6 de dezembro de 2011

Em espiral


É quase impossível descrever a sensação de acordar assim. Mas, de toda aquela realidade inacreditável que me rodeava, o que eu mais odiei foi a chuva gelada que insistia em cair. E eu detestei aquelas grossas gotas que mais pareciam cubos de gelo porque foram elas que me acordaram.

Primeiro você resiste acordar, ignora as gotas em favor de seus sonhos ensolarados. Do que me importa o "mundo real", se aqui tudo é perfeito. Do tamanho do gramado à precisão do calor do sol. Do contorno do horizonte ao ondulado dos cabelos sobre meu colo. Dos tons das cores das casinhas camponesas às modulações harmônicas de uma risada querida.

Entretanto, gradativamente, você deixa de escutar os pássaros que passam a piar mudos, a pele tocada torna-se rígida e áspera, os inúmeros beijos seguidos são, embora molhados, agressivos e quase dolorosos. Quando, no fim, seu sonho já está totalmente tomado pelo chiado ensurdecedor da tempestade e tão somente, você resigna-se a abrir os olhos.

E quando eu fiz isso, minhas pupilas demoraram alguns segundos para registrar bem o que estava à minha frente. A chuva e a noite dificultaram bastante, ainda que uma parede de pedras não seja lá o maior enigma do mundo. Uma parede de cerca de 10 metros de altura de pura rocha não é o maior enigma do mundo, mas subitamente acordar sozinho, numa noite chuvosa, rodeado de três lados por algumas delas pode ser uma charada e tanto.

Eu estava usando aquela minha camiseta predileta e minhas calças jeans estavam estranhamente rasgadas de forma aleatória. Os pés descalços permitiram-me sentir a lama do chão, pegajosa, encharcada, asquerosa, cheia de pedregulhos semipontiagudos. Olhando ao meu redor só pude perceber o céu carregado e as imensas paredes que formavam um estreito corredor rochoso, exceto pelo fato de que não havia porta de entrada ou janela ou abertura qualquer atrás de mim. Só uma alternativa era possível, seguir em frente.

Chequei meus bolsos três vezes e estavam completamente vazios. Caminhando, pude perceber que o corredor se dividia em dois caminhos, tomei o da esquerda por motivo algum. Esse logo se dividiu em outros dois caminhos. Depois de quatro ou cinco curvas e mais ou menos quando o frio fez meus ossos doerem pela primeira vez, percebi que estava em um labirinto. Sempre detestei esses malditos jogos. As paredes pareciam iguais, os caminhos os mesmos. Por mais que tentasse não fazer percursos circulares, sentia como se não estivesse me movendo. Não havia sequer como me orientar com o céu nublado daquela forma.

Qual era o tamanho dessa coisa? Para qual lado fica a saída? Devo ir em direção ao centro ou à borda? Em qual sentido fica a borda? E o centro? Por que diabos eu estou dentro de um labirinto? Qual o sentido de continuar andando? Será que devo ficar parado esperando alguém chegar?

Andei indiscriminadamente à exaustão, por horas e horas, creio, fracassadamente por aqueles estreitos corredores. Tentei também escalar as paredes, só que a chuva torrencial tornou as rochas escorregadias demais... Meus dedos sangravam com a pressão da unha contra a carne, meus joelhos estavam doloridos pelas vezes que os choquei contra a pedra.

No momento em que já quase não conseguia me mover, quando me joguei no chão e pensei em gritar, pela enésima vez, meu chamado foi abafado. No mesmo instante, um som agudo e interminável de metal contra metal ressoou. Algo como uma porta de aço que não fora aberta há milênios sendo lentamente arrastada, salvo o fato de que não era uma, mas dezenas. Quando olhei para o alto, à procura da origem do som, percebi que não eram portas, mas pequenas aberturas espalhadas por toda parte e, tão logo identifiquei-as, começaram a derramar mais lama para dentro dos finos corredores.

Não se tratava exatamente de lama, era uma gosma mais sólida e morna que começou a conspurcar as paredes, o chão, todo o meu corpo. Não consegui perceber o que era aquilo, mas definitivamente também havia terra misturada. Terra e milhares de outras coisas que prefiro não pensar sobre... Quando o nível chegou à minha canela notei o que estava acontecendo: eu precisava sair dali o mais rápido possível.

Instantaneamente o cansaço e a dor passaram, quase podia sentir a adrenalina correndo nas minhas veias como se tivesse sido injetada naquele exato momento em todas as células do meu corpo ao mesmo tempo. Corri, corri sem parar e tentando pensar o mais rápido que podia.

Por aqui já passei... Se eu virar aqui e depois ali, vou sair naquele lugar... Calma, agora com certeza você está chegando mais próximo... Depois daquela curva, tenho certeza... Não, depois dessa, 100% certeza.... Droga, raciocina! Vamos....

Porém, pensando bem, acho que, até quando a coisa chegou ao nível um pouco acima do meu umbigo, eu ainda tinha alguma esperança. Não sei porque, mas me apegava, internamente, a algum happy ending, uma intervenção transcendental, um anti-climax qualquer, um “olhe para a câmera, você está no programa de domingo”, algo do gênero. Nada veio.

Já estava difícil de me locomover, minhas pernas esbarravam-se em pedaços de coisas que boiavam em meio àquela substância quente e fétida, mas eu precisava seguir o ritmo porque quem quer que fosse que estivesse mantendo aqueles alçapões abertos, não mostrava misericórdia.

Mesmo com as mãos machucadas, eu precisava tentar deslocar as pedras da parede. Foi inútil. Prendi minha respiração e tentei cavar o chão, quando voltava à superfície tive a nítida impressão de que dedos inertes tocaram meu rosto fortuitamente e acabei soltando o ar submerso. Enquanto eu tentava não colocar todos os meus órgãos para fora a fim de me livrar do gosto amargo daquilo na minha boca, o nível chegou aos meus ombros.

Continuei “correndo”, mas o cansaço já era maior do que eu, minhas pernas – e agora braços – estavam incrivelmente pesados, não havia mais o que fazer. Eu cheguei há uma última curva que lembro exatamente do quanto desejei que fosse uma porta, uma libertação... No fim, era mais um beco sem saída.  Com a gosma na altura das minhas narinas, nem antes e nem depois, tive a idéia de como me livrar daquilo e tudo fez sentido.

“Preciso pender meu ar”, pensei. Era óbvio, prender meu ar e nadar até o topo das muralhas. Ousado e simples. Quem quer que estivesse fazendo aquilo comigo queria que eu tirasse uma grande lição: de que é necessário passar por provações para alcançar a vitória. É preciso se esforçar e até enfrentar maus bocados para chegar às alturas. No fim, eu só tinha um amigo que gostava de levar a sério demais suas metáforas. Foi o que fiz.

Foram os 70 segundos mais longos da minha vida. Creio que quase desmaiei em algum momento, mas o gosto repugnante que entrou pela minhas narinas e boca me fez acordar. Quase me afoguei, quase desisti, não parecia que estava subindo quando mexia os meus braços. Ao contrário, tinha a nítida sensação que estava afundando, naufragando pateticamente. Só sei que, de alguma forma, cheguei à superfície e o topo da muralha estava há uns 30 centímetros das minhas mãos.

Todo sujo, cansado e machucado, mas aliviado, me agarrei àquela beirada e senti que tudo havia terminado. Imaginei que do outro lado haveria um jardim ou uma casa, imaginei que veria rostos conhecidos, que a chuva cessaria e que, embora traumática, aquela claustrofóbica experiência teria chegado ao fim. Pensei que a lama deixaria de subir e que todos ririam e se sentiriam orgulhosos da minha coragem de ter mergulhado naquela “coisa”.

Mas do outro lado não havia jardim, casa ou rostos conhecidos. Embora totalmente esgotado e quase descansado por antecedência por ter superado aquele desafio caótico, não pude baixar a guarda. A chuva realmente cessou, mas do outro lado da muralha não havia nada a não ser o mar: imenso, indiferente, estupidamente sublime, lá embaixo, no final de um penhasco que pra mim parecia ter milhares de quilômetros de altura.

Voltei-me para trás a tempo de ver somente que o nível do líquido não parava de subir e que o labirinto estava solitário no topo de uma minúscula ilha rochosa rodeada de água por todos os lados. A gosma encobria o labirinto lentamente. Eu sabia que se esperasse demais, provavelmente escorregaria e não teria chances de pular para me afastar a uma distância segura das rochas, mas também não tinha certeza que se eu pulasse, a água seria suficientemente profunda ou se eu conseguiria nadar naquele frio e cansado como estava.

Contudo, naqueles últimos instantes, eu não pensei qual era o sentido da vida, de onde eu tinha vindo, como eu havia parado ali, quem sou ou nada do tipo. Só uma pergunta gritava no meu cérebro a 299.792.458 m/s: Será que eu consigo pular?


Sobre o sentido de uma coisa


Escrever é uma forma de expressão. É uma expressão de sentimento assim como o cantar, o dançar, o pintar. Escrever é uma expressão de sentimento aliada a uma percepção deslocada da realidade. É uma expressão de sentimento, deslocada da realidade que reflete um repertório vasto de leitura. Em outras palavras, escrever é um jeito que você pode usar para dizer ao mundo o que você sente sobre qualquer coisa.

Eu vivo um paradoxo interior: gosto de escrever, mas não escrevo. Por quê? Porque escrever é difícil, mas pensar nisso só tem me bloqueado ainda mais. Às vezes sei que temas são fáceis de encontrar, às vezes tenho certeza de que a minha técnica é muito fraca e que as poucas linhas que escrevo perderão todo o sentido em poucos meses.

Ideias incompletas ficam borbulhando na minha cabeça. Textos pela metade, enredos moribundos, personagens demasiadamente simples, situações óbvias demais, estruturas forçadamente encaminhadas.

Mas acho que, só de ficar pensando tanto isso, revelo um significado: eu preciso escrever. Preciso me encontrar ainda, claro. Preciso parar de vagar e tenho que começar (ou continuar) seguindo um caminho mais preciso. Investir em conteúdo, ler mais, praticar mais. Sei lá...

Um dia me encontro ou talvez alguém me encontre, tanto faz.