31 de maio de 2008

Um primeiro de maio

Por Ennio H. R. Silva



Aquela manhã estava cinzenta e triste. Eu olhava ansiosamente, do esconderijo seguro que estava, a esquina por onde os manifestantes surgiriam. Era dia primeiro de maio e eu sabia que haveria protestos naquela praça. Mesmo simpatizando-me com as causas de igualdade e justiça defendidas, não podia me dar ao luxo de ser visto pela polícia e sucumbir em sua repressão truculenta. Se eu fosse pego, todo o movimento poderia ruir.
A massa surgiu da rua perpendicular para a principal. Nos rostos deles percebi um misto de alegria, ao ver o caminho livre pela frente, de raiva, pela necessidade das reivindicações e de força que emana naturalmente da união.
Meu presságio fora quase uma previsão: a polícia se impôs mordazmente. Jatos de água marcaram o início da ação policial e já desestruturaram o bloco de civis. Em seguida, bombas de gás e balas de borracha abalaram-lhes mais ainda. No fim, o som forte dos bastões contra os escudos da tropa superava os brados dos "subversivos".
No outro dia, vi a nota no jornal: "quatro mortos e dez feridos em manifestação de 1º de maio". E percebi o quanto, em relação à cena vivida, as palavras são pálidas e frias.

Um comentário:

Jessica disse...

Parabéns pelo blog Ennio! Adorei os textos! Trate de voltar a postar, viu mocinho?! =P Bjux