Eu sinto como se a vida fosse uma montanha
Mas, sempre que se chega ao pico
Há outro
E outro
E outro
Então, é preciso parar de choramingar
É preciso juntar todas as tralhas do acampamento
E subir até o próximo pico
Isso se, e somente se
A nevasca não chegar antes
22 de setembro de 2013
16 de maio de 2013
Íntimo paradoxo
No tempo em que eu ainda fazia cursinho, um colega me contou o grande terror da existência: é impossível tocar. Por uma série de motivos químicos e magnéticos que não tenho a mínima capacidade de comprovar, aparentemente os núcleos dos átomos se repelem. Não importa quão obstinadamente você tente, lá, na mais microscópica dimensão imaginável, o positivo não consegue encostar no positivo. Eles trocam umas reações elétricas e você tem a falsa impressão do toque. Agora, pense nisso, só por um segundo...
Os carinhos da sua mãe, os perdigotos do professor de educação física, a caneta que escreve, a maçã que cai, o abraço que diminui a falta, o tapa que impõe limites, a mordida que rompe tabus, as fezes frescas achatadas com a sola do sapato na manhã de segunda, o gole de cerveja gelada que escorrega pela garganta na noite de sexta... Tudo isso aconteceu e, inexoravelmente, o maldito núcleo positivo de cada uma das incontáveis partículas evitou que elas se encontrassem.
De fato, você não sabe o gosto da fruta, nem o toque dos cabelos de quem ama. Ilude-se passeando com os dedos pelas folhas das árvores no parque e também não passou de mentira aquele esfolado que levou no joelho aos oito anos de idade. Do arranhão de amor à lágrima de ódio, puro nevoeiro. As cicatrizes são marcas da covardia de suas migalhas que arredaram o pé bem na hora que mais precisou.
A utopia está muito mais próxima do que os novos sistemas políticos ou os amores românticos. A utopia é pegar um copo de água nas mãos e bebê-lo.
Mas, se o mundo físico é esse paradoxo, minhas ideias os químicos não podem roubar. Meu modo de interpretar o que vejo é só meu, é só nosso, e ninguém vai nos dizer que ele está fugindo de si mesmo assim. O que sobrou em nós do que vivemos e experimentamos, mesmo que emerja desse postiço teatro atômico que encanta a humanidade inteira, é verdadeiro. Verdadeiro e nenhum outro adjetivo é necessário.
.
.
.
Olhando meio de lado sobre a superfície desse texto pouco racional, vejo duas minúsculas conclusões boiando:
- Finalmente entendi essa minha sensação de descolamento. Estou mesmo andando e flutuando ao mesmo tempo.
- Se toda regra tem sua exceção, aquele nosso beijo que [ainda] não foi seria a ressalva primeira. Nesse caso, nem que outro big bang ao contrário fosse necessário, mais do que se tocar, todas as nossas partículas se cumprimentariam calorosamente, dizendo entre si: "Que saudades imensas eu estava de ti".
Os carinhos da sua mãe, os perdigotos do professor de educação física, a caneta que escreve, a maçã que cai, o abraço que diminui a falta, o tapa que impõe limites, a mordida que rompe tabus, as fezes frescas achatadas com a sola do sapato na manhã de segunda, o gole de cerveja gelada que escorrega pela garganta na noite de sexta... Tudo isso aconteceu e, inexoravelmente, o maldito núcleo positivo de cada uma das incontáveis partículas evitou que elas se encontrassem.
De fato, você não sabe o gosto da fruta, nem o toque dos cabelos de quem ama. Ilude-se passeando com os dedos pelas folhas das árvores no parque e também não passou de mentira aquele esfolado que levou no joelho aos oito anos de idade. Do arranhão de amor à lágrima de ódio, puro nevoeiro. As cicatrizes são marcas da covardia de suas migalhas que arredaram o pé bem na hora que mais precisou.
A utopia está muito mais próxima do que os novos sistemas políticos ou os amores românticos. A utopia é pegar um copo de água nas mãos e bebê-lo.
Mas, se o mundo físico é esse paradoxo, minhas ideias os químicos não podem roubar. Meu modo de interpretar o que vejo é só meu, é só nosso, e ninguém vai nos dizer que ele está fugindo de si mesmo assim. O que sobrou em nós do que vivemos e experimentamos, mesmo que emerja desse postiço teatro atômico que encanta a humanidade inteira, é verdadeiro. Verdadeiro e nenhum outro adjetivo é necessário.
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Olhando meio de lado sobre a superfície desse texto pouco racional, vejo duas minúsculas conclusões boiando:
- Finalmente entendi essa minha sensação de descolamento. Estou mesmo andando e flutuando ao mesmo tempo.
- Se toda regra tem sua exceção, aquele nosso beijo que [ainda] não foi seria a ressalva primeira. Nesse caso, nem que outro big bang ao contrário fosse necessário, mais do que se tocar, todas as nossas partículas se cumprimentariam calorosamente, dizendo entre si: "Que saudades imensas eu estava de ti".
19 de abril de 2013
Who am I?
I am less then a shadow
Of what I was
When we were in love
If you could meet me today
You would be sorry
And you'd pray to your Lord:
'Forgive him
he doesn't know what he do'
I am less, I am lost
7 de abril de 2013
Brasil à francesa
Sempre achei esse país um lugar detestável. Rio de Janeiro, pra mim, é o inferno, literal e metaforicamente. Os inebriantes termômetros na casa da quarta dezena convivendo com as pessoas praticamente nuas, num comportamento malicioso, cheio de meandros, nas palavras e atos. E pior, tudo envolto por uma estranha idolatria. Nunca entendi, muito embora meu português seja perfeito, a beleza do "malandro carioca". Sempre preferi a brisa do mar da varanda do meu apartamento.
Sou Jean Louis Bertrand e tenho 18 anos. Moro com minha família no Brasil há uns oito. No começo, pensava que meu pai só queria saber como era viver em um país governado pela UMP. Mas, se fosse isso, morar aqui não faria o menor sentido mais...
A maioria dos de cá chama-me de apático, pretensioso ou, nas palavras deles, "um filhinho de papai metido a besta". E, de que me importa a opinião e insultos deles? Até pouco tempo, quase nada seria minha resposta. Mas, subitamente, as coisas estão meio confusas, confesso. O motivo? Uma mulher, claro.
Antes de que um clichê, ela é um paradoxo. Mulata, 29 anos, professora nas horas vagas, doutoranda em Ciências Biológicas e moradora de favela. Por aqui, achar essa mistura toda um contra-senso seria considerado preconceito ou xenofobia. Com certeza, diriam: "Tão europeu!". Entretanto, ninguém chegará a ler esse texto, é apenas um confessionário temporário improvisado em rascunho na última página do meu caderno escolar; logo o rasgarei; daí essas linhas nunca terão existido.
A extraordinária e fantástica imagem da Mademoiselle de Pavão-pavãozinho não sai da minha cabeça. Eu, com ela, sou um plebeu às avessas.
Meu tipo blasè, são sublimemente enfadonho, se desfaz ao seu lado. Sem esforço algum, transbordo o entusiasmo que não tenho. Como a conheci? Meu pai disse: "Você precisa é de umas aulinhas particulares, meu filho. Vai aprender as belezas desse lugar. Vou lhe arranjar uma boa professorinha". A sordidez e pervesidade na voz dele me fez perceber algo desprezivelmente possessivo, um colonialismo anacrônico. Aquilo quase me enojou.
Enfim, não que a "professorinha" não tenha os tais dotes físicos a que o velho se referia, mas ficam em segundo plano. Suas palavras me seduzem mais, aquelas ideias contundentes de quem quer mudar isso que chamam de país... Mas ela não se deixa estereotipar: intelectual que adora sambar, pensadora que assiste folhetim, cientista crente em suas simpatias. E eu... eu sempre nunca entendo.
Hoje, saio e não sei quando volto. É Copa Mundial de Futebol, eles amam isso por aqui. Ela me chamou para assistir ao jogo em um bar, disse que seria uma chance de me enturmar. Eu, o pirralho adolescente e estudante de cursinho, alimento essa fantasia romântico-platônica. Vesti-me com a única camisa amarela que tenho, cor irritante e estridente. O tom é mais pálido que o uniforme do time, é verdade, mas ainda assim, amarelo. Vou-me. Não sei quando volto do jogo e nem quando retorno à Marselhesa. Essa noite, porém, espero que não tão cedo.
Sou Jean Louis Bertrand e tenho 18 anos. Moro com minha família no Brasil há uns oito. No começo, pensava que meu pai só queria saber como era viver em um país governado pela UMP. Mas, se fosse isso, morar aqui não faria o menor sentido mais...
A maioria dos de cá chama-me de apático, pretensioso ou, nas palavras deles, "um filhinho de papai metido a besta". E, de que me importa a opinião e insultos deles? Até pouco tempo, quase nada seria minha resposta. Mas, subitamente, as coisas estão meio confusas, confesso. O motivo? Uma mulher, claro.
Antes de que um clichê, ela é um paradoxo. Mulata, 29 anos, professora nas horas vagas, doutoranda em Ciências Biológicas e moradora de favela. Por aqui, achar essa mistura toda um contra-senso seria considerado preconceito ou xenofobia. Com certeza, diriam: "Tão europeu!". Entretanto, ninguém chegará a ler esse texto, é apenas um confessionário temporário improvisado em rascunho na última página do meu caderno escolar; logo o rasgarei; daí essas linhas nunca terão existido.
A extraordinária e fantástica imagem da Mademoiselle de Pavão-pavãozinho não sai da minha cabeça. Eu, com ela, sou um plebeu às avessas.
Meu tipo blasè, são sublimemente enfadonho, se desfaz ao seu lado. Sem esforço algum, transbordo o entusiasmo que não tenho. Como a conheci? Meu pai disse: "Você precisa é de umas aulinhas particulares, meu filho. Vai aprender as belezas desse lugar. Vou lhe arranjar uma boa professorinha". A sordidez e pervesidade na voz dele me fez perceber algo desprezivelmente possessivo, um colonialismo anacrônico. Aquilo quase me enojou.
Enfim, não que a "professorinha" não tenha os tais dotes físicos a que o velho se referia, mas ficam em segundo plano. Suas palavras me seduzem mais, aquelas ideias contundentes de quem quer mudar isso que chamam de país... Mas ela não se deixa estereotipar: intelectual que adora sambar, pensadora que assiste folhetim, cientista crente em suas simpatias. E eu... eu sempre nunca entendo.
Hoje, saio e não sei quando volto. É Copa Mundial de Futebol, eles amam isso por aqui. Ela me chamou para assistir ao jogo em um bar, disse que seria uma chance de me enturmar. Eu, o pirralho adolescente e estudante de cursinho, alimento essa fantasia romântico-platônica. Vesti-me com a única camisa amarela que tenho, cor irritante e estridente. O tom é mais pálido que o uniforme do time, é verdade, mas ainda assim, amarelo. Vou-me. Não sei quando volto do jogo e nem quando retorno à Marselhesa. Essa noite, porém, espero que não tão cedo.
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