- É, faz um tempão mesmo, Beto. Me serve uma da de sempre, por favor?
- Agora! Era... Scotch? Com ou sem gelo?
- Gim tônica, Betão... Pode trazer a tônica separada, tá bom?
- Claro, claro... gim tônica com bastante gelo. Tá saindo!
Eu costumava passar muitas noites aqui.
Sentia-me em casa. Esse grande balção em formato de U do bar
apertado me reconfortava. Sempre me fez um bem danado deslizar a mão sobre a
lustrosa tampa de madeira envernizada e mal iluminada, brincando com as marcas circulares de água deixadas pelos copos. É curioso
que, proporcionalmente, haja mais espaço para o Beto e suas bebidas
do lado de lá do balcão, do que para os bistrôs sem almofada dos
clientes e a única fila de mesas com duas cadeiras grudadas à
parede atrás de mim. Vale a pena caminhar um par de quilômetros até
aqui, só para ver esse deslocado bar no estilo “anos 40” bem no
centro da cidade. Mas, não uma decoração detalhista e presunçosa
como a de franquias de fast food, só mesmo esse uniforme branco com
chapéu do Beto e esses pôsteres de Casablanca e filmes do Orson
Welles. Há janelas enormes, mas os adesivos e a baixíssima
regularidade com que veem água e sabão, turvam a visão de quem
passa na rua.
- E, então, o que te trouxe de volta
a este ilustre café? - falava Beto, enquanto me servia com um tom
mais sério do que aquele chapéu antigo sugeria.
- O que será que nos traz de volta a qualquer
lugar? A vontade, necessidade, de sentir de novo aquilo que já sentimos ali, eu
acho. Eram dias bons aqueles que eu passava aqui. Mas as coisas mudam
muito rápido.
- O que mudou?
- Tudo que se possa pensar. A idade,
as perspectivas, o entusiasmo... você lembra como eu fazia a maior
bagunça por aqui?
- Mais do que eu, os vizinhos da
lanchonete, com certeza, não se esqueceram...
Beto se afasta. Vai atender um casal de
clientes que chegou. Vai ganhar a vida, como sempre. É verdade... o letreiro lá
fora diz “Lanchonete Phillies” e não “bar Phillies” ou
apenas “Phillies”... nós ríamos sempre disso... “Qual é o
único lugar sombrio, obscuro, insalubre e que vende scotch sem gelo
da cidade que tem a ousadia e os colhões de se autoproclamar uma
lanchonete?”, alguém puxava, sem nenhum contexto necessário e
geralmente depois das três da manhã. Então, todos respondíamos em
uníssono: “A Lanchonete Phillies!!” e era para cá que víamos,
juntos, aos tropeços e risos. Afinal, o que havia de tão engraçado
assim naqueles dias?
Dávamos-nos o arrogante nome de
“Águias da Noite”... não... lembro como Henrique era
antiamericano demais para assumir aquela alcunha... adaptamos para
“Aves noturnas”... Agora, pensando bem, poderíamos ter trocado o
“noturnas” por “soturnas”... nos cairia bem com toda aquela
nostalgia precoce, nossa angústia juvenil, o lírico peso n'alma,
assim, na tal forma sincopada... O que aconteceu, nesse meio tempo, com meus
adjetivos? Parece que só me restam a nostalgia, a angústia e o
peso.
É bonito o casal que chegou agora. Bem, o cara não passa de uma pessoa sem realce. Altura mediana, terno cinza, blusa azul escura, gravata negra, nem magro, nem gordo e com uma estúpida cara de paisagem qualquer… Mas a ruiva... A ruiva que está com ele erradia toda a beleza que faz a áurea dos dois. Sentaram-se na ponta do balcão, próximos às máquinas de café, de modo que estão bem na minha diagonal esquerda. Atrás dela, no canto, é onde nos sentávamos. Se estivesse por lá agora com os outros, com certeza, poderia admirar bem de perto as costas nuas de seu vestido vermelho. Ruiva, batom, unhas e vestido vermelhos… nada vulgar, possui essa sofisticação extravagante e natural que algumas mulheres conseguem ter. A julgar pelos olhos que não saem do decote da moça, o Beto concorda comigo que ela é mesmo um pedaço de perdição. Bem, eu nunca fui muito religioso…
Como ele consegue fazer isso? Não tira os olhos da moça - juro que o vi trocando olhares diretos com ela uma ou duas vezes! – e o acompanhante bem ali do lado, nem percebe ou finge que não vê. Deve mesmo ser um assunto muito importante esse que ele está tratando no celular às duas da madrugada de um sábado, para deixar de lado essa... essa... Nicole Kidman de Moulin Rouge.
“Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo /
Quem roubou nossa coragem?”
- Pô, Beto! Legião Urbana? Sério?!
Troca isso daí, cara... Tá querendo me matar de vez? - Digo alto e de repente,
mais depressivo e menos despojado do que planejei.
- Se você não se importa, eu
gosto de Legião... - Ela interrompe com a voz de Scarlett
Johansson em Her e me ataca com o olhar de Penelope Cruz em Elegy. Sim,
é bem provável que eu estivesse fantasiando demais, mas quem
poderia me julgar depois daquela noite de tantas doses, incluindo umas caprichadas de melancolia, e de meu copo já perto do fim, outra vez?
Eu estava hipnotizado.
Há
momentos em que
as coisas parecem estar totalmente contra você. Sequências de
péssimos acontecimentos que te fazem se surpreender com como tudo
sempre pode piorar. Trechos
da sua vida em que é fácil considerar Murphy um grande otimista.
Felizmente, esse ainda não
era o caso, pelo contrário: em
alguns segundos, a maré mudou a meu favor. Eu assenti com a cabeça mostrando
que não me importava tanto com a trilha, afinal; ela sorriu, o
acompanhante se levantou irritado para atender o celular do lado de fora da
lanchonete, ela veio se sentar ao
meu lado e Beto me serviu outra gim
tônica
sem perguntar. Quem diria,
hein?
-
Então, qual o seu problema com as músicas do Renato?
-
Nada contra. Já gostei bastante, na verdade. Mas... acho
que esse tempo passou.
- E mudou tanto assim que não consegue nem ouvir melodias fáceis e frases de efeito? Ha ha.
- Não
sei... a gente muda muito, né? Quer dizer, afinal
de contas, é bom mudar.
Metamorfose Ambulante
e etc...
-
Você está defendendo sua opinião de que Legião é antiquado,
citando Raul Seixas? A madrugada é mesmo cheia de seres estranhos...
Eu também acho
que mudar é bom, mas nossa essência continua com a gente. O
problema é que o tempo passa
e vamos nos envergonhando de nós mesmos.
- Uma
tolice, já que não podemos ser outra coisa, a não ser isto: nós mesmos.
-
Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira... Ha ha
-
Poxa, você
é mesmo fã deles, hein?
- Nem tanto, mas é bom vir aqui e relembrar os velhos tempos... - E um sorriso de Summer naturalmente se abriu em frente aos meus olhos, desses que a gente poderia passar 500 dias admirando.
O cara do lado de fora chamou. Ela se levantou, deixou uma nota grande com o Beto sem esperar o troco e, antes de sair, se despediu:
O cara do lado de fora chamou. Ela se levantou, deixou uma nota grande com o Beto sem esperar o troco e, antes de sair, se despediu:
- Bom te rever. Se cuida, Escrevedor.
