29 de outubro de 2014

Na clausura

Não nego que sou menos santo que os outros. Fiz o que fiz. E estou aqui esperando me dizerem que já posso sair. Um intervalo de tempo entre duas vidas distintas que deveria ser incontável. Foi o que ela me disse. No julgamento, enquanto os guardas me guiavam depois da sentença: "Apodrece atrás das grades! Eu quero que você perca a conta do tempo que perdeu na clausura porque eu perderei o meu contando o quanto você me roubou!". Fria. Paulatina. Palavras roucas saindo, uma a uma, da boca de quem chorou por dias. Eu não sabia que alguém podia sentir tanto ódio. Eu nunca senti. Nem contra eles. Estava em um transe de adrenalina que distorceu minha própria justiça. Às vezes é assim, a vida coloca sangue em nossas mãos para lhe ajeitarmos as linhas. Entre meu objetivo e eu estava um obstáculo. Nada mais simples. Fiz o que fiz. Eu não me arrependo de ter ajudado as coisas a serem como são. O estranho é imaginar que me deram o mesmo isolamento que dão aos monges pacifistas do Tibete. Quando não há nenhuma distração, você se encontra consigo mesmo. Acho que é por isso que ela quis que eu me perdesse no tempo aqui dentro: para que a névoa que encobre a realidade, a nuvem baixa que envolve a Mata Atlântica no topo do morro, a neblina densa que entra pela janela aberta no inverno e esconde a mobília... para que tudo isso se dissipe e eu possa ver quem, afinal, há por trás. Ela quer que eu me veja por trás do que aconteceu e que me encare, sem opções para onde desviar o olhar. Então, se eu não posso mais devolver o que lhe tomei, é com o mesmo senso de equidade particular que uma vez os fantasmas da minha mente distorceram, que persigo diuturnamente o destino que ela me designou. Não me interessa falar com ninguém. Não me interessa comprar cigarros. Não me interessa receber os que ficaram lá fora. Não me interessa quanto tempo falta. É tudo distração. É tudo névoa e me causa náusea. Quero "perder a conta". Mas, bem agora, na cela cinza que divido com Davidson, meus olhos se distraem. E veem, mais uma vez, ele fazer outro risco na parede de lá. É o fim de um dia qualquer. No início, ignorei o ritual. Depois, pedi que parasse. "Não vejo a hora de sair daqui", ele respondeu. Nem eu, mas esta insistência metódica das marcas diárias está me fazendo ver o horizonte se aproximar. Os assimetricamente desenhados grupos simétricos de quatro traçados verticais e um diagonal começam a formar um calendário na minha cabeça. Não tenho nada contra o Davidson. Eu só quero cumprir minha pena. Não a que o juiz escreveu. A que ela me sussurrou. Quero cumprir minha pena e encontrar minha paz. Mas, entre meu objetivo e eu, arranhando a parede e me causando gasturas, está um obstáculo recurvado.