Por Ennio H. R. Silva"

É no mínimo curioso como as coisas insistem em me ocorrer nos momentos mais inusitados. Não minto ao dizer que, naquele dia, estava tranqüilo sentado na praça. Definitivamente, estava no auge do “não-fazer”, não lia, não pensava e nem mesmo olhava ou ouvia algo
em especial. Na verdade, vagabundeava plenamente, vislumbrava transatlânticos no asfalto da avenida, estava ali parado para ver a vida passar.
Pois ela não passou, me olhou por um instante e sentou-se junto a mim naquele banco velho e descascado! Sim, porque aquele senhor era a própria vida e seus milhões de anos em carne e osso. Ofegante e de olhos profundos como quem infinitamente fitou um horizonte fabuloso que nunca chegou. Era um índio já idoso, de pele muito enrugada, ressecada e tão vermelha quanto o grão do guaraná. Ele parecia carregar o mundo nas costas e, a julgar pelo formato esguio de sua coluna, a mundo é muito pesado.
Oinên, esse era o nome dele, dizia ter sido grande Pajé de uma tribo no interior do Brasil. Há muitas luas, quando o Brasil não era Brasil, era nada, melhor, era tudo, era terra de tudo, terra do deus tudo, Tupã, era terra de todos e terra de ninguém. Oinên fora, além de Pajé, pescador e guerreiro, mas exigia ser chamado de Filho de Tupã.
Quando ouvi essas palavras, me deti e fitei aquele homem do meu lado, não crendo no que acontecia naquele instante. Olhei seu tipo franzino, de cocar, tanga, pinturas de guerra pelo corpo raquítico, uma expressão grave, aquilo não tinha nexo. Mas , quando nos entreolhamos, ele parecia ver até o mais obscuro ponto da minha alma. Ele voltou a falar e percebi que suas palavras faziam sentido, sentimento, emoção, reflexão, perceber, analisar, sentir, enfim, faziam sentido até demais:
- Estou cansado, meu jovem! Infinitamente cansado! Caminhei muito e isso cansa. Desde o Alasca à terra do fogo, dá África do Sul à Sibéria passando por Lisboa. Mr. Fogg quis 80 dias para dar a volta no planeta, pois eu também o rodeei e não me envergonho em dizer que essas pernas e braços demoraram três décadas para tal. Ouvi muito e isso cansa. Desde o choro triste de fome dos milhões de Africanos, Europeus, Asiáticos, Americanos e dos povos da Oceania, até ao clamor suplicante das mães que perdem filhos, dos filhos que perdem mães, dos humanos, enfim, que se perdem. Do imperativo assalto do menor delinqüente que quer um almoço aos brados estrondosos de políticos em diferentes palanques pelo mundo e com o interesse e sede de poder iguais. Falei muito e isso cansa. Senti muito e isso cansa.
Cansado estou do Homem que nunca aprende a FAZER tão esplendidamente quanto DIZ. Cansei de buscar o inalcançável. Cansei de crer na mudança que não vem. Cansei de falar aos ouvidos dos ventos. Cansei de ser o Caxias. Cansei de ser o extrovertido. Cansei de buscar o reforço que nunca chega. Cansei dos amigos que não ouvem, querem ser ouvidos e não têm nada a dizer. Cansei dos gatos entre os ratos. Cansei, sobretudo, do nosso egoísmo idiota e cego. Cansei... Cansei...
- Mas se você, tão sábio e vivido, desistir, os mais novos sequer tentarão – Eu disse – O que resta então, a morte?
- Caraíba, eu sei da minha responsabilidade, nunca desistirei. Nunca, pois essa é minha essência, minha origem, eu sou a luta incessante, a batalha diária, o Filho de Tupã que vê o clarão distante da fogueira na mata fechada. A morte? Eia a morte! Que venha ela e seus guerreiros galopantes porque meus antepassados me ensinaram que “a morte é, para um covarde, o fim. Porém para os corajosos ela é apenas um merecido descanso”. E eu te digo – sussurrou Oinên levantando-se para partir – não sou covarde, sou corajoso. Um corajoso índio cansado.