Para Coletivo de Três
Estes são tempos sombrios. Não há como negar. Da falta de água em São Paulo até à constatação de que o chocolate pode estar caminhando para a extinção. As notícias boas estão, vertiginosamente, se tornando mais raras a cada segundo, camaradas! Em contextos pré-apocalípticos como este que compartilhamos, há de se considerar justa toda forma de amor, já diria Lulu Santos. Vamos multiplicar os momentos felizes! Cultos religiosos, retiros de autoconhecimento, grupos de leitura, confraternizações da empresa com entrega de Participação nos Resultados, Comitês Revolucionários UltraJovens, reuniões do AA e, evidentemente, jogos de Amigo Oculto.
Pessoas de pouca fé e índole duvidosa dirão que jogos de Amigo Oculto não entram na categoria de momentos felizes. Ousarão eles ressaltar os instantes incômodos na hora de comprar algo para quem não se conhece. Destacarão de forma vil as repetitivas descrições ambíguas que não levam a lugar algum dos mais “engraçadinhos” (Meu amigo ocuuultooo… está nesta sala! Tem… duas pernas…. E fala portuguê-ês! ha ha ha!!). Não satisfeitos em seus argumentos vãos, esses infiéis natalinos podem até jogar baixo, insinuando que 90% dos presentes que a gente recebe são pessimamente escolhidos.
Contudo, não quero aqui entrar no mérito dessas infâmias contra a melhor das brincadeiras de Natal. Nem direi que meus adversários são uns amargurados que tiveram uma experiência ruim na infância e que deveriam procurar um profissional para ajudar-lhes a compreender que a vida sempre se reinventa a cada amanhecer, como já disse Augusto Cury, provavelmente. Não! Vamos tirar os olhos do retrovisor, candidata!
Amigo Oculto, meus amigos e amigas, é a celebração do dar e receber, desprendido do consumismo. É presentear com um PS4 porque você sabe que a pessoa vai adorar, mesmo correndo o risco de ganhar um par de meias do seu cunhado que não dá a mínima. É se divertir com a interna de outras duas pessoas, dita na descrição, pelo simples fato de que você não quer se sentir excluído naquele momento. É se esforçar para adentrar à mente “do outro”. É uma experiência sociológica! Antropológica! Psicológica! Quiçá – ou principalmente – ontológica! Tá, não é pra tanto… mas vocês me entenderam.
O bom Amigo Oculto (ou ‘Amigo Secreto’, para os cariocas) precisa seguir alguns pré-requisitos. A) Nem todo mundo pode ser empolgado demais, senão fica caríssimo. B) Nem todo mundo pode ser tão próximo, senão fica sem presentes ruins e sem histórias memoráveis (lembra aquela vez que o Fulano deu um kit de cerveja artesanal gourmet pro Ciclano, que tava tentando parar de beber na época?). C) Ninguém pode colocar restrições de presentes (Pode dar meia e vale-presente sim. E, se reclamar, ganha um cartão sem graça só com assinatura e mensagem padrão também!). D) Em caso de grupo de não-familiares, é imprescindível que seja perto do Natal para a ‘diversão’ já começar na impossível marcação da data para a entrega dos presentes. E) Claro, se pessoas que já se pegaram estiverem no grupo, melhor ainda. (Adendo: Depois da Declaração Universal dos Jogos de Amigo Oculto, ratificada na Paris de 1948, Simone deixou de ser trilha sonora obrigatória, mas ainda é um ato facultativo, para agradar aos mais roots).
Antes que me chamem de sádico (ou de me julgarem), dou meu principal argumento: é preciso dar espaço ao inusitado na vida. O ano todo, na rotina do dia a dia, somos tragados pelo ordinário. Amigo Oculto é a hora de dar um pequeno “atl+tab” nessa vidinha sua aí e receber uma surpresa, poxa. Boa ou – mais provavelmente – nem tão boa assim. E o que é que tem? Um presente ruim por dez risadas e quatro ou cinco momentos de hilariante constrangimento. Troca justa!
Se nada disso os convenceu da necessidade de mantermos viva esta tradição milenar (Há relatos rupestres de aborígenes australianos fazendo imitações uns dos outros antes de trocar suculentas asinhas assadas de cacatua por meias de pele de coala. Ou não), então, meus caros… vou usar a sabedoria dos meus pais, que todo ano sentenciam: “Amigo Oculto é chato demais, mas desse jeito, pelo menos, crianças e adultos ganham presentes. Ninguém fica sem”.
Por mais momentos nonsense!
Por mais constrangimentos hilários!
Por mais presentes pra todo mundo!
Por mais Amigo Oculto!
P.S.: Na semana passada, eu faltei por aqui. Estava brincando de lançar meu primeiro livro (www.editoraletramento.com.br/nomeiodanoticias.html). Aos que sentiram minha falta: desculpa. Aos que não sentiram: de nada.
P.p.s.: Apesar de tudo isso, este ano não vai ter Amigo Oculto na minha casa. Espero que esta carta mude a opinião dos meus familiares.
Nenhum comentário:
Postar um comentário