8 de dezembro de 2014

Carta aberta em defesa do Amigo Oculto


Estes são tempos sombrios. Não há como negar. Da falta de água em São Paulo até à constatação de que o chocolate pode estar caminhando para a extinção. As notícias boas estão, vertiginosamente, se tornando mais raras a cada segundo, camaradas! Em contextos pré-apocalípticos como este que compartilhamos, há de se considerar justa toda forma de amor, já diria Lulu Santos. Vamos multiplicar os momentos felizes! Cultos religiosos, retiros de autoconhecimento, grupos de leitura, confraternizações da empresa com entrega de Participação nos Resultados, Comitês Revolucionários UltraJovens, reuniões do AA e, evidentemente, jogos de Amigo Oculto.

Pessoas de pouca fé e índole duvidosa dirão que jogos de Amigo Oculto não entram na categoria de momentos felizes. Ousarão eles ressaltar os instantes incômodos na hora de comprar algo para quem não se conhece. Destacarão de forma vil as repetitivas descrições ambíguas que não levam a lugar algum dos mais “engraçadinhos” (Meu amigo ocuuultooo… está nesta sala! Tem… duas pernas…. E fala portuguê-ês! ha ha ha!!). Não satisfeitos em seus argumentos vãos, esses infiéis natalinos podem até jogar baixo, insinuando que 90% dos presentes que a gente recebe são pessimamente escolhidos. 

Contudo, não quero aqui entrar no mérito dessas infâmias contra a melhor das brincadeiras de Natal. Nem direi que meus adversários são uns amargurados que tiveram uma experiência ruim na infância e que deveriam procurar um profissional para ajudar-lhes a compreender que a vida sempre se reinventa a cada amanhecer, como já disse Augusto Cury, provavelmente. Não! Vamos tirar os olhos do retrovisor, candidata!

Amigo Oculto, meus amigos e amigas, é a celebração do dar e receber, desprendido do consumismo. É presentear com um PS4 porque você sabe que a pessoa vai adorar, mesmo correndo o risco de ganhar um par de meias do seu cunhado que não dá a mínima. É se divertir com a interna de outras duas pessoas, dita na descrição, pelo simples fato de que você não quer se sentir excluído naquele momento. É se esforçar para adentrar à mente “do outro”. É uma experiência sociológica! Antropológica! Psicológica! Quiçá – ou principalmente – ontológica! Tá, não é pra tanto… mas vocês me entenderam.

O bom Amigo Oculto (ou ‘Amigo Secreto’, para os cariocas) precisa seguir alguns pré-requisitos. A) Nem todo mundo pode ser empolgado demais, senão fica caríssimo. B) Nem todo mundo pode ser tão próximo, senão fica sem presentes ruins e sem histórias memoráveis (lembra aquela vez que o Fulano deu um kit de cerveja artesanal gourmet pro Ciclano, que tava tentando parar de beber na época?). C) Ninguém pode colocar restrições de presentes (Pode dar meia e vale-presente sim. E, se reclamar, ganha um cartão sem graça só com assinatura e mensagem padrão também!). D) Em caso de grupo de não-familiares, é imprescindível que seja perto do Natal para a ‘diversão’ já começar na impossível marcação da data para a entrega dos presentes. E) Claro, se pessoas que já se pegaram estiverem no grupo, melhor ainda. (Adendo: Depois da Declaração Universal dos Jogos de Amigo Oculto, ratificada na Paris de 1948, Simone deixou de ser trilha sonora obrigatória, mas ainda é um ato facultativo, para agradar aos mais roots).

Antes que me chamem de sádico (ou de me julgarem), dou meu principal argumento: é preciso dar espaço ao inusitado na vida. O ano todo, na rotina do dia a dia, somos tragados pelo ordinário. Amigo Oculto é a hora de dar um pequeno “atl+tab” nessa vidinha sua aí e receber uma surpresa, poxa. Boa ou – mais provavelmente – nem tão boa assim. E o que é que tem? Um presente ruim por dez risadas e quatro ou cinco momentos de hilariante constrangimento. Troca justa!

Se nada disso os convenceu da necessidade de mantermos viva esta tradição milenar (Há relatos rupestres de aborígenes australianos fazendo imitações uns dos outros antes de trocar suculentas asinhas assadas de cacatua por meias de pele de coala. Ou não), então, meus caros… vou usar a sabedoria dos meus pais, que todo ano sentenciam: “Amigo Oculto é chato demais, mas desse jeito, pelo menos, crianças e adultos ganham presentes. Ninguém fica sem”.

Por mais momentos nonsense!
Por mais constrangimentos hilários!
Por mais presentes pra todo mundo!
Por mais Amigo Oculto!

P.S.: Na semana passada, eu faltei por aqui. Estava brincando de lançar meu primeiro livro (www.editoraletramento.com.br/nomeiodanoticias.html). Aos que sentiram minha falta: desculpa. Aos que não sentiram: de nada.

P.p.s.: Apesar de tudo isso, este ano não vai ter Amigo Oculto na minha casa. Espero que esta carta mude a opinião dos meus familiares.

29 de outubro de 2014

Na clausura

Não nego que sou menos santo que os outros. Fiz o que fiz. E estou aqui esperando me dizerem que já posso sair. Um intervalo de tempo entre duas vidas distintas que deveria ser incontável. Foi o que ela me disse. No julgamento, enquanto os guardas me guiavam depois da sentença: "Apodrece atrás das grades! Eu quero que você perca a conta do tempo que perdeu na clausura porque eu perderei o meu contando o quanto você me roubou!". Fria. Paulatina. Palavras roucas saindo, uma a uma, da boca de quem chorou por dias. Eu não sabia que alguém podia sentir tanto ódio. Eu nunca senti. Nem contra eles. Estava em um transe de adrenalina que distorceu minha própria justiça. Às vezes é assim, a vida coloca sangue em nossas mãos para lhe ajeitarmos as linhas. Entre meu objetivo e eu estava um obstáculo. Nada mais simples. Fiz o que fiz. Eu não me arrependo de ter ajudado as coisas a serem como são. O estranho é imaginar que me deram o mesmo isolamento que dão aos monges pacifistas do Tibete. Quando não há nenhuma distração, você se encontra consigo mesmo. Acho que é por isso que ela quis que eu me perdesse no tempo aqui dentro: para que a névoa que encobre a realidade, a nuvem baixa que envolve a Mata Atlântica no topo do morro, a neblina densa que entra pela janela aberta no inverno e esconde a mobília... para que tudo isso se dissipe e eu possa ver quem, afinal, há por trás. Ela quer que eu me veja por trás do que aconteceu e que me encare, sem opções para onde desviar o olhar. Então, se eu não posso mais devolver o que lhe tomei, é com o mesmo senso de equidade particular que uma vez os fantasmas da minha mente distorceram, que persigo diuturnamente o destino que ela me designou. Não me interessa falar com ninguém. Não me interessa comprar cigarros. Não me interessa receber os que ficaram lá fora. Não me interessa quanto tempo falta. É tudo distração. É tudo névoa e me causa náusea. Quero "perder a conta". Mas, bem agora, na cela cinza que divido com Davidson, meus olhos se distraem. E veem, mais uma vez, ele fazer outro risco na parede de lá. É o fim de um dia qualquer. No início, ignorei o ritual. Depois, pedi que parasse. "Não vejo a hora de sair daqui", ele respondeu. Nem eu, mas esta insistência metódica das marcas diárias está me fazendo ver o horizonte se aproximar. Os assimetricamente desenhados grupos simétricos de quatro traçados verticais e um diagonal começam a formar um calendário na minha cabeça. Não tenho nada contra o Davidson. Eu só quero cumprir minha pena. Não a que o juiz escreveu. A que ela me sussurrou. Quero cumprir minha pena e encontrar minha paz. Mas, entre meu objetivo e eu, arranhando a parede e me causando gasturas, está um obstáculo recurvado.


1 de junho de 2014

Aves noturnas

- Há quanto tempo não te vejo por aqui, Pedro...
- É, faz um tempão mesmo, Beto. Me serve uma da de sempre, por favor?
- Agora! Era... Scotch? Com ou sem gelo?
- Gim tônica, Betão... Pode trazer a tônica separada, tá bom?
- Claro, claro... gim tônica com bastante gelo. Tá saindo!

Eu costumava passar muitas noites aqui. Sentia-me em casa. Esse grande balção em formato de U do bar apertado me reconfortava. Sempre me fez um bem danado deslizar a mão sobre a lustrosa tampa de madeira envernizada e mal iluminada, brincando com as marcas circulares de água deixadas pelos copos. É curioso que, proporcionalmente, haja mais espaço para o Beto e suas bebidas do lado de lá do balcão, do que para os bistrôs sem almofada dos clientes e a única fila de mesas com duas cadeiras grudadas à parede atrás de mim. Vale a pena caminhar um par de quilômetros até aqui, só para ver esse deslocado bar no estilo “anos 40” bem no centro da cidade. Mas, não uma decoração detalhista e presunçosa como a de franquias de fast food, só mesmo esse uniforme branco com chapéu do Beto e esses pôsteres de Casablanca e filmes do Orson Welles. Há janelas enormes, mas os adesivos e a baixíssima regularidade com que veem água e sabão, turvam a visão de quem passa na rua.

- E, então, o que te trouxe de volta a este ilustre café? - falava Beto, enquanto me servia com um tom mais sério do que aquele chapéu antigo sugeria.
- O que será que nos traz de volta a qualquer lugar? A vontade, necessidade, de sentir de novo aquilo que já sentimos ali, eu acho. Eram dias bons aqueles que eu passava aqui. Mas as coisas mudam muito rápido.
- O que mudou?
- Tudo que se possa pensar. A idade, as perspectivas, o entusiasmo... você lembra como eu fazia a maior bagunça por aqui?
- Mais do que eu, os vizinhos da lanchonete, com certeza, não se esqueceram...

Beto se afasta. Vai atender um casal de clientes que chegou. Vai ganhar a vida, como sempre. É verdade... o letreiro lá fora diz “Lanchonete Phillies” e não “bar Phillies” ou apenas “Phillies”... nós ríamos sempre disso... “Qual é o único lugar sombrio, obscuro, insalubre e que vende scotch sem gelo da cidade que tem a ousadia e os colhões de se autoproclamar uma lanchonete?”, alguém puxava, sem nenhum contexto necessário e geralmente depois das três da manhã. Então, todos respondíamos em uníssono: “A Lanchonete Phillies!!” e era para cá que víamos, juntos, aos tropeços e risos. Afinal, o que havia de tão engraçado assim naqueles dias?

Dávamos-nos o arrogante nome de “Águias da Noite”... não... lembro como Henrique era antiamericano demais para assumir aquela alcunha... adaptamos para “Aves noturnas”... Agora, pensando bem, poderíamos ter trocado o “noturnas” por “soturnas”... nos cairia bem com toda aquela nostalgia precoce, nossa angústia juvenil, o lírico peso n'alma, assim, na tal forma sincopada... O que aconteceu, nesse meio tempo, com meus adjetivos? Parece que só me restam a nostalgia, a angústia e o peso.

É bonito o casal que chegou agora. Bem, o cara não passa de uma pessoa sem realce. Altura mediana, terno cinza, blusa azul escura, gravata negra, nem magro, nem gordo e com uma estúpida cara de paisagem qualquer… Mas a ruiva... A ruiva que está com ele erradia toda a beleza que faz a áurea dos dois. Sentaram-se na ponta do balcão, próximos às máquinas de café, de modo que estão bem na minha diagonal esquerda. Atrás dela, no canto, é onde nos sentávamos. Se estivesse por lá agora com os outros, com certeza, poderia admirar bem de perto as costas nuas de seu vestido vermelho. Ruiva, batom, unhas e vestido vermelhos… nada vulgar, possui essa sofisticação extravagante e natural que algumas mulheres conseguem ter. A julgar pelos olhos que não saem do decote da moça, o Beto concorda comigo que ela é mesmo um pedaço de perdição. Bem, eu nunca fui muito religioso…

Como ele consegue fazer isso? Não tira os olhos da moça - juro que o vi trocando olhares diretos com ela uma ou duas vezes! – e o acompanhante bem ali do lado, nem percebe ou finge que não vê. Deve mesmo ser um assunto muito importante esse que ele está tratando no celular às duas da madrugada de um sábado, para deixar de lado essa... essa... Nicole Kidman de Moulin Rouge.

“Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo /
Quem roubou nossa coragem?”

- Pô, Beto! Legião Urbana? Sério?! Troca isso daí, cara... Tá querendo me matar de vez? - Digo alto e de repente, mais depressivo e menos despojado do que planejei.
- Se você não se importa, eu gosto de Legião... - Ela interrompe com a voz de Scarlett Johansson em Her e me ataca com o olhar de Penelope Cruz em Elegy. Sim, é bem provável que eu estivesse fantasiando demais, mas quem poderia me julgar depois daquela noite de tantas doses, incluindo umas caprichadas de melancolia, e de meu copo já perto do fim, outra vez? Eu estava hipnotizado.

Há momentos em que as coisas parecem estar totalmente contra você. Sequências de péssimos acontecimentos que te fazem se surpreender com como tudo sempre pode piorar. Trechos da sua vida em que é fácil considerar Murphy um grande otimista. Felizmente, esse ainda não era o caso, pelo contrário: em alguns segundos, a maré mudou a meu favor. Eu assenti com a cabeça mostrando que não me importava tanto com a trilha, afinal; ela sorriu, o acompanhante se levantou irritado para atender o celular do lado de fora da lanchonete, ela veio se sentar ao meu lado e Beto me serviu outra gim tônica sem perguntar. Quem diria, hein?

- Então, qual o seu problema com as músicas do Renato?
- Nada contra. Já gostei bastante, na verdade. Mas... acho que esse tempo passou.
- E mudou tanto assim que não consegue nem ouvir melodias fáceis e frases de efeito? Ha ha.
- Não sei... a gente muda muito, né? Quer dizer, afinal de contas, é bom mudar. Metamorfose Ambulante e etc...
- Você está defendendo sua opinião de que Legião é antiquado, citando Raul Seixas? A madrugada é mesmo cheia de seres estranhos... Eu também acho que mudar é bom, mas nossa essência continua com a gente. O problema é que o tempo passa e vamos nos envergonhando de nós mesmos.
- Uma tolice, já que não podemos ser outra coisa, a não ser isto: nós mesmos.
- Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira... Ha ha
- Poxa, você é mesmo fã deles, hein?
- Nem tanto, mas é bom vir aqui e relembrar os velhos tempos... - E um sorriso de Summer naturalmente se abriu em frente aos meus olhos, desses que a gente poderia passar 500 dias admirando.

O cara do lado de fora chamou. Ela se levantou, deixou uma nota grande com o Beto sem esperar o troco e, antes de sair, se despediu:

- Bom te rever. Se cuida, Escrevedor.


31 de janeiro de 2014

De onde você é

Digo que sou de Luz, no interior de Minas, mas nasci na paulista Ilha Solteira. Interior por interior, prefiro o que me acolheu, essas montanhas mineiras que parecem feitas de manta na cama bagunçada em manhã de neblina. Morei em vários lugares e não tenho amigos de infância, só os primos que se reuniam para a ceia de natal. Mesmo depois que a família parou – o pai se aposentou -, segui. Será que deveria começar a dizer: sou “do mundo”? Melhor não, certamente meus pais me deserdariam por isso.

Um segundo cortante

Meu pai fala pouco, "para não dizer tolices". É o primogênito. Ao saber que o irmão mais novo havia falecido, disse ao mensageiro: tudo bem, obrigado. Deu a péssima nova aos restantes, um por um, presencialmente. Todos choraram no seu ombro e nem a voz ele deixou falhar. No velório, cinco irmãos em volta do caixão. Quando era pra fechar, o pai não deu um passo. Seus olhos se encheram d'água e, discreto, quis a mão da minha mãe de consolo. Logo depois, recompôs-se para dividir o peso a carregar.