
Ele não fazia a menor ideia de onde estava. Procurou dentro da caixa de brinquedos, sob a cama bagunçada, perguntou a todos os amigos da rua e nem sinal. Voltou para casa e arrumou todo o quarto, empilhou as roupas espalhadas pelo chão e ousou vasculhar o cesto de lixo do banheiro: nada.
Mas também é compreensível, algo difícil de encontrar o que ele tentava, principalmente pra uma criança. Essa coisa que, olhando de um ângulo parece ser tão minúscula e irrelevante, mas por outro lado grita e berra, ficando impossível de se ignorar. Um treco cheio de pontas afiadas e feito de veludo. Gostoso, quente e cheiroso, além de repugnante, enjoativo e gelado. Tudo poderia ser e não deveria atender por nome nenhum.
Exatamente isso, nome nenhum. Algum maluco, provavelmente cientista, em indeterminado lugar na História resolveu catalogar essas "anomalidades do universo" criando um grande grupo, julgá-los e subdividi-los de acordo com sua mentezinha medíocre. E, aposto, usou uns sacos de farinha – sem fermento - para juntar um bocado disso e chamar de “tristeza”, um punhado daquilo e nomear “desejo” e colocar certa porção misturada com o nome de “curiosidade”.
Acontece que, na vida real, espalhados aí pela atmosfera, esses fenômenos na humanidade (se é que podemos chamá-los assim) estão todos misturados. Uma bagunça caótica que não faz o menor sentido pra gente, como pr'O Catalogador, com aquela necessidade sem fim de que tudo esteja no lugar. Que tudo sempre acabe bem... Que grande bobagem! O amor tem pitadas de dor, a saudade é uma mistura milimétrica de nostalgia-alegria-melancolia, até o sofrimento pode ter um toque de prazer. Os fenômenos são libertinos. Os Catalogadores ficam só a tentar engarrafar neblina.
E a criança seguia procurando porque é isso que crianças fazem. Pouco importava, na verdade, o que ela encontrasse. Tinha ainda o mundo inteiro desencontrado frente aos olhos. Enquanto seguia buscando, ia experimentando infinitas porções de fenômenos sem perceber: embebadando-se, empanturrando-se e banhando-se neles. Fatalmente inevitável, essencialmente imprescindível.