17 de novembro de 2012

Histórias de orvalho e juventude


Foi quando ela disse:

- Eu não quero sair daqui nunca mais, Beto.

Aí minha cabeça girou, por algum motivo qualquer desses que fazem as cabeças das pessoas girarem, agradeci a mim mesmo por estar deitado e respondi algo que achei que seria incrivelmente profundo, mas, quando terminei de dizer a última sílaba, vi que era uma das frases mais estúpidas que já havia dito em todos aqueles vinte e poucos anos:

- Pois eu quero estar em qualquer lugar que não seja aqui, Alina.

Ela se levantou, apoiando-se no braço esquerdo e me encarou. Por entre os cachos castanhos foi difícil decifrar aquela expressão: meio raiva mortal e meio entendendo exatamente o que eu queria dizer.

- Hahaha! Você não sabe de nada, né cara? Não pode sair falando isso na cara dos outros não!

Era o Leo, rindo de mim pra variar, deitado do outro lado dela. Pelo que consigo recordar, estávamos os três em algum lugar gramado, deitados um do lado do outro, por alguma razão que eu não me lembro mais. Talvez meio bêbados ou só incrivelmente esgotados.

- Estou de saco cheio desse lugar, cara...

- Mas acabamos de chegar, a galera é super gente boa... E eu tenho assuntos inacabados andando por aí ainda... Do que você tá falando?  - O Leonardo, ao contrário do que pode parecer por essa conversa em particular, era o que costumamos chamar de ser inteligente.

- Não estou falando desse lugar, Leo... Estou falando desse lugar, entende? Do meu lugar, do lugar que me deram, do lugar que eu procurei... sei lá, cala a boca e deita aí... – respondi, mais áspero do que gostaria até, na verdade. Ele já tinha me salvado de umas poucas e boas.

Naquela noite, haviam restado ainda algumas nuvens da fina chuva do final de tarde no céu e a lua brilhava com uma intensidade que iluminava o sítio inteiro. Ficamos os três calados por um tempo, num silêncio amenizado pelo zumbido da festa na casinha há uns 50 metros dali: eu profundamente absorto nas minhas dúvidas, Leo meio ressentido e Alina cuidadosamente escolhendo as palavras, conforme ela mesma me contou depois.

Vale registrar aqui uma informação relativamente importante: Alina fazia aulas de canto lírico desde os oito anos de idade. Dito isso, fica evidente que não há nenhum tipo de julgamento subjetivo na minha afirmação de que, quando ela falava, era como se cantasse continuamente, conseguia mesmo nos envolver... Tipo um cobertor de lã felpudo numa daquelas noites frias como o ártico que tínhamos por lá:

- Tive um sonho outro dia. Um sonho estranho em que eu corria, corria, corria...

- Todo mundo tem esses sonhos, Alina. Não há nada de estranho nisso. – Embora fosse inteligente, Leo tinha essa irritante mania de menosprezar a sagacidade dos outros que era um saco.

- Eu sei. Mas esse era diferente. Quanto mais eu corria, menos cansada eu ficava e não queria parar nunca mais. Tipo Forest Gump, só que era eu... Ia acelerando cada vez mais. Quando acordei, estava ensopada de suor, mas totalmente renovada, louca para sair correndo por aí até chegar ao penhasco do fim do mundo...

- Que loucura.

- Loucura.. – nós três respondemos.

- Também tive um sonho outro dia, como todas as pessoas normais têm, não é mesmo Leo?

- Não precisa ser irônico, Beto. Já entendi a indireta, vou ficar calado.

- Hahaha! Enfim, nesse sonho eu estava parado no parapeito de um terraço, num doente ambiente urbano qualquer.  Mas com um pôr-do-sol de cinema na minha frente... E lá estava eu, quieto, curtindo uma nostalgia...

- Sozinho?

- É, Lina. Sozinho. Mas não era ruim não. Era bom. Quer dizer, agora que você falou, está soando meio deprimente... Mas o fato é que eu estava lá, todo nostálgico. Sentindo as tais borboletas no estômago...

- Na verdade, “borboletas no estômago” é metáfora para estar apaixonado. No caso de ansioso, nostálgico e coisas do gênero, o certo é “nó na garganta”... não vá misturar as expressões!

- Porra, Leo! O sonho é meu! Você acha mesmo que eu ia ficar pensando nessas convenções “pseudo-literárias” de merda? Eu estava lá, sentindo as tais borboletas no estômago e pronto. Mas aí, foi virando enjoo, depois dor mesmo, pra valer. Minha barriga começou a mexer esquisito, como se alguma coisa lá dentro estivesse se movendo...

- Credo! – Alina suspirou.

- Que bizarrice é essa, Beto?  - disse Leo.

- Pois é! Aí entrei no edifício e desci as escadas voando. Não, Leo, não literalmente... Eu só estava tão rápido quanto podia... Poxa, tinha alguma coisa dentro da minha barriga, né? Finalmente achei uma porta aberta que dava, pasmem, pra cozinha do meu apê. Aquela mesmo, com detalhes em madeira escura e com o pinguim do Gonçalo em cima da geladeira...

- E sua barriga?! – Falou assustada, Alina. Até hoje me pergunto se ela estava mesmo tão espantada assim ou se a mão na boca era pra segurar a risada daquela história maluca... Enfim.

- Uai, aquilo continuava rodobiando caoticamente dentro de mim. Eu vasculhei as gavetas atrás de uma faca pra arrancar tudo...

- UMA FACA?! Vai me dizer agora que você cortou sua própria barriga? Não há a menor possibilidade de isso acontecer. Com certeza morreria de tanto sangue que ia jorrar. E a dor...

- Leo, é uma conversa sobre sonhos, não é? Eu não posso controlar os meus... Putz, você está incrivelmente insuportável hoje... De qualquer modo, eu peguei a faca, virei a lâmina contra mim mesmo e afundei-a na minha carne... Puxa, como eu senti o fio rasgando minha pele, meus músculos... tudinho, em câmera lenta... Lancinantemente... Nessa hora eu achava mesmo que era verdade, por mais absurdo que fosse.  Lembro de mim mesmo pensando algo do tipo: “Que droga! Eu acabei de me esfaquear! Isso não faz o menor sentido?!”. Revirei um tempo no chão, depois recobrei o controle, na medida do possível, deitei no sofá e fui fazer meu próprio parto. Ou coisa que o valha.

- Hahahaha. Parto? Gay.

- Pfff, garotos... 

- Hahahaha! Né? Mas foi bem isso, cara. Abri ainda mais aquela fissura na minha barriga em busca daquilo, sujando as mãos de sangue e...

- Poderia pular essa parte, por favor? Afinal, o que tinha dentro?

- Desculpe, Lina. Então... era A Nostalgia.

- O QUE?! – Disseram os dois.

- Não a nostalgia, A Nostalgia. Não me pergunte como eu sabia que era ela, só sabia. Uma coisa disforme, peluda, escura, embora meio fofa. Claro, na medida em que uma coisa toda suja de sangue que sai de dentro de alguém pode ser fofa, obviamente. Na verdade, até lembrava um pouco o Edgar, mas sem cabeça, calda ou patas. Só algo meio oblongo, peludo e fofo.

- Faça-me o favor de deixar meu gato de fora dessa, Alberto! – Quando Alina me chamava de Alberto era sinal de que a coisa não estava nada bem.

- Desculpe, mas é verdade. Então eu, sei lá porquê – talvez porque detestasse a ideia de que A Nostalgia tivesse me feito sentir tão mal -, mas catei a faca e abri aquele troço. E virei-o do avesso.  O lado contrário era esverdeado, tipo capim queimado de sol e estava mesmo meio morno. Aí coloquei dentro de mim de novo. Afinal, estava sentindo todo aquele vazio – é essa a metáfora correta para crises existenciais, Senhor Leo? - que só aquilo preencheria. Tinha gosto de asfalto. A Nostalgia ao contrário tinha gosto de asfalto, ou seja, A Utopia tinha...

Era uma noite quente e a grama molhada roçava em nossas nucas de um jeito não necessariamente ruim. Alina encostou a cabeça no meu ombro direito e as nuvens continuavam a se mover lentamente centenas de quilômetros sobre nós.

- Eu não sei como acabo com amigos tão malucos como vocês, sinceramente... – Puxou conversa Leo de novo, depois de um tempo, daquele jeito debochado dele. Ninguém respondeu, não era preciso. Estávamos nos fazendo a mesma pergunta, achando que provavelmente nós três deveríamos ter sido presos num hospício qualquer há muito tempo.

- Se é pra contar sonhos bizarros, também vou contar o meu. – Recomeçou ele – Mas acho que não tenho tanta poesia quanto você, Beto. Sei lá, não lembro dos detalhes assim... Pra mim, são apenas flashes marcantes que eu costuro com algum enredo meia boca pra fazer sentido.  Seja como for, no sonho, eu estava de frente pra uma multidão. Centenas de pessoas em um auditório me ouvindo falar. Todo mundo muito atencioso, muito quieto. E eu sentindo a minha voz sair rouca, rasgando a garganta, sabe? E me subia um bafo podre pelas narinas. Meu bafo. Eu nem conseguia me mexer direito de um lugar para o outro e minhas roupas cheiravam a naftalina. Tipo do seu pai, Beto.

- Vai se ferrar, Leo!

- Hahaha! Enfim, eu me sentia como um velho professor universitário, sabe? Dando uma aula muito importante em um auditório qualquer. Respirava fundo, tinha lapsos de memória durante o discurso e coisas do gênero... Mas quando cheguei perto da janela no meio daquele monólogo interminável do qual não me lembro uma palavra... Quando me vi no reflexo, eu não era velho. Eu era eu, assim, igualzinho tô aqui agora falando com vocês. Quer dizer, tecnicamente, eu não estava com essas roupas e, como esse sonho já tem algumas semanas, talvez nem tivesse essa cicatriz no braço direito... Mas vocês entenderam...

- Tipo Benjamin Button? – E foi a vez da Alina falar sua única merda da noite.

- Não, Lina... Button nasceu velho e foi rejuvenescendo... Parece que, nesse caso, ele tava novo e velho ao mesmo tempo. E aí, Leo? O que rolou?

- E aí que, do nada, fui ficando mais cansado... Minha voz foi enfraquecendo... Meus lábios pesando... Até que não ouvia mais som algum enquanto falava e nem sentia o cheiro podre do meu hálito... Embora ninguém na plateia parecesse notar, eu sabia que não estava falando mais. Então, levei a mão à boca e não havia mais boca para tocar, cara... E ninguém nas cadeiras tinha ouvidos mais... Sério, foi aterrorizante.... Eu gritava e ninguém ouvia, mas também não podia tentar gritar muito senão me sentia incrivelmente farto, entediado e exausto.  Foi quando um bando de brutamontes vestidos de vermelho entraram no auditório. Cada um com uma hipócrita expressão facial horripilantemente diferente do outro: atônitos, estupefatos, irradiantes, complacentes, atenciosos, esnobes, tristes, tranquilos... Aí…

- Hey, guys? Are you high or something? Last time I saw you was about two hours ago! – Era Jenny, uma intercambista americana que Leo andava paquerando e também estava na festa.

- It’s depends, Jenny. Leo is about 70”. Is that high enough for you?

- Very clever, Beto. Come on, Leo… I miss you…

Assim a gente terminou aquela conversa. Com as costas e as calças molhadas de orvalho, Leo se levantou para ir em direção à casa e eu já o ia seguindo, quando me perguntou, de um jeito sério que não combinava com ele:

- Beto, você sempre sonha quando dorme?

De repente, lembro que na hora bateu aquela mania besta – e quase prepotente - que eu tinha de sempre tentar dar uma resposta profunda pra tudo. Só que daquela vez, acho que deu meio certo:

- Sei lá, cara... E você, sempre dorme quando sonha?

Ele me olhou com uma risada de deboche na cara e foi se encontrar com Jenny. Alina não tinha se levantado, me puxou de volta e disse que queria conversar um pouco mais. Tivemos uma ótima “conversa” que, definitivamente, não teve nada a ver com sonhos. Aliás, tem muito tempo ninguém da turma conversa sobre isso.

15 de novembro de 2012

Sobrevivendo




- Nós estamos completamente perdidos.

- Para com isso, não é pra tanto. Mais cedo ou mais tarde vamos acabar encontrando alguma coisa.

- Não, você não está entendendo. Estamos sem rumo, sem propósitos e já sem memórias. As coisas na nossa cabeça começam a ficar turvas assim como as árvores que passam pela gente e adormecem na névoa escura atrás de nós. Tem sido cada vez mais difícil lembrar como eram os dias no colégio, como era vagar por um sebo a procura ou não de um livro, como era o perfume e o toque sutil daquelas garotas que amamos. E o qual é o nosso plano? Simplesmente seguir andando, a esmo, esperando sabe se lá o que?

- E qual a alternativa? Me diga: qual a porcaria da alternativa que você me oferece? Que a gente simplesmente se sente nessa merda de chão lamacento, comemos toda a comida que resta, fiquemos olhando um para o outro com cara de paisagem até as forças acabarem e nós simplesmente não acordarmos mais? É isso?

- Não sei... Só sei que a gente não faz a menor ideia do que está fazendo. Nem eu e nem você fomos escoteiros ou coisa do gênero para aprender a nos orientar pra valer. Quem garante que não estamos dando voltas disformes desde quando acordamos? Essas árvores são todas iguais, nenhum rio, nenhuma casa, nenhum animal sequer. Estou ficando cansado. Cansado e entediado, cara.

- Vou te dizer que ficar parado em um só lugar não é lá a coisa mais divertida do mundo. Não pelo que me lembre. Eu sei que está difícil nos guiar, principalmente agora que as baterias das lanternas acabaram. Eu sei, mas eu não vou conseguir seguir se você continuar me puxando pra baixo assim...

- Eu só estou dizendo que, de um jeito ou de outro, isso tudo vai ter um fim mesmo. Então, qual a diferença entre acabar aqui, com a gente descansado, sentado, talvez até contando algumas histórias que ainda conseguirmos nos lembrar... qual a diferença disso para com um deslize daqui uns 3 ou 30 quilômetros e uma queda agonizante em um desfiladeiro? Pelo menos provaríamos o prazeroso sabor simples, ingênuo e até inconsequente da alegria uma vez mais. Ou alguma coisa parecida com isso.

- Ou então, famintos, aguardaríamos sorrateiros até o outro adormecer para atacar, como animais, lutaríamos e então, ao vencedor, a derrota mais trágica. Quem sabe o que poderia acontecer? Não, temos que seguir. Você acredita mesmo que não há mais ninguém como nós?

- Já teríamos, pelo menos, escutado algo ou alguém. Sua voz é o único som que entra pelos meus ouvidos há muitas semanas... Pra ser sincero, às vezes, nem sei mais se é a sua ou a minha. Nem sei se falo ou penso. Nem sei se somos dois ou se sou só eu delirando sozinho.

- ...

- O que? Não vai dizer nada?

- ...

- Você ainda está aí, cara? Por f..

- Cala a boca! Acredito que ouvi ...

- Mesmo?

 - Shiii!

- ...

- .