9 de maio de 2012

Em meio ao furacão


São 1h22 da manhã e a insistência da idéia de começar essa série de textos chegou a um ponto impossível de protelar ou ignorar. Num momento de crise, alguns dão socos em travesseiros, outros afogam as mágoas num bar e ainda tem o tipo meio maluco que sai gritando loucamente pelas ruas. Eu, escrevo.

Imagine-se, por um instante, no seguinte contexto: você precisa construir um castelo de cartas o mais alto quanto for possível. Ninguém te ensina como fazer isso, qual a razão dessa tarefa, ou garante, de fato, que você terá um prêmio qualquer quando terminar. Do nada, bem a la Kafka, você acorda em uma sala escura, com uma única luz que te ilumina, assim como à cadeira que você está sentado e à mesa que está na sua frente. Sobre a mesa, um baralho e um bilhete: “para ter chances de ver o sol de novo, construa um castelo com essas cartas”.



No começo, talvez, você não fizesse nada. Afinal, que coisa mais sem sentido é essa de construir castelo de cartas numa sala escura? Por que diabos alguém iria querer que eu construísse um castelo de cartas? Eu não sei nada sobre isso... por que eu? Mas, cedo ou tarde, a fome ia começar a apertar, a sede, o tédio, a angústia e tudo o mais. Se nada acontecesse, você não teria outra opção, a não ser esquecer sua própria idéia de “lógica”, ceder e, mesmo se sentindo muito estúpido por fazer aquilo, começar a construir seu castelinho, carta por carta.

Já que a metáfora é minha, vamos complexificá-la um pouco mais. Seja lá quem estivesse querendo te estimular a construir esse castelo, obrigatoriamente, teria que sinalizar quando você estivesse no caminho certo para você continuar. Então, provavelmente, depois de alguns “andares” construídos, alguém jogaria uma comida ou uma água sob a porta para indicar “é isso aí, continue construindo. Esse é o objetivo”. Embora continuasse fazendo pouco sentido aquilo para você, instintivamente é provável que continuasse empilhando os cartões de papel, afim de, pelo menos, conseguir mais comida/água.

Agora, considere que essa não é mais a única coisa que está acontecendo no quarto. Subitamente, uma luz se acende em um canto com várias bolas multicoloridas e recipientes também coloridos com um recado parecido com o primeiro, dizendo: “para ter chances de ver o sol de novo, construa um castelo com aquelas cartas e ordene essas esferas por cor”. Você se dividiria entre as duas funções e, até aqui, tudo bem: coloca uma ou duas cartas, depois separa três ou quatro bolinhas. Mas então nos outros três cantos da sala, também se acendem lâmpadas e iluminam outras três tarefas. Não importa muito o quê são, o fato é que você precisa fazer tudo aquilo para ter acesso à possibilidade de ver o sol de novo. Detalhe: tudo o que você tem é uma possibilidade, nada garantido.

Digamos ainda que, caso qualquer tarefa começasse a ser deixada para trás em benefício das outras, uma sirene estridente começava a tocar na sala e luzes vermelhas a piscar, te desnorteando e impedindo, inclusive, que você se concentrasse nas que já estava fazendo. Que tal, para ficar ainda mais verossímil isso tudo (ou não), se os “desafios” fossem ficando mais difíceis? As cartas começassem a aparecer rasgadas, meio amassadas, tortas, dificultando o equilíbrio? Entre as bolinhas, viessem cubos, pirâmides, formas ovais... E, a cada opção demorada e/ou errada, lá vinha a sirene ensurdecedora e as luzes irritantes!

O efeito em cascata é previsível. É bem possível que você se sentisse no meio de uma tormenta catastrófica, já que tomaria conta de todo seu pequeno universo, aquela sala. Seria preciso muito sangue frio para levar uma situação assim à diante, né? Imagino que a vontade, no meio dessa loucura toda, seria de simplesmente sentar-se no meio da sala e ver até onde aquela confusão iria chegar. Mas as cartas não se arrumam sozinhas e nem as bolinhas pulam para dentro de suas caixas por si mesmas.

Aos recém completos 24 anos de idade, quase com meu (primeiro?) diploma de graduação nas mãos, iniciando uma carreira no mundo dos “empregados”, nunca abandonando àquela busca romantizada, pagando contas como gente grande, precisando fazer planos “sérios” pela primeira vez... todos os quatro cantos da minha sala (e mais alguns!) estão bem iluminados e as sirenes e luzes não param de azucrinar minha cabeça.

Esse último parágrafo, geralmente, é dedicado a uma conclusão, um arremate sábio ou coisa assim, naquilo que seria um texto padrão de crônica. Minha sorte é que ainda estou longe de ser cronista, então me livro dessa tarefa pretensiosa e prepotente. Só digo que, pessoalmente, tenho usado a filosofia do "keep calm, work hard and stop the mimimi" - embora esse texto seja quase um "mimimi" - e buscado aproveitar também os sons das sirenes e das luzes de alerta. Elas sempre vão existir mesmo, não estou afim de me descabelar por coisas que, talvez, nem façam tanto sentido pra mim. Vamos dando nosso melhor, se não for suficiente em alguns casos, em outros certamente será.

Vem ni mim, segundo semestre!