Esse último gole estava incrivelmente refrescante!
Não tem problema, daqui a pouco vou ali na geladeira e encho a garrafa de água
de novo. Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Parado sob esse
ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa. Uma sede
símbolo do trabalho que estou admirando agora. A prova irrefutável para mim
mesmo de que a água do meu corpo realmente transpirou e
transpirou porque fui eu quem reformou a casa.
Está ali, qualquer um que passar pode ver. A pintura nova, o
jardim gramado, o armário da cozinha ampliado e o bendito “quarto de bagunça”
feito em jatobá. Tudinho. Não é mais só coisa da minha cabeça, deixou de ser
sonho empoeirado de décadas, pra virar realidade sólida como os troncos da
parede do puxadinho. É verdade que os meus 48 anos pesaram e que o Gustavo e a
Janaína me ajudaram, bons garotos os que eu tenho, mas Julia não pode dizer que
não fiz.
Quando a gente deitava na cama e eu começava a divagar, era
sempre uma discussão. Às vezes irritadiça e estridente, às vezes irônica e sarcástica.
- Pedro, tem anos que você sequer exerce a arquitetura,
tira essa idéia da cabeça!
- Não consigo tirar ela daqui, meu bem, não tem jeito. A
casa está uma bagunça, caindo aos pedaços, tá precisando mesmo de uma
reanimada, todos nós estamos...
- Pare de usar desculpas esfarrapadas. E, se quer tanto a
reforma, pelo menos contrata um empreiteiro, homem!
- Não é a mesma coisa. Nós temos que ser capazes de
solucionar nossos próprios problemas juntos. E você sempre quis armários
maiores...
- Isso era antes. Você só vai piorar as coisas, Pedro.
Escuta o que eu estou dizendo...
Não piorou nada. Mal posso ficar acordado de tanto
cansaço, entretanto vejo perfeitamente minha obra de arte. Nem me lembro quais são as
tais “bagunças” que eu queria tanto guardar ali dentro. Provavelmente, no
começo, eram os brinquedos das crianças. Essa casa era o caos na Terra!
Carrinhos por aqui, gritos dali, bonecas sem cabelo, crianças completamente
livres. Como eu só conseguia pensar nos tais brinquedos espalhados no chão? Que
bobagem!
Agora não há mais brinquedos. Gustavo com 22 e Janaína com 19
não querem mais saber dessas felicidades fáceis, querem é a vida de
verdade, os problemas de gente grande que são.
Foi um custo tirar o mais velho dos livros, ele se preocupa
demais. Tenho certeza que vai passar na prova da Ordem e, ano que vem, será o
advogado – e dos bons - que sempre quis. De qualquer forma, eu precisava tirar ele dali, já não
estava mais se concentrando no que lia, nenhum de nós estava mais concentrado
em nada.
Até a Janinha... quem conheceu ela pequena, jamais se
esquecerá daquela alegria espontânea, contagiante, natural e sincera. Um olhar
de céu azul, sem nuvens, sem arranha-céus, sem aviões... só um puro e imenso
azul. Os que associam azul à tristeza, não conheceram os olhinhos da Janinha. Com
ela foi diferente, tive apenas que dizer no jantar que iria finalmente por “O
plano” em prática, que ela se animou tanto quanto eu!
Ia ao meu quarto todas as madrugadas, na minha mesa, com duas
xícaras de chocolate quente nas mãos, me dava uma e sentava ao meu lado
acompanhando as planilhas, os desenhos e escutando meus devaneios com aprovação.
Ela também vai ser arquiteta, mas aquilo não tinha nada a ver com arquitetura. Eu
quase vi um fiapinho daquele azul de antes nos olhos dela quando contei que ia
pintar a casa de verde-lima, sua cor preferida. Quase.
Júlia não concordou com nada. Só com o lugar onde quis
colocar o “quarto de bagunças”, isso eu já sabia. E mesmo assim não foi nem
propriamente um concordar, foi uma negligência inexpressiva que, quando
comparada às negações contundentes e afirmativas a respeito de todos os outros
detalhes, demonstrava uma permissão clara. Sem aceno, sem sussurro, o silêncio irredutível do “quem cala consente”.
Antes do quartinho, ali ficava o poço. Um poço que foi minha
maior alegria quando encontrei esse chalezinho há quase 30 anos atrás. Uma trágica
fixação por um adorno tão fútil que nunca usamos propriamente fez com que eu comprasse esse casebre. Aquilo trouxe também minha maior tristeza. Todo feito em pedra, com uma roldana de aço velha e uma
haste de carvalho que, quando compramos, estava em um bom estado. Porém, o
tempo corrói. Principalmente se não cuidarmos, se não nos atentarmos.
E nos esquecemos do poço, não cuidamos e nem não nos
atentamos para ele. Bastou que um de nós se lembrasse daquilo por uma simples noite, há
cinco anos, para que nunca mais nos esquecêssemos desde então. Gabriel, meu pequeno
anjo.
Eu não quero que isso aconteça com minha casa, nem com
Gustavo, nem com Janinha, nem com Júlia. Não quero que o tempo também nos
corroa. Não podemos nos esquecer um do outro, não podemos deixar que uma
lembrança, por mais trágica que seja, tome espaço das outras e é por isso que
precisava da reforma e por isso precisava ser eu: porque EU não quero
descuidar, EU não quero desatentar.
Agora não há mais poço, o jardim não é mais de barro e o
Gustavo vai poder fazer os jantares ao ar livre com serenata que a namoradinha
dele adora – e todos nós, no fundo, também... É difícil manter os olhos tanto tempo abertos debaixo dessa clareira, eles ardem. Minhas costas estão latejando de dor e acho que cortei a mão umas quatro vezes,
ainda sim não me recordo de outra vez que estive tão feliz em anos.
Quando Julia chegar do escritório, a cozinha vai estar
prontinha, limpa, com tudo no lugar, ela vai ficar contente. Vou ver de novo
aquele brilho leve que me fez me apaixonar por ela, aquela pacificidade que habitava
nosso lar vai voltar, sei que vai. Pena não ter ninguém em casa agora para me
trazer um copo d’água que fosse, é como se tivesse gastado até a última gota do meu ânimo
nessa empreitada.
E vai valer a pena. Hoje à noite vamos nos sentar os quatro
no gramado, em frente à nossa casa verde-lima pra alegria da Janinha, Gu vai
pegar o violão e vamos comer da melhor lasanha do mundo feita pela Júlia. Nossa celebração à reforma! É só esperar que o sol se ponha, que todos cheguem e
vejam que o buraco onde o poço estava foi completamente coberto.
Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Sob esse ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa, com olhos fechados.
Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Sob esse ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa, com olhos fechados.
