"Nada mais fácil de amar que uma menina sem nome que é pura ideia, que é entregue pelo destino, vulnerável e lúbrica, pronta para ser resgatada, fugir e reaparecer. Mas essa mulher o odiava. Às vezes ela o acusava de tê-la salvado à força. Por que tu me tirou da água? Não era pra me tirar. Com mais frequência ela o acusava de tê-la abandonado. Como tu foi capaz de me abandonar? Como pôde me deixar ir embora? Mas eu te salei, ele argumentava. Ela balançava a cabela dizendo não. Por que tu não perguntou meu nome? Por que não segurou a minha mão? Por que não corrou atrás? Por que me deixou ir? Tu não me quis. E isso para ele soava terrivelmente injusto. Como ele podia ter sabido? Fez o que precisava ser feito. Fez tudo que podia ter feito. Como era injusto que ela olhasse para trás depois de tanto tempo e o acusasse de ter agido de outra forma naquele instante. Será que ela não lembrava de ter saído correndo sem dizer palavra? [...] Nunca lhe ocorreu contá-la a ninguém, escrevê-la, desenhá-la. Por que essa história? Porque uma história? De onde tinha surgido e onde tinha ficado guardada todo esse tempo?"
Barba ensopada de sangue,
Daniel Galera.