No tempo em que eu ainda fazia cursinho, um colega me contou o grande terror da existência: é impossível tocar. Por uma série de motivos químicos e magnéticos que não tenho a mínima capacidade de comprovar, aparentemente os núcleos dos átomos se repelem. Não importa quão obstinadamente você tente, lá, na mais microscópica dimensão imaginável, o positivo não consegue encostar no positivo. Eles trocam umas reações elétricas e você tem a falsa impressão do toque. Agora, pense nisso, só por um segundo...
Os carinhos da sua mãe, os perdigotos do professor de educação física, a caneta que escreve, a maçã que cai, o abraço que diminui a falta, o tapa que impõe limites, a mordida que rompe tabus, as fezes frescas achatadas com a sola do sapato na manhã de segunda, o gole de cerveja gelada que escorrega pela garganta na noite de sexta... Tudo isso aconteceu e, inexoravelmente, o maldito núcleo positivo de cada uma das incontáveis partículas evitou que elas se encontrassem.
De fato, você não sabe o gosto da fruta, nem o toque dos cabelos de quem ama. Ilude-se passeando com os dedos pelas folhas das árvores no parque e também não passou de mentira aquele esfolado que levou no joelho aos oito anos de idade. Do arranhão de amor à lágrima de ódio, puro nevoeiro. As cicatrizes são marcas da covardia de suas migalhas que arredaram o pé bem na hora que mais precisou.
A utopia está muito mais próxima do que os novos sistemas políticos ou os amores românticos. A utopia é pegar um copo de água nas mãos e bebê-lo.
Mas, se o mundo físico é esse paradoxo, minhas ideias os químicos não podem roubar. Meu modo de interpretar o que vejo é só meu, é só nosso, e ninguém vai nos dizer que ele está fugindo de si mesmo assim. O que sobrou em nós do que vivemos e experimentamos, mesmo que emerja desse postiço teatro atômico que encanta a humanidade inteira, é verdadeiro. Verdadeiro e nenhum outro adjetivo é necessário.
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Olhando meio de lado sobre a superfície desse texto pouco racional, vejo duas minúsculas conclusões boiando:
- Finalmente entendi essa minha sensação de descolamento. Estou mesmo andando e flutuando ao mesmo tempo.
- Se toda regra tem sua exceção, aquele nosso beijo que [ainda] não foi seria a ressalva primeira. Nesse caso, nem que outro big bang ao contrário fosse necessário, mais do que se tocar, todas as nossas partículas se cumprimentariam calorosamente, dizendo entre si: "Que saudades imensas eu estava de ti".
