31 de janeiro de 2014

De onde você é

Digo que sou de Luz, no interior de Minas, mas nasci na paulista Ilha Solteira. Interior por interior, prefiro o que me acolheu, essas montanhas mineiras que parecem feitas de manta na cama bagunçada em manhã de neblina. Morei em vários lugares e não tenho amigos de infância, só os primos que se reuniam para a ceia de natal. Mesmo depois que a família parou – o pai se aposentou -, segui. Será que deveria começar a dizer: sou “do mundo”? Melhor não, certamente meus pais me deserdariam por isso.

Um segundo cortante

Meu pai fala pouco, "para não dizer tolices". É o primogênito. Ao saber que o irmão mais novo havia falecido, disse ao mensageiro: tudo bem, obrigado. Deu a péssima nova aos restantes, um por um, presencialmente. Todos choraram no seu ombro e nem a voz ele deixou falhar. No velório, cinco irmãos em volta do caixão. Quando era pra fechar, o pai não deu um passo. Seus olhos se encheram d'água e, discreto, quis a mão da minha mãe de consolo. Logo depois, recompôs-se para dividir o peso a carregar.