15 de novembro de 2012

Sobrevivendo




- Nós estamos completamente perdidos.

- Para com isso, não é pra tanto. Mais cedo ou mais tarde vamos acabar encontrando alguma coisa.

- Não, você não está entendendo. Estamos sem rumo, sem propósitos e já sem memórias. As coisas na nossa cabeça começam a ficar turvas assim como as árvores que passam pela gente e adormecem na névoa escura atrás de nós. Tem sido cada vez mais difícil lembrar como eram os dias no colégio, como era vagar por um sebo a procura ou não de um livro, como era o perfume e o toque sutil daquelas garotas que amamos. E o qual é o nosso plano? Simplesmente seguir andando, a esmo, esperando sabe se lá o que?

- E qual a alternativa? Me diga: qual a porcaria da alternativa que você me oferece? Que a gente simplesmente se sente nessa merda de chão lamacento, comemos toda a comida que resta, fiquemos olhando um para o outro com cara de paisagem até as forças acabarem e nós simplesmente não acordarmos mais? É isso?

- Não sei... Só sei que a gente não faz a menor ideia do que está fazendo. Nem eu e nem você fomos escoteiros ou coisa do gênero para aprender a nos orientar pra valer. Quem garante que não estamos dando voltas disformes desde quando acordamos? Essas árvores são todas iguais, nenhum rio, nenhuma casa, nenhum animal sequer. Estou ficando cansado. Cansado e entediado, cara.

- Vou te dizer que ficar parado em um só lugar não é lá a coisa mais divertida do mundo. Não pelo que me lembre. Eu sei que está difícil nos guiar, principalmente agora que as baterias das lanternas acabaram. Eu sei, mas eu não vou conseguir seguir se você continuar me puxando pra baixo assim...

- Eu só estou dizendo que, de um jeito ou de outro, isso tudo vai ter um fim mesmo. Então, qual a diferença entre acabar aqui, com a gente descansado, sentado, talvez até contando algumas histórias que ainda conseguirmos nos lembrar... qual a diferença disso para com um deslize daqui uns 3 ou 30 quilômetros e uma queda agonizante em um desfiladeiro? Pelo menos provaríamos o prazeroso sabor simples, ingênuo e até inconsequente da alegria uma vez mais. Ou alguma coisa parecida com isso.

- Ou então, famintos, aguardaríamos sorrateiros até o outro adormecer para atacar, como animais, lutaríamos e então, ao vencedor, a derrota mais trágica. Quem sabe o que poderia acontecer? Não, temos que seguir. Você acredita mesmo que não há mais ninguém como nós?

- Já teríamos, pelo menos, escutado algo ou alguém. Sua voz é o único som que entra pelos meus ouvidos há muitas semanas... Pra ser sincero, às vezes, nem sei mais se é a sua ou a minha. Nem sei se falo ou penso. Nem sei se somos dois ou se sou só eu delirando sozinho.

- ...

- O que? Não vai dizer nada?

- ...

- Você ainda está aí, cara? Por f..

- Cala a boca! Acredito que ouvi ...

- Mesmo?

 - Shiii!

- ...

- .

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