Ao invés de despir-se de toda a maldita névoa incógnita que a envolvia, Ela mergulhava absolutamente naquela excêntrica áurea reclusa. Eu esperava que se acabasse de dançar e gritar na “pista”, porém preservava ainda mais suas histórias e gestos. Depois disso, de Tudo, Nada e do cigarro com rum, ia embora. Algumas noites mais cedo noutras mais tarde, nunca soube dizer. Pra mim, desaparecia em meio à penumbra daquela mesa ou era pulverizada pela alegria estridente dos demais casais e grupos de amigos que chegavam para ouvir algum hit novo da Billboard. Nunca a vi sair, uma hora estava lá, quando eu ia ao banheiro, pedia outra bebida, me entretinha na escrita, piscava o olho ou coisa que o valha, já havia sumido.

Obviamente, me apaixonei. Durante dias e semanas fiquei fascinado pelo mistério e a beleza que envolviam aquela mulher, sempre com roupas em tons escuros, linda e – aparentemente – tão distante do meu particular mundo rotineiro e monótono. Aliás, tão distante de qualquer mundo que não fosse o dela. Mas, como já disse a pouco, não encontrei momento certo para me aproximar. Pra mim, aquele ritual se tornou sagrado e grave demais para ser desmanchado por uma tola abordagem mal (ou bem?) intencionada.

Tão súbita quanto foi sua chegada, logicamente, foi seu desaparecimento. O que era de se esperar? Que gritasse ao bar inteiro: “Pessoal - e você que fica aí sentado no canto todos os dias - hoje é meu último dia aqui no bar!”. Aguardei por semanas que ela voltasse, por outras tantas horas imaginei porque não voltava, um mês fiquei a criar hipóteses sobre sua história, histórias sobre sua tatuagem, anotava possíveis nomes que teria nas margens da minha caderneta...  mas, nunca mais a vi e agora não há o que fazer.

Não existe mais sentido vir a esse bar, sentar-me aqui. Até mesmo essas palavras que sempre escrevi nessa mesa, tornaram-se mais vazias e pedantes do que já eram, graças à partida d’Ela. Se, pelo menos, eu tivesse um nome... Quantas chances tive! Eu poderia tê-la abordado na mesa depois que a música terminasse, talvez assim que ela desse o primeiro gole, ou ainda, poderia ter chamado o garçom e pedido que tocasse aquela canção para ela, antes o fizesse Ela mesma...  Mas agora não há mais pistas ou vestígios. A essa hora, ainda cedo para os outros boêmios, só estamos eu e o garçom aqui. Eu e aquele sortudo garçom que era chamado pelo nome...

- Pedro. Ei, Pedro! Vem cá... Posso te fazer uma pergunta, meu amigo?

5 de setembro de 2012

À beira-mar




Ocean, ocean, ocean... O inglês funciona bem melhor do que o português para representar a imensidão do mar. Sentado aqui, de frente pra esse infinito azul, sobre a areia morna e sob a sombra fresca, tudo o que escuto é essa quase-onomatopeia: ocean, o-cean, ôu-xeãnn....A força inabalável de Poseidon suga as margens da praia para as profundezas das águas, a maré se afasta, os grãos de areia são arrastados; subitamente, a onda se erge, imponente (ôu....). O equilíbrio se desfaz, tão fugaz quanto como se construiu, a onda quebra na areia, revira tudo, regurgita o que não quer na espuma, sem negociar (xeãnn...). Ocean, ocean, ocean...

Engraçadas as bobagens que se pensa quando a passagem de tempo deixa de importar. Umas saudades daquelas palavras que nomeiam rostos que já não me lembro, uma consciência serena de que esses serão os dias mais calmos e, porém, mais monótonos da minha vida.

A maré traz um baú sem tesouro dentro, só há um cubo-mágico meio atrapalhado.

16 de agosto de 2012

Minha utopia particular




Fazia muito tempo que eu não entrava aqui. Essa casa que conheço tão bem, onde cresci, passei os dias da minha infância e adolescência, está abandonada há anos. A culpa não é só minha, ninguém mais visita a casa. Todos os parentes, amigos, sonhos e alegrias que habitavam esses pequenos cômodos se foram. Paulatinamente nos esquecemos de nós.

Talvez nos apegamos demais à aconchegante idéia de que casas não se mexem, de que ela seria a mesma eternamente. Só aquele velho casebre branco de janelas desbotadas, sem forro, de telhas, imóvel, parado bem no meio da conhecida rua do morro que leva à Igreja. Faltou sensibilidade para perceber que, diferentemente, nós mudaríamos, seguiríamos vivendo e nos afastando cada vez mais dele.

Eu mesmo não sei porque decidi vir agora. Montei na bicicleta, dei algumas voltas e, quando percebi, já estava quase em frente ao portão. Mas era necessário retornar, passar por aquela cerca esfacelada, abrir a porta e me deparar com a poeira do passado. Minhas alérgicas narinas, era de se esperar, reparam mais na poeira do que no passado, mas o resto de mim...

As coisas estavam todas lá, cobertas por uma espessa camada de pó e uma fantasmagórica roupa de cama branca. O que veio antes: os fantasmas de dia das bruxas americano feitos de lençol ou o hábito de esconder memórias e espíritos sob velhos panos brancos? Ao mesmo tempo que aquele lugar me era extremamente familiar, já sentia-me intensamente alheio a ele. De coisas bobas como a posição da antiga cadeira de balanço, já putrefata, até uma maldita parede vermelha entre a copa e a sala. Eu não me lembrava dessa parede tão incômoda, inapropriada, hostil, petulante... quase vulgar. 

E me irritava profundamente me sentir alheio na casa da minha infância, mas como não haveria de ser? Eu, eu-agora, jamais havia dormido naqueles quartos, jantado naquela cozinha ou ralado meus joelhos naquele quintal de chão batido. Eu não, só um quase esquecido fantasminha de lençol que viveu há alguns anos atrás.

Tirei o casaco e comecei a limpar tudo. Retirei todos os lençóis, fiz uma grande fogueira e os queimei um a um. Não havia mais razão para esconder os móveis. Que fossem usados, destruídos ou doados, pouco importa, mas escondidos não mais. Quando terminei e vi toda a bagunça, parecia impossível organizar aquilo. Impossível e sem sentido, eu não voltaria a morar ali, estava só de passagem. Porém era o que eu queria fazer e quase fiz.

Mas ainda não consegui, a parede vermelha me impede. Estou com uma marreta na mão, parado em frente a ela. Encarando-a. Quase sentindo aquela cor profunda, à prova da passagem do tempo, me encarar de volta. Sem mais ninguém aqui, sem razão aparente – a não ser o fato de que sempre se tem que começar por algum lugar – para derrubá-la, ciente do risco de que todo o teto pode ruir, ciente da possibilidade de que a sala fique muito mais arejada.

Contudo, essa cena é tragicamente incontornável. Eu, a marreta, o vermelho, o cheiro de pano queimando, o crepitar das chamas no quintal, as paredes brancas em volta e um certeiro feixe de sol que passa por uma falha no telhado e repousa sobre meu ombro esquerdo. 

Ainda não me decidi se este é um calor de afago ou de incentivo. 

9 de maio de 2012

Em meio ao furacão


São 1h22 da manhã e a insistência da idéia de começar essa série de textos chegou a um ponto impossível de protelar ou ignorar. Num momento de crise, alguns dão socos em travesseiros, outros afogam as mágoas num bar e ainda tem o tipo meio maluco que sai gritando loucamente pelas ruas. Eu, escrevo.

Imagine-se, por um instante, no seguinte contexto: você precisa construir um castelo de cartas o mais alto quanto for possível. Ninguém te ensina como fazer isso, qual a razão dessa tarefa, ou garante, de fato, que você terá um prêmio qualquer quando terminar. Do nada, bem a la Kafka, você acorda em uma sala escura, com uma única luz que te ilumina, assim como à cadeira que você está sentado e à mesa que está na sua frente. Sobre a mesa, um baralho e um bilhete: “para ter chances de ver o sol de novo, construa um castelo com essas cartas”.



No começo, talvez, você não fizesse nada. Afinal, que coisa mais sem sentido é essa de construir castelo de cartas numa sala escura? Por que diabos alguém iria querer que eu construísse um castelo de cartas? Eu não sei nada sobre isso... por que eu? Mas, cedo ou tarde, a fome ia começar a apertar, a sede, o tédio, a angústia e tudo o mais. Se nada acontecesse, você não teria outra opção, a não ser esquecer sua própria idéia de “lógica”, ceder e, mesmo se sentindo muito estúpido por fazer aquilo, começar a construir seu castelinho, carta por carta.

Já que a metáfora é minha, vamos complexificá-la um pouco mais. Seja lá quem estivesse querendo te estimular a construir esse castelo, obrigatoriamente, teria que sinalizar quando você estivesse no caminho certo para você continuar. Então, provavelmente, depois de alguns “andares” construídos, alguém jogaria uma comida ou uma água sob a porta para indicar “é isso aí, continue construindo. Esse é o objetivo”. Embora continuasse fazendo pouco sentido aquilo para você, instintivamente é provável que continuasse empilhando os cartões de papel, afim de, pelo menos, conseguir mais comida/água.

Agora, considere que essa não é mais a única coisa que está acontecendo no quarto. Subitamente, uma luz se acende em um canto com várias bolas multicoloridas e recipientes também coloridos com um recado parecido com o primeiro, dizendo: “para ter chances de ver o sol de novo, construa um castelo com aquelas cartas e ordene essas esferas por cor”. Você se dividiria entre as duas funções e, até aqui, tudo bem: coloca uma ou duas cartas, depois separa três ou quatro bolinhas. Mas então nos outros três cantos da sala, também se acendem lâmpadas e iluminam outras três tarefas. Não importa muito o quê são, o fato é que você precisa fazer tudo aquilo para ter acesso à possibilidade de ver o sol de novo. Detalhe: tudo o que você tem é uma possibilidade, nada garantido.

Digamos ainda que, caso qualquer tarefa começasse a ser deixada para trás em benefício das outras, uma sirene estridente começava a tocar na sala e luzes vermelhas a piscar, te desnorteando e impedindo, inclusive, que você se concentrasse nas que já estava fazendo. Que tal, para ficar ainda mais verossímil isso tudo (ou não), se os “desafios” fossem ficando mais difíceis? As cartas começassem a aparecer rasgadas, meio amassadas, tortas, dificultando o equilíbrio? Entre as bolinhas, viessem cubos, pirâmides, formas ovais... E, a cada opção demorada e/ou errada, lá vinha a sirene ensurdecedora e as luzes irritantes!

O efeito em cascata é previsível. É bem possível que você se sentisse no meio de uma tormenta catastrófica, já que tomaria conta de todo seu pequeno universo, aquela sala. Seria preciso muito sangue frio para levar uma situação assim à diante, né? Imagino que a vontade, no meio dessa loucura toda, seria de simplesmente sentar-se no meio da sala e ver até onde aquela confusão iria chegar. Mas as cartas não se arrumam sozinhas e nem as bolinhas pulam para dentro de suas caixas por si mesmas.

Aos recém completos 24 anos de idade, quase com meu (primeiro?) diploma de graduação nas mãos, iniciando uma carreira no mundo dos “empregados”, nunca abandonando àquela busca romantizada, pagando contas como gente grande, precisando fazer planos “sérios” pela primeira vez... todos os quatro cantos da minha sala (e mais alguns!) estão bem iluminados e as sirenes e luzes não param de azucrinar minha cabeça.

Esse último parágrafo, geralmente, é dedicado a uma conclusão, um arremate sábio ou coisa assim, naquilo que seria um texto padrão de crônica. Minha sorte é que ainda estou longe de ser cronista, então me livro dessa tarefa pretensiosa e prepotente. Só digo que, pessoalmente, tenho usado a filosofia do "keep calm, work hard and stop the mimimi" - embora esse texto seja quase um "mimimi" - e buscado aproveitar também os sons das sirenes e das luzes de alerta. Elas sempre vão existir mesmo, não estou afim de me descabelar por coisas que, talvez, nem façam tanto sentido pra mim. Vamos dando nosso melhor, se não for suficiente em alguns casos, em outros certamente será.

Vem ni mim, segundo semestre!

9 de abril de 2012

Tentativa #1


Pensamentos fluem a uma velocidade desnecessária
E em quantidade exagerada.
Impulsos imensuráveis, incomuns, inconvenientes e inconstantes.

Sabe,

Quando um pássaro voa, ele não sabe que está livre.
Enquanto o pequeno animal apenas sacia seus instintos,
Nós criamos obrigações sem sentido.

Quando as abelhas seguem para atacar um intruso na colméia,
Não imaginam que, ao ferroar, matam-se.
Enquanto essas se engajam num altruísmo sem limites,
Enjaulamo-nos no egoísmo por opção.

Nenhuma comparação entre a maior parte da Natureza e o seu resto – o Homem - é valida.
Formigas operárias, cães pastores, pombos mensageiros, castores arquitetos...
Inveja infantil de uma espécie que não consegue se contentar.
Pra quem não basta estar satisfeito, pois é preciso ser “feliz” de um determinado jeito.

Entenda,

Minha poesia, se existisse, seria uma prosa incipiente.
Caso as coisas estivessem excessivamente confusas para se organizar em parágrafos,
Atreveria-me a despejá-las numa ou outra estrofe.




No instante em que não houver mais metáforas, a linguagem se tornará insuficiente.

13 de fevereiro de 2012

Esforço recompensado




Esse último gole estava incrivelmente refrescante! Não tem problema, daqui a pouco vou ali na geladeira e encho a garrafa de água de novo. Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Parado sob esse ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa. Uma sede símbolo do trabalho que estou admirando agora. A prova irrefutável para mim mesmo de que a água do meu corpo realmente transpirou e transpirou porque fui eu quem reformou a casa.

Está ali, qualquer um que passar pode ver. A pintura nova, o jardim gramado, o armário da cozinha ampliado e o bendito “quarto de bagunça” feito em jatobá. Tudinho. Não é mais só coisa da minha cabeça, deixou de ser sonho empoeirado de décadas, pra virar realidade sólida como os troncos da parede do puxadinho. É verdade que os meus 48 anos pesaram e que o Gustavo e a Janaína me ajudaram, bons garotos os que eu tenho, mas Julia não pode dizer que não fiz.

Quando a gente deitava na cama e eu começava a divagar, era sempre uma discussão. Às vezes irritadiça e estridente, às vezes irônica e sarcástica.

- Pedro, tem anos que você sequer exerce a arquitetura, tira essa idéia da cabeça!
- Não consigo tirar ela daqui, meu bem, não tem jeito. A casa está uma bagunça, caindo aos pedaços, tá precisando mesmo de uma reanimada, todos nós estamos...
- Pare de usar desculpas esfarrapadas. E, se quer tanto a reforma, pelo menos contrata um empreiteiro, homem!
- Não é a mesma coisa. Nós temos que ser capazes de solucionar nossos próprios problemas juntos. E você sempre quis armários maiores...
- Isso era antes. Você só vai piorar as coisas, Pedro. Escuta o que eu estou dizendo...

Não piorou nada. Mal posso ficar acordado de tanto cansaço, entretanto vejo perfeitamente minha obra de arte. Nem me lembro quais são as tais “bagunças” que eu queria tanto guardar ali dentro. Provavelmente, no começo, eram os brinquedos das crianças. Essa casa era o caos na Terra! Carrinhos por aqui, gritos dali, bonecas sem cabelo, crianças completamente livres. Como eu só conseguia pensar nos tais brinquedos espalhados no chão? Que bobagem!

Agora não há mais brinquedos. Gustavo com 22 e Janaína com 19 não querem mais saber dessas felicidades fáceis, querem é a vida de verdade, os problemas de gente grande que são.

Foi um custo tirar o mais velho dos livros, ele se preocupa demais. Tenho certeza que vai passar na prova da Ordem e, ano que vem, será o advogado – e dos bons - que sempre quis. De qualquer forma, eu precisava tirar ele dali, já não estava mais se concentrando no que lia, nenhum de nós estava mais concentrado em nada.

Até a Janinha... quem conheceu ela pequena, jamais se esquecerá daquela alegria espontânea, contagiante, natural e sincera. Um olhar de céu azul, sem nuvens, sem arranha-céus, sem aviões... só um puro e imenso azul. Os que associam azul à tristeza, não conheceram os olhinhos da Janinha. Com ela foi diferente, tive apenas que dizer no jantar que iria finalmente por “O plano” em prática, que ela se animou tanto quanto eu!

Ia ao meu quarto todas as madrugadas, na minha mesa, com duas xícaras de chocolate quente nas mãos, me dava uma e sentava ao meu lado acompanhando as planilhas, os desenhos e escutando meus devaneios com aprovação. Ela também vai ser arquiteta, mas aquilo não tinha nada a ver com arquitetura. Eu quase vi um fiapinho daquele azul de antes nos olhos dela quando contei que ia pintar a casa de verde-lima, sua cor preferida. Quase.

Júlia não concordou com nada. Só com o lugar onde quis colocar o “quarto de bagunças”, isso eu já sabia. E mesmo assim não foi nem propriamente um concordar, foi uma negligência inexpressiva que, quando comparada às negações contundentes e afirmativas a respeito de todos os outros detalhes, demonstrava uma permissão clara. Sem aceno, sem sussurro, o silêncio irredutível do “quem cala consente”.

Antes do quartinho, ali ficava o poço. Um poço que foi minha maior alegria quando encontrei esse chalezinho há quase 30 anos atrás. Uma trágica fixação por um adorno tão fútil que nunca usamos propriamente fez com que eu comprasse esse casebre. Aquilo trouxe também minha maior tristeza. Todo feito em pedra, com uma roldana de aço velha e uma haste de carvalho que, quando compramos, estava em um bom estado. Porém, o tempo corrói.  Principalmente se não cuidarmos, se não nos atentarmos.

E nos esquecemos do poço, não cuidamos e nem não nos atentamos para ele. Bastou que um de nós se lembrasse daquilo por uma simples noite, há cinco anos, para que nunca mais nos esquecêssemos desde então. Gabriel, meu pequeno anjo.

Eu não quero que isso aconteça com minha casa, nem com Gustavo, nem com Janinha, nem com Júlia. Não quero que o tempo também nos corroa. Não podemos nos esquecer um do outro, não podemos deixar que uma lembrança, por mais trágica que seja, tome espaço das outras e é por isso que precisava da reforma e por isso precisava ser eu: porque EU não quero descuidar, EU não quero desatentar.

Agora não há mais poço, o jardim não é mais de barro e o Gustavo vai poder fazer os jantares ao ar livre com serenata que a namoradinha dele adora – e todos nós, no fundo, também... É difícil manter os olhos tanto tempo abertos debaixo dessa clareira, eles ardem. Minhas costas estão latejando de dor e acho que cortei a mão umas quatro vezes, ainda sim não me recordo de outra vez que estive tão feliz em anos.

Quando Julia chegar do escritório, a cozinha vai estar prontinha, limpa, com tudo no lugar, ela vai ficar contente. Vou ver de novo aquele brilho leve que me fez me apaixonar por ela, aquela pacificidade que habitava nosso lar vai voltar, sei que vai. Pena não ter ninguém em casa agora para me trazer um copo d’água que fosse, é como se tivesse gastado até a última gota do meu ânimo nessa empreitada.

E vai valer a pena. Hoje à noite vamos nos sentar os quatro no gramado, em frente à nossa casa verde-lima pra alegria da Janinha, Gu vai pegar o violão e vamos comer da melhor lasanha do mundo feita pela Júlia. Nossa celebração à reforma! É só esperar que o sol se ponha, que todos cheguem e vejam que o buraco onde o poço estava foi completamente coberto.

Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Sob esse ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa, com olhos fechados.

9 de fevereiro de 2012

26 de janeiro de 2012

Não me olhe nos olhos

De joelhos ao chão, com uma vergonha e uma resignação tão intensa que era impossível olhar-me nos olhos, cabeça baixa, imóvel e muda. Entre nós, o único meio de comunicação era uma placa que dizia qualquer coisa parecida com isso:

“Sou uma mãe. E, para uma mãe, só existe uma vergonha maior do que pedir dinheiro na rua: deixar seus filhos passarem fome. Desculpe não agradecer caso me ajude, já é difícil demais conversar com meus próprios familiares depois dessa decisão. Agora, coloco-me aqui, parada, à espera de qualquer auxílio de Deus e dos homens de bem”.

Eu não acredito em esmolas. De jeito nenhum aceito dar dinheiro aos outros – a menos que estejam de fato produzindo algo: trabalhos artísticos, livros, comida e etc – porque, sinceramente, confio que dar suporte a essas pessoas é um papel do Estado, não meu. Mas, quando vi aquela mulher prostrada diante de mim daquela forma degradante em Santiago de Compostela, na Espanha, considerei ajudar. Fiquei atônito por uns instantes observando. Pouco importava os que passavam, doadores ou não, caçoadores ou não, cachorros ou humanos: ela não se movia. Olhos fixos no chão, queixo apoiado na singela placa de madeirite sobre os joelhos.

Era como se ela houvesse abdicado de sua condição de mulher, de cidadã ou o que seja porque a vergonha pelo que fazia era muito maior que aquilo. Caminhei algumas quadras e aquilo foi me consumindo, o estômago embrulhando com o quanto o mundo havia dado errado para aquela pobre espanhola. Já nem estava conseguindo aproveitar a grandiosidade dos detalhes da arquitetura secular daquela cidade, destino de tantas peregrinações.

- Cara, não consigo, tenho que voltar lá e ajudar aquela mulher. Que merda. – Eu disse pra um dos meus colegas. E ele decidiu voltar comigo.

Voltamos falando como era dramática aquela situação, como deveria ser único aquele sofrimento, como... Quando chegamos ao lugar e eu já ia tirar alguns trocados para dar à ela, meu amigo disse:

- Mas era essa ou aquela ali na frente? Ou será que não foi aquela de azul do outro lado da rua?

De repente, como quando alguém mostra um dead pixel pra você na sala do cinema, percebemos a realidade que não dava pra ignorar! Dezenas de mulheres, posicionadas exatamente iguais, com a mesmíssima placa. Um grande espetáculo do choque, uma gigantesca peça em meio a Santiago!

A áurea nela e a angústia em mim se evaporaram, não ajudei porque percebi – talvez não em todas – um oportunismo no ar, fiz conexões mil com a tradição católica da culpa e me senti incrivelmente ingênuo. A vida pode nos surpreender, sempre.

17 de janeiro de 2012

De sonho e de sangue

Existe uma coisa que une todos os povos da América Latina. E não estou falando nada sobre os problemas históricos e desafios econômicos que acumulamos ao longo dos nossos poucos seis séculos de existência com o nome que usamos agora. Falo algo de hoje, do panorama atual do nosso dia-a-dia.

Eu gosto bastante de uma frase que é atribuída ao Machado de Assis, "temos que ser homens de nosso tempo e nosso país". Uma interpretação possível do que o autor carioca quis dizer com isso é que precisamos estar envolvidos nos nossos problemas e no nosso contexto, seja econômico, social, cultural ou o que for. Mas hoje, se eu tivesse a oportunidade, sugeriria que Machado substituísse a palavra país por continente.

Vivemos um momento de inigualável sintonia entre todos as nações latinoamericanas. O século XXI tem, mais uma vez, tudo para ser o nosso século. Se, por um lado, lideranças de grupos marginalizados vem alcançando os postos mais altos de cada país: militares de esquerda na Venezuela, índios na Bolívia, mulheres no Brasil, na Argentina e no Chile. Por outro, os sucessivos colapsos financeiros na Europa e nos EUA expõem as falhas do modelo vigente. E isso é percebido - detalhe que torna tudo ainda mais estupendo - pelos próprios europeus e estadunidenses. Essa conjuntura dá mais uma vez aos latinos-americanos a chance de serem aqueles que dão as cartas em seu próprio jogo.

Mas, antes, é preciso saber em quê apostar. Eu vivo com um sentimento de que a década de 90 e a primeira do século XXI passaram muito rápido. Nós não aprendemos tudo que tínhamos que aprender com os movimentos de 80, de 70 e até mesmo de 60. Às vezes me parece que esquecemos de problemas muito essenciais do nosso quintal como acesso à educação, saneamento básico e distribuição de renda, para dispendermos nossa energia com revolta com agenda de bandas internacionais, falta de estrutura de aeroportos ou preços de produtos high-tech.

Não me entendam mal e nem me interpretem errado. Não estou dizendo para abandonar tudo o que fazemos e voltarmos àquela antiga ideologia radical (de ambos os lados) dos anos de ferro brasileiros. Isso por dois motivos: o primeiro é que hoje em dia nada disso funcionaria mais, o contexto mudou, as teorias precisam mudar junto; o segundo é que 8 e 80 quase sempre dão errado. O que estou tentando dizer é que alguma coisa ficou pelo caminho, ainda temos que terminar (ou completar) o que começaram.

E uma das mais contundentes e atuais provas que vi de que existe uma conexão cognitiva muito profunda entre todos nós, povos da América Latina, foi um dos episódios do ciclo da TV pública Argentina "Presidentes de Latinoamérica". Um trabalho documental - quase uma Grande Reportagem biográfica, na verdade - sobre o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Um video imperdível, seja pela peculiaridade da história de Lula, seja por nos mostrar como uma iniciativa argentina conseguiu transmitir tão bem uma fase importantíssima da História brasileira. Bem mais sensível e informativo do que o "Lula, o filho do Brasil", o pequeno (1h20min) documentário expõe as dificuldades que o presidente passou, suas posições ideológicas, sua família e, inclusive, o assistencialismo ostensivo assumido ou a forma como ele é venerado mesmo que, em alguns casos, as pessoas nem ao menos saibam enumerar as melhorias mensuráveis que seus oito anos de governo trouxeram além do "fez muito pela gente".

Esse texto ficou bastante confuso, cheio de ideias que, certamente, poderiam ser arranjadas de uma forma melhor. De todo modo, segue abaixo o video, um trabalho que nos faz repensar sobre nosso lugar, nossos objetivos e sobre como somos nós mesmos que temos que (e podemos) ir lá e conquistá-los.

"A Unasul, no século XXI,  pode fazer uma mudança radical do que aconteceu no século XX,  descolonizar a mente de boa parte da nossa elite e fazê-la começar a acreditar que a solução dos nossos problemas está em nós e não está fora do nosso continente", Lula.

Os 10 piores clichês cinematográficos

Vi esse video por aí e tinha que colocar ele por aqui!


"Let's kill it before it grows"

10 de janeiro de 2012

A caverna de outra forma

Aproveitando essa fase meio debandada pra filosofia, vou postar um stop motion bacana que vi baseado em uma das obras mais conhecidas do Platão. É uma alegoria de Caverna (presente num diálogo entre Platão, seu irmão e Socrates, no começo do Livro VII) foi dirigida por Michael Ramsay e os bonecos são feitos de argila. Mais de 4000 fotos foram necessárias para fazer o curta que levou o prêmio de melhor animação no USA Film Festival Short film and Video Competition 2008.


Lembrei daquela frase que dizem que é o Einstein:
"A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original"

(via S&H)

8 de janeiro de 2012

Três portas para o infinito

Filosofia é um tema que me interessa pra caramba. Não sei nada - sem falso estilo - mas isso me incomoda pouco. O fascínio que me causa entender de relance ou me identificar com pequenas passagens dentro das galáxias conceituais que essa ciência artística nos apresenta é sem igual.

Aí, vagando pela internet como de costume, achei essa ótima série da BBC sobre existencialismo. São pequenos documentários veiculados em 1999 sobre os três maiores nomes dessa corrente de pensamento que surgiu na primeira metade do século XX e ainda parece profetizar muito do que vivemos hoje. Tudo numa linguagem bem simples, meio superficial - como todo programa de TV, mas ainda sim um ótimo cartão de boas vindas.

Que papel a moral ainda tem sobre nós? Qual é o significado da Liberdade? Até onde vai o verdadeiro potencial do Homem? Essas são algumas das questões que esses três gênios, demasiado humanos, nos apresentam. Nos apresentam abrindo diante de nós portas para a imensidão sem fim, tanto de suas próprias ideias, quanto da Filosofia e também de nós mesmos. Impressionante, né?

Vou postar na ordem em que assisti ao invés da que foi ao ar na época. Porque gosto mais do Sartre e - por enquanto - não conheço nada além desses simples quarenta e poucos minutos de Heidegger. Só por isso, gosto pessoal.