31 de maio de 2008

Um primeiro de maio

Por Ennio H. R. Silva



Aquela manhã estava cinzenta e triste. Eu olhava ansiosamente, do esconderijo seguro que estava, a esquina por onde os manifestantes surgiriam. Era dia primeiro de maio e eu sabia que haveria protestos naquela praça. Mesmo simpatizando-me com as causas de igualdade e justiça defendidas, não podia me dar ao luxo de ser visto pela polícia e sucumbir em sua repressão truculenta. Se eu fosse pego, todo o movimento poderia ruir.
A massa surgiu da rua perpendicular para a principal. Nos rostos deles percebi um misto de alegria, ao ver o caminho livre pela frente, de raiva, pela necessidade das reivindicações e de força que emana naturalmente da união.
Meu presságio fora quase uma previsão: a polícia se impôs mordazmente. Jatos de água marcaram o início da ação policial e já desestruturaram o bloco de civis. Em seguida, bombas de gás e balas de borracha abalaram-lhes mais ainda. No fim, o som forte dos bastões contra os escudos da tropa superava os brados dos "subversivos".
No outro dia, vi a nota no jornal: "quatro mortos e dez feridos em manifestação de 1º de maio". E percebi o quanto, em relação à cena vivida, as palavras são pálidas e frias.

26 de maio de 2008

O suspiro de um velho índio

Por Ennio H. R. Silva"


É no mínimo curioso como as coisas insistem em me ocorrer nos momentos mais inusitados. Não minto ao dizer que, naquele dia, estava tranqüilo sentado na praça. Definitivamente, estava no auge do “não-fazer”, não lia, não pensava e nem mesmo olhava ou ouvia algo em especial. Na verdade, vagabundeava plenamente, vislumbrava transatlânticos no asfalto da avenida, estava ali parado para ver a vida passar.

Pois ela não passou, me olhou por um instante e sentou-se junto a mim naquele banco velho e descascado! Sim, porque aquele senhor era a própria vida e seus milhões de anos em carne e osso. Ofegante e de olhos profundos como quem infinitamente fitou um horizonte fabuloso que nunca chegou. Era um índio já idoso, de pele muito enrugada, ressecada e tão vermelha quanto o grão do guaraná. Ele parecia carregar o mundo nas costas e, a julgar pelo formato esguio de sua coluna, a mundo é muito pesado.
 
Oinên, esse era o nome dele, dizia ter sido grande Pajé de uma tribo no interior do Brasil. Há muitas luas, quando o Brasil não era Brasil, era nada, melhor, era tudo, era terra de tudo, terra do deus tudo, Tupã, era terra de todos e terra de ninguém. Oinên fora, além de Pajé, pescador e guerreiro, mas exigia ser chamado de Filho de Tupã.
 
Quando ouvi essas palavras, me deti e fitei aquele homem do meu lado, não crendo no que acontecia naquele instante. Olhei seu tipo franzino, de cocar, tanga, pinturas de guerra pelo corpo raquítico, uma expressão grave, aquilo não tinha nexo. Mas , quando nos entreolhamos, ele parecia ver até o mais obscuro ponto da minha alma. Ele voltou a falar e percebi que suas palavras faziam sentido, sentimento, emoção, reflexão, perceber, analisar, sentir, enfim, faziam sentido até demais:
 
- Estou cansado, meu jovem! Infinitamente cansado! Caminhei muito e isso cansa. Desde o Alasca à terra do fogo, dá África do Sul à Sibéria passando por Lisboa. Mr. Fogg quis 80 dias para dar a volta no planeta, pois eu também o rodeei e não me envergonho em dizer que essas pernas e braços demoraram três décadas para tal. Ouvi muito e isso cansa. Desde o choro triste de fome dos milhões de Africanos, Europeus, Asiáticos, Americanos e dos povos da Oceania, até ao clamor suplicante das mães que perdem filhos, dos filhos que perdem mães, dos humanos, enfim, que se perdem. Do imperativo assalto do menor delinqüente que quer um almoço aos brados estrondosos de políticos em diferentes palanques pelo mundo e com o interesse e sede de poder iguais. Falei muito e isso cansa. Senti muito e isso cansa. 

Cansado estou do Homem que nunca aprende a FAZER tão esplendidamente quanto DIZ. Cansei de buscar o inalcançável. Cansei de crer na mudança que não vem. Cansei de falar aos ouvidos dos ventos. Cansei de ser o Caxias. Cansei de ser o extrovertido. Cansei de buscar o reforço que nunca chega. Cansei dos amigos que não ouvem, querem ser ouvidos e não têm nada a dizer. Cansei dos gatos entre os ratos. Cansei, sobretudo, do nosso egoísmo idiota e cego. Cansei... Cansei...
 
- Mas se você, tão sábio e vivido, desistir, os mais novos sequer tentarão – Eu disse – O que resta então, a morte?
- Caraíba, eu sei da minha responsabilidade, nunca desistirei. Nunca, pois essa é minha essência, minha origem, eu sou a luta incessante, a batalha diária, o Filho de Tupã que vê o clarão distante da fogueira na mata fechada. A morte? Eia a morte! Que venha ela e seus guerreiros galopantes porque meus antepassados me ensinaram que “a morte é, para um covarde, o fim. Porém para os corajosos ela é apenas um merecido descanso”. E eu te digo – sussurrou Oinên levantando-se para partir – não sou covarde, sou corajoso. Um corajoso índio cansado.

17 de maio de 2008

O ponto de interrogação é uma lanterna


Acredito que filosofar é, e nada mais, ter sede de conhecimento, ser apaixonado pelo novo, não ter medo dos riscos. Enfim, se lançar, pelo impulso da curiosidade, na nebulosa escuridão do desconhecido. Utilizar o desejo pelo saber para iluminar o incógnito. Filosofar é ter oito anos de idade....


"Oito anos
Intérprete: Adriana Calcanhoto
Por: Dunga / Paula Toller

Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo?
O que significa
"Impávido colosso"?

Por que os ossos doem
enquanto a gente dorme?
Por que os dentes caem?
Por onde os filhos saem?

Por que os dedos murcham
quando estou no banho?
Por que as ruas enchem
quando está chovendo?

Quanto é mil trilhões
vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?

Well, well, well
Gabriel...

Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a terra roda?
Por que deitar agora?

Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?

Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?

Do que é feita a nuvem?
Do que é feita a neve?
Como é que se escreve
Reveillon?"


E eu queria ter oito anos de idade...

13 de maio de 2008

Memórias de um ex-hacker

Por Ennio H. R. Silva”



Ainda me lembro da minha primeira invasão: quinze de março de dois mil e cinco. Uma terça-feira ensolarada e tranqüila, acima de suspeitas, o melhor dia para agir.
Da porção mais isolada do meu quarto tudo levou alguns segundos. Duas mordidas no sanduíche, um gole de refrigerante e o dinheiro estava na nova conta: eu era um Hacker.
A adrenalina de driblar o sistema, ser melhor que a máquina me motivava e me viciava. Dia após dia, permanecia em frente ao computador, transferindo dinheiro, eliminando arquivos e enviando vírus. Era tudo um grande jogo.
Meus contratantes nunca quiseram contato direto comigo, pouco me importava. Eu tinha apenas dezoito anos e morava com meus pais, ou seja, fazia aquilo menos pelo dinheiro que pelo desafio.
Porém, um dia o sol estava por trás das nuvens. Quando acordei, eu senti que algo ruim aconteceria. À tarde, tive a confirmação do presságio, a polícia invadiu minha casa, fui preso, julgado e condenado.
Em todo caso, hoje o que tortura meu sono não são os dias que restantes da pena ou o desgosto da minha família. O que assombra minha mente todo o tempo são os rostos do tribunal, melhor, o desprezo, a repulsa e o nojo daqueles olhos sobre mim.
Enfim, a percepção de que o que fiz não era um desafio ou um jogo. Era crime: crime eletrônico.

O perdão materno

Por Ennio H. R. Silva”



Era uma noite excepcionalmente fria, a tristeza parece ter essa propriedade. Meu marido não suportou e subiu para o quarto, na sala restamos eu e meu filho, Roger. Eu olhava nos olhos dele e ele me parecia o bebê que já fora um dia, chorando sincera e pesarosamente.
Tudo havia começado há três semanas. Quando entrei no quarto e o computador dele estava ligado. Vasculhando as páginas abertas não acreditei: sistemas bancários invadidos, arquivos de vírus pela pasta, números de CPF’s desconhecidos e vários cartões de crédito. Fiquei atônita por uns segundos, depois copiei as informações, deixei tudo como antes e saí.
Não contei nada ao meu marido, eu mesma não acreditava. Investiguei por três semanas para desmentir minhas suspeitas. Eu o havia criado com tanto zelo, atenção, conforto. Roger não tinha motivos para roubar, bastava pedir.
Dias de tensão, sem dormir. A cada transação criminosa confirmada meu coração se dividia em pedaços menores. Hoje de manhã, pouco depois do “suspeito” ir para a escola, confirmei que o último cartão de crédito também era clonado.
Chorei o dia todo e não fui trabalhar. Quando anoiteceu, esperei até que os dois chegassem e chamei-os, meu garoto e meu marido, à mesa e mostrei as provas.
Nesse momento, pude ver o choque nos olhos deles, o maior se enfurecendo e o menor se desesperando.
Agora, meu filho está me pedindo perdão, jurando que não fará nada mais, temendo a polícia. Claro que irei perdoá-lo, o que ele pensa? Minha mãe já dizia: “o amor verdadeiro é o amor materno.”.
Mas, tragicamente, ela também profetizou: “A confiança é um primoroso cálice de cristal. Contudo, é delicadíssimo, quando se trinca, quebra-se com muito mais facilidade e sua sublime beleza jamais se recupera”.