13 de fevereiro de 2012

Esforço recompensado




Esse último gole estava incrivelmente refrescante! Não tem problema, daqui a pouco vou ali na geladeira e encho a garrafa de água de novo. Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Parado sob esse ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa. Uma sede símbolo do trabalho que estou admirando agora. A prova irrefutável para mim mesmo de que a água do meu corpo realmente transpirou e transpirou porque fui eu quem reformou a casa.

Está ali, qualquer um que passar pode ver. A pintura nova, o jardim gramado, o armário da cozinha ampliado e o bendito “quarto de bagunça” feito em jatobá. Tudinho. Não é mais só coisa da minha cabeça, deixou de ser sonho empoeirado de décadas, pra virar realidade sólida como os troncos da parede do puxadinho. É verdade que os meus 48 anos pesaram e que o Gustavo e a Janaína me ajudaram, bons garotos os que eu tenho, mas Julia não pode dizer que não fiz.

Quando a gente deitava na cama e eu começava a divagar, era sempre uma discussão. Às vezes irritadiça e estridente, às vezes irônica e sarcástica.

- Pedro, tem anos que você sequer exerce a arquitetura, tira essa idéia da cabeça!
- Não consigo tirar ela daqui, meu bem, não tem jeito. A casa está uma bagunça, caindo aos pedaços, tá precisando mesmo de uma reanimada, todos nós estamos...
- Pare de usar desculpas esfarrapadas. E, se quer tanto a reforma, pelo menos contrata um empreiteiro, homem!
- Não é a mesma coisa. Nós temos que ser capazes de solucionar nossos próprios problemas juntos. E você sempre quis armários maiores...
- Isso era antes. Você só vai piorar as coisas, Pedro. Escuta o que eu estou dizendo...

Não piorou nada. Mal posso ficar acordado de tanto cansaço, entretanto vejo perfeitamente minha obra de arte. Nem me lembro quais são as tais “bagunças” que eu queria tanto guardar ali dentro. Provavelmente, no começo, eram os brinquedos das crianças. Essa casa era o caos na Terra! Carrinhos por aqui, gritos dali, bonecas sem cabelo, crianças completamente livres. Como eu só conseguia pensar nos tais brinquedos espalhados no chão? Que bobagem!

Agora não há mais brinquedos. Gustavo com 22 e Janaína com 19 não querem mais saber dessas felicidades fáceis, querem é a vida de verdade, os problemas de gente grande que são.

Foi um custo tirar o mais velho dos livros, ele se preocupa demais. Tenho certeza que vai passar na prova da Ordem e, ano que vem, será o advogado – e dos bons - que sempre quis. De qualquer forma, eu precisava tirar ele dali, já não estava mais se concentrando no que lia, nenhum de nós estava mais concentrado em nada.

Até a Janinha... quem conheceu ela pequena, jamais se esquecerá daquela alegria espontânea, contagiante, natural e sincera. Um olhar de céu azul, sem nuvens, sem arranha-céus, sem aviões... só um puro e imenso azul. Os que associam azul à tristeza, não conheceram os olhinhos da Janinha. Com ela foi diferente, tive apenas que dizer no jantar que iria finalmente por “O plano” em prática, que ela se animou tanto quanto eu!

Ia ao meu quarto todas as madrugadas, na minha mesa, com duas xícaras de chocolate quente nas mãos, me dava uma e sentava ao meu lado acompanhando as planilhas, os desenhos e escutando meus devaneios com aprovação. Ela também vai ser arquiteta, mas aquilo não tinha nada a ver com arquitetura. Eu quase vi um fiapinho daquele azul de antes nos olhos dela quando contei que ia pintar a casa de verde-lima, sua cor preferida. Quase.

Júlia não concordou com nada. Só com o lugar onde quis colocar o “quarto de bagunças”, isso eu já sabia. E mesmo assim não foi nem propriamente um concordar, foi uma negligência inexpressiva que, quando comparada às negações contundentes e afirmativas a respeito de todos os outros detalhes, demonstrava uma permissão clara. Sem aceno, sem sussurro, o silêncio irredutível do “quem cala consente”.

Antes do quartinho, ali ficava o poço. Um poço que foi minha maior alegria quando encontrei esse chalezinho há quase 30 anos atrás. Uma trágica fixação por um adorno tão fútil que nunca usamos propriamente fez com que eu comprasse esse casebre. Aquilo trouxe também minha maior tristeza. Todo feito em pedra, com uma roldana de aço velha e uma haste de carvalho que, quando compramos, estava em um bom estado. Porém, o tempo corrói.  Principalmente se não cuidarmos, se não nos atentarmos.

E nos esquecemos do poço, não cuidamos e nem não nos atentamos para ele. Bastou que um de nós se lembrasse daquilo por uma simples noite, há cinco anos, para que nunca mais nos esquecêssemos desde então. Gabriel, meu pequeno anjo.

Eu não quero que isso aconteça com minha casa, nem com Gustavo, nem com Janinha, nem com Júlia. Não quero que o tempo também nos corroa. Não podemos nos esquecer um do outro, não podemos deixar que uma lembrança, por mais trágica que seja, tome espaço das outras e é por isso que precisava da reforma e por isso precisava ser eu: porque EU não quero descuidar, EU não quero desatentar.

Agora não há mais poço, o jardim não é mais de barro e o Gustavo vai poder fazer os jantares ao ar livre com serenata que a namoradinha dele adora – e todos nós, no fundo, também... É difícil manter os olhos tanto tempo abertos debaixo dessa clareira, eles ardem. Minhas costas estão latejando de dor e acho que cortei a mão umas quatro vezes, ainda sim não me recordo de outra vez que estive tão feliz em anos.

Quando Julia chegar do escritório, a cozinha vai estar prontinha, limpa, com tudo no lugar, ela vai ficar contente. Vou ver de novo aquele brilho leve que me fez me apaixonar por ela, aquela pacificidade que habitava nosso lar vai voltar, sei que vai. Pena não ter ninguém em casa agora para me trazer um copo d’água que fosse, é como se tivesse gastado até a última gota do meu ânimo nessa empreitada.

E vai valer a pena. Hoje à noite vamos nos sentar os quatro no gramado, em frente à nossa casa verde-lima pra alegria da Janinha, Gu vai pegar o violão e vamos comer da melhor lasanha do mundo feita pela Júlia. Nossa celebração à reforma! É só esperar que o sol se ponha, que todos cheguem e vejam que o buraco onde o poço estava foi completamente coberto.

Mas, por hora, me deixa estar aqui um instante. Sob esse ardente sol das duas da tarde de verão, curtindo essa sede imensa, com olhos fechados.

9 de fevereiro de 2012