6 de dezembro de 2011

Em espiral


É quase impossível descrever a sensação de acordar assim. Mas, de toda aquela realidade inacreditável que me rodeava, o que eu mais odiei foi a chuva gelada que insistia em cair. E eu detestei aquelas grossas gotas que mais pareciam cubos de gelo porque foram elas que me acordaram.

Primeiro você resiste acordar, ignora as gotas em favor de seus sonhos ensolarados. Do que me importa o "mundo real", se aqui tudo é perfeito. Do tamanho do gramado à precisão do calor do sol. Do contorno do horizonte ao ondulado dos cabelos sobre meu colo. Dos tons das cores das casinhas camponesas às modulações harmônicas de uma risada querida.

Entretanto, gradativamente, você deixa de escutar os pássaros que passam a piar mudos, a pele tocada torna-se rígida e áspera, os inúmeros beijos seguidos são, embora molhados, agressivos e quase dolorosos. Quando, no fim, seu sonho já está totalmente tomado pelo chiado ensurdecedor da tempestade e tão somente, você resigna-se a abrir os olhos.

E quando eu fiz isso, minhas pupilas demoraram alguns segundos para registrar bem o que estava à minha frente. A chuva e a noite dificultaram bastante, ainda que uma parede de pedras não seja lá o maior enigma do mundo. Uma parede de cerca de 10 metros de altura de pura rocha não é o maior enigma do mundo, mas subitamente acordar sozinho, numa noite chuvosa, rodeado de três lados por algumas delas pode ser uma charada e tanto.

Eu estava usando aquela minha camiseta predileta e minhas calças jeans estavam estranhamente rasgadas de forma aleatória. Os pés descalços permitiram-me sentir a lama do chão, pegajosa, encharcada, asquerosa, cheia de pedregulhos semipontiagudos. Olhando ao meu redor só pude perceber o céu carregado e as imensas paredes que formavam um estreito corredor rochoso, exceto pelo fato de que não havia porta de entrada ou janela ou abertura qualquer atrás de mim. Só uma alternativa era possível, seguir em frente.

Chequei meus bolsos três vezes e estavam completamente vazios. Caminhando, pude perceber que o corredor se dividia em dois caminhos, tomei o da esquerda por motivo algum. Esse logo se dividiu em outros dois caminhos. Depois de quatro ou cinco curvas e mais ou menos quando o frio fez meus ossos doerem pela primeira vez, percebi que estava em um labirinto. Sempre detestei esses malditos jogos. As paredes pareciam iguais, os caminhos os mesmos. Por mais que tentasse não fazer percursos circulares, sentia como se não estivesse me movendo. Não havia sequer como me orientar com o céu nublado daquela forma.

Qual era o tamanho dessa coisa? Para qual lado fica a saída? Devo ir em direção ao centro ou à borda? Em qual sentido fica a borda? E o centro? Por que diabos eu estou dentro de um labirinto? Qual o sentido de continuar andando? Será que devo ficar parado esperando alguém chegar?

Andei indiscriminadamente à exaustão, por horas e horas, creio, fracassadamente por aqueles estreitos corredores. Tentei também escalar as paredes, só que a chuva torrencial tornou as rochas escorregadias demais... Meus dedos sangravam com a pressão da unha contra a carne, meus joelhos estavam doloridos pelas vezes que os choquei contra a pedra.

No momento em que já quase não conseguia me mover, quando me joguei no chão e pensei em gritar, pela enésima vez, meu chamado foi abafado. No mesmo instante, um som agudo e interminável de metal contra metal ressoou. Algo como uma porta de aço que não fora aberta há milênios sendo lentamente arrastada, salvo o fato de que não era uma, mas dezenas. Quando olhei para o alto, à procura da origem do som, percebi que não eram portas, mas pequenas aberturas espalhadas por toda parte e, tão logo identifiquei-as, começaram a derramar mais lama para dentro dos finos corredores.

Não se tratava exatamente de lama, era uma gosma mais sólida e morna que começou a conspurcar as paredes, o chão, todo o meu corpo. Não consegui perceber o que era aquilo, mas definitivamente também havia terra misturada. Terra e milhares de outras coisas que prefiro não pensar sobre... Quando o nível chegou à minha canela notei o que estava acontecendo: eu precisava sair dali o mais rápido possível.

Instantaneamente o cansaço e a dor passaram, quase podia sentir a adrenalina correndo nas minhas veias como se tivesse sido injetada naquele exato momento em todas as células do meu corpo ao mesmo tempo. Corri, corri sem parar e tentando pensar o mais rápido que podia.

Por aqui já passei... Se eu virar aqui e depois ali, vou sair naquele lugar... Calma, agora com certeza você está chegando mais próximo... Depois daquela curva, tenho certeza... Não, depois dessa, 100% certeza.... Droga, raciocina! Vamos....

Porém, pensando bem, acho que, até quando a coisa chegou ao nível um pouco acima do meu umbigo, eu ainda tinha alguma esperança. Não sei porque, mas me apegava, internamente, a algum happy ending, uma intervenção transcendental, um anti-climax qualquer, um “olhe para a câmera, você está no programa de domingo”, algo do gênero. Nada veio.

Já estava difícil de me locomover, minhas pernas esbarravam-se em pedaços de coisas que boiavam em meio àquela substância quente e fétida, mas eu precisava seguir o ritmo porque quem quer que fosse que estivesse mantendo aqueles alçapões abertos, não mostrava misericórdia.

Mesmo com as mãos machucadas, eu precisava tentar deslocar as pedras da parede. Foi inútil. Prendi minha respiração e tentei cavar o chão, quando voltava à superfície tive a nítida impressão de que dedos inertes tocaram meu rosto fortuitamente e acabei soltando o ar submerso. Enquanto eu tentava não colocar todos os meus órgãos para fora a fim de me livrar do gosto amargo daquilo na minha boca, o nível chegou aos meus ombros.

Continuei “correndo”, mas o cansaço já era maior do que eu, minhas pernas – e agora braços – estavam incrivelmente pesados, não havia mais o que fazer. Eu cheguei há uma última curva que lembro exatamente do quanto desejei que fosse uma porta, uma libertação... No fim, era mais um beco sem saída.  Com a gosma na altura das minhas narinas, nem antes e nem depois, tive a idéia de como me livrar daquilo e tudo fez sentido.

“Preciso pender meu ar”, pensei. Era óbvio, prender meu ar e nadar até o topo das muralhas. Ousado e simples. Quem quer que estivesse fazendo aquilo comigo queria que eu tirasse uma grande lição: de que é necessário passar por provações para alcançar a vitória. É preciso se esforçar e até enfrentar maus bocados para chegar às alturas. No fim, eu só tinha um amigo que gostava de levar a sério demais suas metáforas. Foi o que fiz.

Foram os 70 segundos mais longos da minha vida. Creio que quase desmaiei em algum momento, mas o gosto repugnante que entrou pela minhas narinas e boca me fez acordar. Quase me afoguei, quase desisti, não parecia que estava subindo quando mexia os meus braços. Ao contrário, tinha a nítida sensação que estava afundando, naufragando pateticamente. Só sei que, de alguma forma, cheguei à superfície e o topo da muralha estava há uns 30 centímetros das minhas mãos.

Todo sujo, cansado e machucado, mas aliviado, me agarrei àquela beirada e senti que tudo havia terminado. Imaginei que do outro lado haveria um jardim ou uma casa, imaginei que veria rostos conhecidos, que a chuva cessaria e que, embora traumática, aquela claustrofóbica experiência teria chegado ao fim. Pensei que a lama deixaria de subir e que todos ririam e se sentiriam orgulhosos da minha coragem de ter mergulhado naquela “coisa”.

Mas do outro lado não havia jardim, casa ou rostos conhecidos. Embora totalmente esgotado e quase descansado por antecedência por ter superado aquele desafio caótico, não pude baixar a guarda. A chuva realmente cessou, mas do outro lado da muralha não havia nada a não ser o mar: imenso, indiferente, estupidamente sublime, lá embaixo, no final de um penhasco que pra mim parecia ter milhares de quilômetros de altura.

Voltei-me para trás a tempo de ver somente que o nível do líquido não parava de subir e que o labirinto estava solitário no topo de uma minúscula ilha rochosa rodeada de água por todos os lados. A gosma encobria o labirinto lentamente. Eu sabia que se esperasse demais, provavelmente escorregaria e não teria chances de pular para me afastar a uma distância segura das rochas, mas também não tinha certeza que se eu pulasse, a água seria suficientemente profunda ou se eu conseguiria nadar naquele frio e cansado como estava.

Contudo, naqueles últimos instantes, eu não pensei qual era o sentido da vida, de onde eu tinha vindo, como eu havia parado ali, quem sou ou nada do tipo. Só uma pergunta gritava no meu cérebro a 299.792.458 m/s: Será que eu consigo pular?


Sobre o sentido de uma coisa


Escrever é uma forma de expressão. É uma expressão de sentimento assim como o cantar, o dançar, o pintar. Escrever é uma expressão de sentimento aliada a uma percepção deslocada da realidade. É uma expressão de sentimento, deslocada da realidade que reflete um repertório vasto de leitura. Em outras palavras, escrever é um jeito que você pode usar para dizer ao mundo o que você sente sobre qualquer coisa.

Eu vivo um paradoxo interior: gosto de escrever, mas não escrevo. Por quê? Porque escrever é difícil, mas pensar nisso só tem me bloqueado ainda mais. Às vezes sei que temas são fáceis de encontrar, às vezes tenho certeza de que a minha técnica é muito fraca e que as poucas linhas que escrevo perderão todo o sentido em poucos meses.

Ideias incompletas ficam borbulhando na minha cabeça. Textos pela metade, enredos moribundos, personagens demasiadamente simples, situações óbvias demais, estruturas forçadamente encaminhadas.

Mas acho que, só de ficar pensando tanto isso, revelo um significado: eu preciso escrever. Preciso me encontrar ainda, claro. Preciso parar de vagar e tenho que começar (ou continuar) seguindo um caminho mais preciso. Investir em conteúdo, ler mais, praticar mais. Sei lá...

Um dia me encontro ou talvez alguém me encontre, tanto faz.


25 de outubro de 2011

Inclassificável


Ele não fazia a menor ideia de onde estava. Procurou dentro da caixa de brinquedos, sob a cama bagunçada, perguntou a todos os amigos da rua e nem sinal. Voltou para casa e arrumou todo o quarto, empilhou as roupas espalhadas pelo chão e ousou vasculhar o cesto de lixo do banheiro: nada.

Mas também é compreensível, algo difícil de encontrar o que ele tentava, principalmente pra uma criança. Essa coisa que, olhando de um ângulo parece ser tão minúscula e irrelevante, mas por outro lado grita e berra, ficando impossível de se ignorar. Um treco cheio de pontas afiadas e feito de veludo. Gostoso, quente e cheiroso, além de repugnante, enjoativo e gelado. Tudo poderia ser e não deveria atender por nome nenhum.

Exatamente isso, nome nenhum. Algum maluco, provavelmente cientista, em indeterminado lugar na História resolveu catalogar essas "anomalidades do universo" criando um grande grupo, julgá-los e subdividi-los de acordo com sua mentezinha medíocre. E, aposto, usou uns sacos de farinha – sem fermento - para juntar um bocado disso e chamar de “tristeza”, um punhado daquilo e nomear “desejo” e colocar certa porção misturada com o nome de “curiosidade”.

Acontece que, na vida real, espalhados aí pela atmosfera, esses fenômenos na humanidade (se é que podemos chamá-los assim) estão todos misturados. Uma bagunça caótica que não faz o menor sentido pra gente, como pr'O Catalogador, com aquela necessidade sem fim de que tudo esteja no lugar. Que tudo sempre acabe bem... Que grande bobagem! O amor tem pitadas de dor, a saudade é uma mistura milimétrica de nostalgia-alegria-melancolia, até o sofrimento pode ter um toque de prazer. Os fenômenos são libertinos. Os Catalogadores ficam só a tentar engarrafar neblina.

E a criança seguia procurando porque é isso que crianças fazem. Pouco importava, na verdade, o que ela encontrasse. Tinha ainda o mundo inteiro desencontrado frente aos olhos. Enquanto seguia buscando, ia experimentando infinitas porções de fenômenos sem perceber: embebadando-se, empanturrando-se e banhando-se neles. Fatalmente inevitável, essencialmente imprescindível.

12 de agosto de 2011

Norma poética da língua

Parágrafo único:
Esqueça os manuais, amar é verbo irregular – e como! – que só pode ser conjugado na primeira pessoa do plural.

1 de agosto de 2011

Só pra não esquecer

O que nós, jornalistas, somos / fazemos:

Não passeia, viaja a trabalho;

Não conversa, entrevista;

Não faz lanche, almoça em horário incomum;

Não é chato, é crítico;

Não tem olheiras, tem marcas de guerra;

Não se confunde, perde a pauta;

Não se acha, ele já é reconhecido;

Não influencia, forma opinião;

Não conta história, reconstrói;

Não omite fatos, edita-os;

Não pensa em trabalho, vive o trabalho;

Não vai à festas, faz cobertura;

Não acha, tem opinião;

Não fofoca, transmite informações inúteis;

Não pára, pausa;

Não mente, equivoca-se;

Não chora, se emociona;

Não some, trabalha em off;

Não lê, busca informação;

Não traz novidade, dá furo de reportagem;

Não tem problema, tem situação;

Não tem muitos amigos, tem muitos contatos;

Não briga, debate;

Não usa carro, mas sim veículo da redação;

Não é esquecido, é eternizado pela crítica;

Não morre, coloca um ponto final.

Thiago Quirino - Jornalista de coração

21 de junho de 2011

A internet é uma rua gigante


"Eu quero é a rua!", é isso que eu ando pensando nesses dias a todo instante. Não adianta, mesmo com as matérias finais a cumprir na faculdade e com o TCC - ainda vou falar dele mais detalhadamente por aqui - gritando por atenção, eu quero de vez aquela alma que o João do Rio imortalizou em 1908. E é justamente por isso que voltei a escrever no L.I..



Senti saudades desse Gerador de improbabilidade infinita. Adams deve ter levado um baita susto quando em 1990, ele viu que sua criação intergalática dos anos 70 não era assim tão impossível de existir ou algo do tipo. Senti saudades desse grande fórum de ideias que é a blogosfera. Sem desmerecer os blogs de humor como o trollando, chongas, will tirando e o clássico Sedentário e Hiperativo que têm seu inegável e hilário valor, mas estou falando de palanques de discussão, vitrines de opiniões e de trocas de ideias como Trezentos, Outro Olhar, Ciberescritas, Vi o mundo, Fora do Eixo, Limão em Limonada, Overmundo... enfim! Pra não citar os temáticos de cinema, literatura, esportes, televisão, música, cachorros e qualquer outra coisa que você imaginar! Posso confessar? Sou completamente apaixonado por essa multiplicidade disforme que é o mundo virtual. E quero brincar também. Ou melhor, voltar a brincar.

E digo brincar pelo duplo sentido do prazer em escrever e da despretensão do conteúdo. Blogar é como se fosse uma forma de expressar e nem sempre a gente tem algo realmente "útil" pra dizer. Mas o mundo é feito também de inutilidades. Sem elas, a vida fica muito séria e necessária, aí errar começa a virar sinônimo de perder, de ser menor, de desperdício, de fraqueza, quando você menos percebe está lá, estagnado e descontente. Experiência própria.

Mas, voltando ao assunto principal e mais empolgante do que minhas eventuais divagações: a internet. É claro que ainda existem mil problemas de falta organização , de referência, muitas pessoas fazendo coisas sem notar a dimensão das consequências e, o pior de tudo, a falta de acesso a esse admirável mundo virtual.

Segundo o Ibope, pouco mais de 43 milhões de pessoas têm acesso à internet no Brasil hoje. Poxa, já somos mais de 190 milhões de cidadãos tupiniquins! Faça as contas que eu te ajudo: se 190 é igual a 100%, 43 é igual a: apenas 22%. Acho que não preciso dizer mais do que isso.

O melhor da rede/nuvem/esfera virtual ou qualquer outro nome que você preferir, é a essa coisa de "milhões falando para milhões" - por exemplo, que sensacional não é um link? daqui, vou pra lá, volto, passo adiante... - Imagine uma grande avenida tomada por uma efusão de loucos de todos os tipos: políticos, fanfarrões, esquerdistas, mauricinhos, orkuteiros, tumblers, videomakers, cozinheiros... Essa autoestrada infinita e lotada é a internet. Eu estou aqui só para dar uma contribuição singela nessa bagunça. Embora, convenhamos, fosse ser muito mais divertido se os outros 147 milhões de colegas do bairro também fossem convidados!

Permita o início da zaragata selvagem!


20 de junho de 2011

Lula discursa a blogueiros em Brasília

O Ex-presidente da República esteve presente no II BlogProg (Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas). Assista o video abaixo.



23 de maio de 2011

Metáforas

A ganância insaciável do Homem e também só um cara comum que não sabe dividir amizade e paixão.



Diz se essa tal de metáfora não é o máximo?

4 de maio de 2011

Infância no papel

Revirando minhas coisas, achei um pequeno papel. Acho que é uma folha de alguma caderneta ou dos antigos blocos de rascunho que meu pai usava para anotar os pedidos dos clientes da lanchonete dele. Devo ter escrito quando tinha uns 13 ou 14 anos. Reli essas poucas linhas, sem estilo, rasas e inocentes, sentindo uma nostalgia intrigante, de quem sabe, para bem e para mal, que muito daquele tempo passou para sempre e muito dele permanece.


- Cenas do meu futuro romance -

- Personagem que aparece, de repente (mora distante) e acrescenta muito na história, mas"misteriosamente".
- Homem é aprisionado por uma planta carnívora e, com uma simbiose, eles se mantêm vivos por um milênio, até crianças tirarem ele de dentro de lá.
- Um dia perfeito: depois de quase morrer, o simples e perfeito.
- Todos em um quarto de hospital e um dos visitantes fala: "Por favor, querida, me espere lá fora" e os assuntos começam.
- "Com uma condição: só se você almoçar comigo"
- Reencontro debaixo de chuva.




...Oito mil e quatrocentos dias...

3 de maio de 2011

A pedra do mundo


Alguns, como eu, pensam que poesia fala de um mundo possível. Uma realidade que não existe ao mesmo tempo em que está presente em todos os nossos segundos. Essa é uma pequena homenagem do Instituto Moreira Salles à Drummond, à No meio do caminho e, de algum modo, a toda universalidade do Poema.




2 de maio de 2011

Inveja



Tenho uma confissão a fazer: invejei.
- "Até" você?
Sim. Sucumbi cegamente às malícias do demônio dos olhos verdes. De toda minha alma e essência, cobicei-a: a primeira namorada de Manuel Bandeira. E odiei imensamente o poeta por ter o que sempre desejei. Desde o primeiro momento em que li aquele poema Porquinho-da-índia, imaginava-a, Senhorita Porquinho-da-Índia, e o quão feliz ela seria comigo e não foi com ele. Eu construiria para ela um quarto todo cheio de tubos, do chão ao teto, onde minha pequena pudesse ver segura seu universo inteirinho. E, em cada gaiola, haveriam três fogões - sem gás - para ela se esconder. Como o pai que chega a inventar (!) um escorpião sem veneno para realizar os anseios do filho, eu faria dela mais feliz do que qualquer um poderia, seria eu melhor, até mesmo, que o Grande Bandeira.

E não venha me dizer que poderia ser qualquer um, que eu poderia agora mesmo ir a um lugar e encontrar um porquinho qualquer que fosse. Não! Eu queria aquele, tão cheio de inocência e melancolia, tão amado e frágil, todo metáforas e lirismo, o singelo e imortal porquinho-da-índia daquele poema. E, se eu o tivesse... se eu o tivesse, minha existência seria plena!

Quando minha mãe, conforme de fato fazia, gritasse ao eu ainda pequeno, "Ei, menino, não vá se esquecer de arrumar o quarto!" ou qualquer outro simplório-impossível problema de meninice, eu responderia. Responderia não, proclamaria, com um formalismo deslocado, irônico e brincalhão que cai tão bem às crianças de seis anos:

- Oh, pois sim, compreendo e bem que gostaria, mas agora infelizmente não posso, tenho que alimentar a Senhorita Porquinho-da-índia...

E pronto. Iria ao quarto dela com os pequeninos pedaços de ração na palma da mão e lhe daria parte a parte. Uma por uma. E depois de alimentá-la com todo carinho, puxaria o banquinho e ficaria ali sentado admirando o mundo dela. Vendo ela correr por todos aqueles corredores de tubos coloridos. Subindo pelo amarelo, descendo pelo azul, correndo no vermelho... Ficaria ali perplexo olhando a felicidade fácil daquele bichinho. Deslumbrado em ver a existência comum de quem come, dorme e brinca de correr por tubos multicores. Ela se esqueceria de seus fogões perigosos se fosse minha, Bandeira...

E aí, quando eu estivesse no maior dos meus êxtases, no auge dos meus devaneios, quase me perguntando "será que ela percebe que são sempre os mesmos tubos ou acha que o seu universinho é infinito?"... Nesse instante é que minha mãe chegaria na "frestinha" da porta. Ela me olharia com ternura e se esqueceria do quarto bagunçado, do vaso quebrado, do dever por fazer e tudo o mais. Só ia me abraçar e dizer: "filho, já está anoitecendo, vem jantar com a gente, vem..."

E assim seriam todos os meus dias ao lado da Senhorita Porquinho-da-Índia. Como eu invejo você, Poeta Menor! Se minha musa fosse minha, imortal como é, ainda estaria aqui, junto a mim, alimentando esse sentimento sem tamanho e sem forma. Então, quando alguém no mundo lá fora gritasse:

- Ei, homen, não vá se esqueçer do trabalho! Nem dos estudos, nem do relatório, nem dos Clássicos, nem do Saber, nem das Guerras, nem da Humanidade, nem da Filosofia, nem da Justiça, nem da Fome, nem do Trabalho de Conclusão de Curso, nem das festas, nem dos amigos, nem dos outros, nem do amor, nem da dor, nem da Perfeição, nem do Povo, nem do Foco, nem de ser alguém nessa vidinha sua aí!

Então - e como me dói o coração pensar nessas injustiças da vida, Manuca! - eu poderia proclamar de novo:

- Oh, pois sim, compreendo e bem que gostaria, mas agora infelizmente não posso, tenho que alimentar a Senhorita Porquinho-da-índia...


30 de abril de 2011

Sem lugar




Sabe, acabei de ouvir uma história muito estranha. Diz que num lugar muito, muito distante e coisa e tal havia um garoto. Um garoto que havia nascido para ser príncipe, quer dizer, um garoto para o qual haviam dito tinha nascido para ser príncipe. Fechado numa torre, isolado de todos, esse garoto tinha nascido e vivia. Não sei direito como, conseguiram criar o tal do menino longe de todo mundo e de tudo. Na sala que era o quarto dele, entregavam-lhe algumas páginas, uma vez por ano. Justamente nessas páginas que estava escrito aquela baboseira toda de ser príncipe.

Eu não sei como ensinaram o garoto a ler, mas só que ele sabia ler e que lia aquilo obssecada e repetidamente. Ele lia nas folhas que havia de agir assim, pensar assado e se comportar de um jeito diferente. Todo mundo sabe que príncipes não são iguais a qualquer um. E que ele não deveria pensar como um príncipe, embora e justamente já estivesse destinado a ser. Depois de certo tempo, um bom bocado de anos, pararam de chegar as cartas. Mas ele não se surpreendeu, elas sempre diziam que isso ia acontecer. "um belo dai, vossa majestade deixará de receber esses escritos e isso significará que terá chegado a hora crucial". E assim foi.

Ele esperou por duas ou três estações. Queria se certificar de que o momento havia mesmo chegado, afinal não se sentia príncipe ainda. Não o membro real iluminado de quem as cartas falavam. Aquele quem conhecia a tudo e a todos. O qual todos do reino depositariam suas esperanças e o que guiaria seu povo à Glória. Isso porque as cartas não traziam os conhecimentos em si, só diziam "você precisa saber isso" e nunca o que "isso" significava.

O garoto "príncipe", então, girou a maçaneta da porta de seu quarto a qual, segundo lera, permanecia sempre trancada. Não é que a porta abriu?! Me contaram que esse moleque saiu por aí então com aquela ideia fixa para fora do castelo. Mas o castelo não era castelo, era só um pequeno conjugado no centro de uma grande cidade.

Sem entender nada, ele vagou procurando os membros da família real. "Onde está o rei?" peguntou ao primeiro que viu. "Rei? Que rei? Isso aqui é um país livre e agora, o máximo que vai encontrar é um presidente", respondeu o vendedor da padaria da esquina com cara espantada e debochada. Aos risos de todos, esse menino saiu desnorteado pela avenida movimentada.

Ele, segundo diziam aquelas letras cursivas em papel amerelado de sua infância, era filho de grandes intelectuais do reino. O Rei e a Rainha mais sábios de toda a História. Por isso, sabia que tinha uma inteligência e um olhar crítico ímpar. Eu sei lá como, o tal do moleque conseguiu se adaptar mais ou menos bem ao meio. Ele fez uma prova na melhor escola superior do mundo e, isso quem me contou não explicou direito, acertou tudinho.

Todos à volta se admiravam com a capacidade e o potencial do garoto que ficava feliz com aquilo. Tanto se espantavam - qual irônica não é a arte das Letras - o chamavam de Príncipe. Príncipe, que não era mais príncipe coisa nenhuma, seguia então se enganando naquela etérea ilusão de aconchego.

Mas, com todo mundo bem sabe e o poeta escreveu bem "mentir para si mesmo é sempre a maior mentira". Príncipe ou como quiserem chamar esse coitado, percebia a farça toda lá no fundo d'alma. Enquanto todos os outros se encantavam com sua sabedoria, ele tinha certeza que era raso e vão. Sabia que tudo não passava de ter a sorte de ouvir justo as perguntas quais sabia enrolar melhor. E, claro, uma pitada de sorte.

Depois contaram ao pequeno-velho-homem-garoto-príncipe que toda sua família havia morrido em uma sangrenta "Guerra pela Liberdade" que comemoravam uma vez por mês - Viva a Liberdade! - naquele longínquo Estado. E tudo que aquele povo festivo e alegre falava advinha da vitória sobre a família, o sangue e o passado do pobre diabo herói desse conto.

Mas ninguém sabia. E não poderia saber, pensava ele. Ora, ninguém denuncia ao inimigo seu próprio tendão de aquiles! O príncipe seguiu anos e décadas sem entender e prosseguindo sua caminhada sem seus antigos pergaminhos anuais. No "castelo" ele sabia exatamente como agir, o que fazer. Embora nunca agisse e fizesse, ele sabia. Agora agia e fazia sem saber se estava certo e sentindo, solitária e recorrentemente, que estava errado.

Havia algo nele que o denunciava. Algo que o inimigo percebia inquieto: "esse não é dos nossos. não sei o que ele é, mas não é como nós". O moleque sabia, sentia nos olhares dos outros e nele mesmo.

Na vida social e fora dela, ele seguia os caminhos que lhe eram impostos por opção, mas com consciência de que aquele não era o seu lugar, o seu universo. "Ora, melhor isso que nada", ele pensava. Todos mortos, todos velhos, seu mundo havia sucimbido e esquecido do último, aquele que conservaria a espécie. Porém, espécie de um só não é espécie, é um só.

Nas noites frias e nos dias ensolarados, ele lia e relia os velhos pergaminhos (que pareciam muito mais velhos do que de fato eram, ele observara). Lendo se perdia nas bucólicas descrições: "e vossa majestade terá um mundo ao seu redor. Nosso justo reino que sempre prezou pela igualdade o acolherá como é. Haverá o Sir Diácono Primeiro, que será seu irmão confidente e inseparável. Toda a tropa do exército o ouvirá falar e seguirá seus dizeres sobre o Mundo Melhor. Sua família o aguarda ansiosamente para que juntos gozem de inúmeros banquetes e festas ao som da Companhia Imperial de Entretenimento. E haverá uma donzela, uma que como vós está sendo criada isolada de tudo e de todos para que só tenha olhos para vossa majestade na maioridade. Ela lhe reconhecerá pelo trejeito, pela distinção e pela nobreza..."

Horas e horas a fio o idoso-velho-novo-príncipe-rei-cidadão perdia-se nas letras dos pergaminhos em vão. Se havia uma certeza, era de que toda a dinastia das cartas havia ruído... chegava e questionar-se: "será mesmo que existiu? Não terá sido um pobre gari ou humilde diarista quem me encontrara ainda bebê e havia ousado iludir-me assim? Não passará isso tudo de uma doce e inconsequente ilusão de um homem lunático? Não serei eu só mais um, que se engana sem saber? Nunca os vi e nem eles a mim..."

Só sei eu que, no fim, ele achou a tal da moça numa esquina, esbarrando, derrubando os livros dela e trocando olhares românticos. Ela, sem o menor esforço, reconheceu nele, com um brilho ímpar, as três virtudes das quais ouvira dizer em seus papiros de meninice: o trejeito, a distinção, a nobreza. Os dois assim, depois de alguns meses de cortejo à moda antiga, se casaram, foram felizes para sempre e tudo o mais.

Mas é claro, isso, graças só ao aspecto puramente ficcional dessas linhas que você acabou de ler.

26 de abril de 2011

Um outro Poeta Menor



Próximos do aniversário de nascimento de Manuel Bandeira (Recife, 19 de Abril de 1886), vimos esse pequeno documentário em sala de aula sobre ele. As discussões foram divergentes ja que, ao mesmo tempo que o curta é simples e limitante, também tem méritos por usar o video como ferramenta poética: o poeta "fingindo" ser quem realmente é - assim como a poesia e a Literatura "fingem" ser a realidade ao mesmo tempo que a compõe.

Mas uma máxima prevaleceu: "Como ator, Bandeira era um belíssimo poeta".

Viagem

Pelas ruas brasileiras paradoxalmente cheias de ar provinciano,
Pelos planos ângulos inexplorados de Denver,
Entre as roletas, prostitutas e cartas de Vegas,
Um pensamento persistia.

Quando a velocidade era tanta que a queda no gelo fofo chegava a doer,
Entre a quinta e sétima avenidas mais famosas do globo,
E também na loja de charmosos, porém repetitivos, suvenires em Aspen,
Uma questão relutava.

Ao som de carrinhos, malas com rodinhas e saltos dos modernos habitantes de Babel à espera de voos,
Ou ouvindo o simples zunir do ventilador numa cidade com apenas duas mil pessoas,
Alguém não se esquecia.

Da voz doce do dom,
Do conforto da presença,
E da maldita interrogação do tamanho do mundo.

uma viagem que independe de lugares, uma busca - talvez eterna - partindo de alguém com destino a quem.

"Só levantarei daqui quando terminar esse texto"

Esse foi o único jeito: plantar a frase do título como uma ideia fixa na minha mente e partir para a ação. Depois de quase trinta dias sem escrever uma única linha e aproximadamente trezentos e setenta e um dias sem compor frequentemente - minha derradeira postagem como colunista de um extinto portal cultural entre amigos foi no dia 15/04/10, cá estou. Aliviado e receoso.

Basta conversar comigo por mais de 20 minutos para saber o quanto a escrita me faz bem. Sempre estou com um "deveria voltar a escrever" a ponta da língua, mas não é tão simples assim. Para parafrasear o grande Luis Fernando Veríssimo que disse em certa entrevista que "quanto mais se escreve, mais difícil fica", eu digo: "quanto mais se gosta de escrever, mais difícil fica". Sim, porque, no meu caso, a autocobrança sempre aumentava.

Era como se eu visse o processo da escrita como uma evolução progressista em que cada texto é "naturalmete" melhor do que o anterior. E, caso não fosse, para quê escrever? E quanto ao tema, para que dizer o que todos já dizem? Aumentar o coro disforme e incontável de blogs/sites de opinião? O que eu tenho a acrescentar? Perguntas desse tipo já me fiz muitas vezes e ainda me faço. Porém, acho que há algo que pode ser um possível início de direção para uma resposta (detalhe para a cautela).

Eu devo escrever porque preciso, porque isso faz parte da minha identidade, faz parte do que constitui meus interesses e, quem sabe, os interesses de outra pessoa. Se você não disser o que pensa, ninguém saberá, inclusive você mesmo pode se perder nesse emaranhado que chamam de cotidiano. Eu escrevo para me conhecer, para existir enquanto EU MESMO, único. Então, se sou único, o que escrevo também é. Melhor, pior, mas único.

Filosófico demais, né? Mas é isso mesmo! Claro que eu também tenho um motivo mais prático. Escrever é dominar a linguagem. Quem escreve bem sabe melhor articular, escolher e elencar cada palavra no lugar mais adequado possível. Como jornalista, quanto mais praticar, mais vou conhecer nossa língua (e outras) e, suponho, melhor vou escrever.

Então é isso,
Declaro esse o primeiro texto, da segunda fase, do meu terceiro blog que foi o primeiro. Melhor: declaro esse só mais um dos vários textos que escrevi e ainda vou escrever!