É quase impossível descrever a sensação de acordar assim. Mas, de toda aquela realidade inacreditável que me rodeava, o que eu
mais odiei foi a chuva gelada que insistia em cair. E eu detestei aquelas
grossas gotas que mais pareciam cubos de gelo porque foram elas que me
acordaram.
Primeiro você resiste acordar, ignora as gotas em favor de seus sonhos ensolarados.
Do que me importa o "mundo real", se aqui tudo é perfeito. Do tamanho
do gramado à precisão do calor do sol. Do contorno do horizonte ao ondulado dos
cabelos sobre meu colo. Dos tons das cores das casinhas camponesas às modulações
harmônicas de uma risada querida.
Entretanto, gradativamente, você deixa de escutar os pássaros
que passam a piar mudos, a pele tocada torna-se rígida e áspera, os inúmeros beijos
seguidos são, embora molhados, agressivos e quase dolorosos. Quando, no fim, seu
sonho já está totalmente tomado pelo chiado ensurdecedor da tempestade e tão
somente, você resigna-se a abrir os olhos.
E quando eu fiz isso, minhas pupilas demoraram alguns
segundos para registrar bem o que estava à minha frente. A chuva e a noite
dificultaram bastante, ainda que uma parede de pedras não seja lá o maior
enigma do mundo. Uma parede de cerca de 10 metros de altura de pura rocha não é
o maior enigma do mundo, mas subitamente acordar sozinho, numa noite chuvosa, rodeado
de três lados por algumas delas pode ser uma charada e tanto.
Eu estava usando aquela minha camiseta predileta e minhas
calças jeans estavam estranhamente rasgadas de forma aleatória. Os pés
descalços permitiram-me sentir a lama do chão, pegajosa, encharcada,
asquerosa, cheia de pedregulhos semipontiagudos. Olhando ao meu redor só pude
perceber o céu carregado e as imensas paredes que formavam um estreito corredor
rochoso, exceto pelo fato de que não havia porta de entrada ou janela ou
abertura qualquer atrás de mim. Só uma alternativa era possível, seguir em
frente.
Chequei meus bolsos três vezes e estavam completamente
vazios. Caminhando, pude perceber que o corredor se dividia em dois caminhos,
tomei o da esquerda por motivo algum. Esse logo se dividiu em outros dois
caminhos. Depois de quatro ou cinco curvas e mais ou menos quando o frio fez
meus ossos doerem pela primeira vez, percebi que estava em um labirinto. Sempre
detestei esses malditos jogos. As paredes pareciam iguais, os caminhos os
mesmos. Por mais que tentasse não fazer percursos circulares, sentia como se não
estivesse me movendo. Não havia sequer como me orientar com o céu nublado
daquela forma.
Qual era o tamanho
dessa coisa? Para qual lado fica a saída? Devo ir em direção ao centro ou à
borda? Em qual sentido fica a borda? E o centro? Por que diabos eu estou dentro
de um labirinto? Qual o sentido de continuar andando? Será que devo ficar
parado esperando alguém chegar?
Andei indiscriminadamente à exaustão, por horas e horas,
creio, fracassadamente por aqueles estreitos corredores. Tentei também escalar
as paredes, só que a chuva torrencial tornou as rochas escorregadias demais... Meus
dedos sangravam com a pressão da unha contra a carne, meus joelhos estavam
doloridos pelas vezes que os choquei contra a pedra.
No momento em que já quase não conseguia me mover, quando me
joguei no chão e pensei em gritar, pela enésima vez, meu chamado foi abafado.
No mesmo instante, um som agudo e interminável de metal contra metal ressoou.
Algo como uma porta de aço que não fora aberta há milênios sendo lentamente
arrastada, salvo o fato de que não era uma, mas dezenas. Quando olhei para o
alto, à procura da origem do som, percebi que não eram portas, mas pequenas
aberturas espalhadas por toda parte e, tão logo identifiquei-as, começaram a
derramar mais lama para dentro dos finos corredores.
Não se tratava exatamente de lama, era uma gosma mais sólida
e morna que começou a conspurcar as paredes, o chão, todo o meu corpo. Não
consegui perceber o que era aquilo, mas definitivamente também havia terra
misturada. Terra e milhares de outras coisas que prefiro não pensar sobre... Quando
o nível chegou à minha canela notei o que estava acontecendo: eu precisava sair
dali o mais rápido possível.
Instantaneamente o cansaço e a dor passaram, quase podia
sentir a adrenalina correndo nas minhas veias como se tivesse sido injetada
naquele exato momento em todas as células do meu corpo ao mesmo tempo. Corri,
corri sem parar e tentando pensar o mais rápido que podia.
Por aqui já passei... Se
eu virar aqui e depois ali, vou sair naquele lugar... Calma, agora com certeza
você está chegando mais próximo... Depois daquela curva, tenho certeza... Não,
depois dessa, 100% certeza.... Droga, raciocina! Vamos....
Porém, pensando bem, acho que, até quando a coisa chegou ao nível
um pouco acima do meu umbigo, eu ainda tinha alguma esperança. Não sei porque, mas
me apegava, internamente, a algum happy
ending, uma intervenção transcendental, um anti-climax qualquer, um “olhe
para a câmera, você está no programa de domingo”, algo do gênero. Nada veio.
Já estava difícil de me locomover, minhas pernas
esbarravam-se em pedaços de coisas que boiavam em meio àquela substância quente
e fétida, mas eu precisava seguir o ritmo porque quem quer que fosse que
estivesse mantendo aqueles alçapões abertos, não mostrava misericórdia.
Mesmo com as mãos machucadas, eu precisava tentar deslocar
as pedras da parede. Foi inútil. Prendi minha respiração e tentei cavar o chão,
quando voltava à superfície tive a nítida impressão de que dedos inertes
tocaram meu rosto fortuitamente e acabei soltando o ar submerso. Enquanto eu tentava não
colocar todos os meus órgãos para fora a fim de me livrar do gosto amargo
daquilo na minha boca, o nível chegou aos meus ombros.
Continuei “correndo”, mas o cansaço já era maior do que
eu, minhas pernas – e agora braços – estavam incrivelmente pesados, não havia
mais o que fazer. Eu cheguei há uma última curva que lembro exatamente do
quanto desejei que fosse uma porta, uma libertação... No fim, era mais um beco
sem saída. Com a gosma na altura das
minhas narinas, nem antes e nem depois, tive a idéia de como me livrar daquilo
e tudo fez sentido.
“Preciso pender meu ar”, pensei. Era óbvio, prender meu ar e
nadar até o topo das muralhas. Ousado e simples. Quem quer que estivesse
fazendo aquilo comigo queria que eu tirasse uma grande lição: de que é necessário
passar por provações para alcançar a vitória. É preciso se esforçar e até
enfrentar maus bocados para chegar às alturas. No fim, eu só tinha um amigo que
gostava de levar a sério demais suas metáforas. Foi o que fiz.
Foram os 70 segundos mais longos da minha vida. Creio que
quase desmaiei em algum momento, mas o gosto repugnante que entrou pela minhas
narinas e boca me fez acordar. Quase me afoguei, quase desisti, não parecia que
estava subindo quando mexia os meus braços. Ao contrário, tinha a nítida sensação
que estava afundando, naufragando pateticamente. Só sei que, de alguma forma,
cheguei à superfície e o topo da muralha estava há uns 30 centímetros das
minhas mãos.
Todo sujo, cansado e machucado, mas aliviado, me agarrei àquela
beirada e senti que tudo havia terminado. Imaginei que do outro lado haveria um
jardim ou uma casa, imaginei que veria rostos conhecidos, que a chuva cessaria e
que, embora traumática, aquela claustrofóbica experiência teria chegado ao fim.
Pensei que a lama deixaria de subir e que todos ririam e se sentiriam
orgulhosos da minha coragem de ter mergulhado naquela “coisa”.
Mas do outro lado não havia jardim, casa ou rostos
conhecidos. Embora totalmente esgotado e quase descansado por antecedência por
ter superado aquele desafio caótico, não pude baixar a guarda. A chuva
realmente cessou, mas do outro lado da muralha não havia nada a não ser o mar:
imenso, indiferente, estupidamente sublime, lá embaixo, no final de um penhasco
que pra mim parecia ter milhares de quilômetros de altura.
Voltei-me para trás a tempo de ver somente que o nível do líquido
não parava de subir e que o labirinto estava solitário no topo de uma minúscula
ilha rochosa rodeada de água por todos os lados. A gosma encobria o labirinto lentamente.
Eu sabia que se esperasse demais, provavelmente escorregaria e não teria
chances de pular para me afastar a uma distância segura das rochas, mas também
não tinha certeza que se eu pulasse, a água seria suficientemente profunda ou
se eu conseguiria nadar naquele frio e cansado como estava.
Contudo, naqueles últimos instantes, eu não pensei qual era
o sentido da vida, de onde eu tinha vindo, como eu havia parado ali, quem sou
ou nada do tipo. Só uma pergunta gritava no meu cérebro a 299.792.458 m/s: Será
que eu consigo pular?

