5 de setembro de 2010

A curva




Música e velocidade são coisas que realmente combinam. Estar em plena rodovia federal, fazendo curvas a 80 km por hora, ao som de uma música qualquer com guitarra e bateria que prestem, isso sim é felicidade.

Pelo menos pra mim.

Na curva ali atrás acabei de deixar uma garota, ela parecia feliz e triste na despedida. Quando eu vi aqueles olhinhos cor de mel, não parecia ser a última vez. A gente rodou um tempo junto, de Barbacena até Feira de Santana. Foi legal parar numas praias à noite, cozinhar pra ela, e ensiná-la a pilotar minha Honda. Tudo impecavelmente bucólico, inconseqüente, intenso. Acho que até Sofia parece ter feito mais quilômetros por litro.

Nos esbarramos há umas duas semanas lá na cidade dela. Eu sentei na praça para tomar uma bebida gelada, ela veio, meio enxerida e charmosa. Enxerida e charmosa: Isso existe? Deve existir, já que ela é assim. Vendo-a, parecia uma daquelas crianças hiperativas, puxando assunto, entregando-nos todos os seus brinquedos prediletos. Sentou do meu lado: “Oi, eu sou Giovana e você não é daqui”. É claro que depois de ouvir aquela voz eu ia querer conhecê-la mais e, sendo ela quem é, óbvio que iria me mostrar a cidade toda.

O primeiro beijo foi depois da delegacia. E até hoje não sei porque não rolou logo atrás da Igreja… E importa? A primeira promessa foi assim que saímos da sorveteria: Apontando no mapa, eu disse “Eu estou indo pro alto, ruma ao norte, você também vai. Até onde quiser, nós vamos juntos”. Pra ser sincero, deve ter havido alguma malícia naquelas palavras da minha parte… não, acho que não. De qualquer modo, no outro dia, pra minha surpresa, ela estava lá: shorts jeans curtos, mochila pequena nas costas e uma camiseta de algodão branca com estampa do Oasis. Quando ela ficou na ponta dos pés pra me acenar do outro lado da rua, deu pra ver que a blusa era meio curta demais e que ela gostava mesmo de peças brancas… “Coloca uma blusa e uma calça”, eu disse.

Não falei nada sobre despedidas e ela também não protestou. Passando pelos locais do dia anterior, deu pra sentir as mãos apertando mais forte minha cintura. Lembranças ainda quentes. Porém, quando caímos na rodovia e a imensidão do nada se abriu diante de nós, eu acelerei e ela cravou as unhas com toda força na minha carne. Certamente medo, mas de quê? Do asfalto ou do futuro?

Nosso caminho foi tortuoso. Dava pra simplesmente pegar a via principal e ir reto, mas que graça teria? Parávamos em toda vila, cidade ou povoado. Em cada lugar, uma história: “A gente é irmão e estamos fugindo de casa”, “Eu sou amante dela e acabo de roubá-la do marido”, “Somos almas gêmeas, desde pequenos. Nos casamos no domingo e estamos em lua de mel”… Todo mundo acreditava, não por serem bobos nem nada. Afinal, eu também acreditava nela e ela em mim… A cada dia, de fato, nós éramos o que dizíamos, nos perdíamos nos nossos sonhos. A vida é assim mesmo, o importante não é ser real, mas crível.

No sexto dia, estávamos longe, lá pelos lados de Montes Claros e eu queria achar uma pedra bem suntuosa pra dizer que nós éramos mineiros e que agora estávamos ricos, mas a garota não se acalmava na garupa. Sofia a 100 por hora e Giovana com as unhas em mim, lentamente acariciando minha nuca, minhas costas, passando para os braços. Eu lembro nitidamente dos dedos deslizarem sobre meu antebraço e de quando pararam sobre minhas mãos.

Eu e ela guiamos, como um, por bastante tempo. Enquanto a pista era reta, tudo bem, mas veio aquela maldita curva. Meu coração palpitou, eu sentia a respiração mais rápida pela abertura do capacete dela. Nós estávamos apavorados, sei lá porque a gente continuou com aquela loucura. Viramos para a direita, não o suficiente. A angulação era muito forte e acabamos passando um pouco para a contra mão, indo de frente a uma carreta branca carregada de gasolina. O barulho daquela buzina era como um quase instantâneo agouro fúnebre. Agudo e impiedosamente torturante.

Dizem que, antes de morrer, a gente vê um filme passando na nossa frente. Como se todo mundo fizesse sua autobiografia segundos antes de passar pro lado de lá. Hoje eu só imagino três possibilidades: Ou eu não sou lá tão normal da cabeça, ou vai ver é porque aqueles não eram, de fato, meus últimos segundos, ou ainda, isso tudo não passa de ilusão para alimentar as mentes humanas, tipo coelho da páscoa e eleições. Eu nem sou tão ingênuo de acreditar que se  ia conseguir mesmo criar uma história tão legal quanto essa, tenho preferido, então, a primeira alternativa.

Enfim, a gente não morreu. Havia cascalho na pista. Deslizamos e rolamos pro acostamento. Todo mundo se esfolou: Eu, Giovana e Sofia. Aquelas feridas doeram pra caramba. No hospital, passaram uns remédios, mas nada justificava ela ter que se apoiar nos frios suportes de ferro da garupa e não em mim. Eu até encontrei a pedra que eu queria na pista, mas a brincadeira tinha perdido a graça. Mandei fazer um chaveiro, está comigo até agora, lá na ignição.

Lembro que a Giovana tinha um papo meio místico de “não era nossa hora, temos que ser gratos e confiar Nele”. Eu achava bonita aquela fé irracional dela. Me comovia.

Ainda faltavam uns 640 quilometros pra Feira de Santana. Mas a gente não estava indo para Feira de Santana. Íamos passar por lá. Só que aquela curva nos transformou de algum jeito. Eu fiquei com medo de machucar ela de novo. Ficou uma marca enorme nas costas dela, sabe. Eu não sei se aquilo vai cicatrizar totalmente algum dia. Nem é tão feia, lembra uma asa, sei lá. Mas sempre que a gente tomava banho e eu pensava que tinha feito aquilo… Dava vontade de dar toda minha grana pra ela e dizer “pela um ônibus, garota. Vai embora pra casa”. Mas ela parecia ler meus pensamentos, virava pra mim, dava aquele sorriso angelical e quase perverso: “Nem pense em se livrar de mim, ouviu?!”.

Só que palavras são do tipo de coisa que eu detesto. Você pode dizer o que quiser, mas agir verdadeiramente é diferente. Não tinha mais a mesma química, a mesma conexão. Demorou um pouco pra tudo ficar bem, tipo uns três dias. Em Porto Seguro, vimos o por do sol no Arraial d’Ajuda. À contra luz, não dava pra enchergar bem as feições dela, mas pude tatear o riso. Mas era uma expressão firme, decidida, responsável… madura demais pra tudo aquilo que era “nós dois”.

Sei que depois daquele dia, a gente ainda fez umas curvas juntos. Pra direita tinha um frio na barriga diferente, mas mísero. Nossa mútua confiança era alta demais. Eu não tinha mais medo do que vinha depois da curva. Quando chegamos à Feira de Santana ela disse só “eu fico por aqui”. Pensei em argumentar, devo mesmo ter dito uma ou duas palavras, mas eu devo ter deixado cair alguma coisa nossa por aí que não sei bem o que é. Não adiantava negar isso. Ela jurou que não teve nada a ver com o acidente. Pelo contrário, que aquilo tinha dado uma outra dimensão ainda melhor às coisas.

Falei que a gente ainda ia se ver, quem sabe. Ela: “quem sabe?!”. Depois de nos despedimos, pensei em seguí-la pra ver o que ia fazer, pensei em ficar ali com ela, pensei muita coisa… Mas eu não podia. Quer dizer, podia, mas não queria. Cada um tem seu objetivo, não ia eu me frustrar, me tornar um “Tomás da padaria” de algum lugar só por causa dela. Na verdade, ela nem deve mais estar lá em Feira, eu acho.

O fato é que não fiquei, liguei a Sofia e tive a impressão de que ela roncou tão forte quanto não roncava há um tempo. Coloquei os fones de ouvidos, já que não precisava mais ouvir as conversas e elogios de Giovana enquanto pilotava. Eu acelerei ouvindo “Quarto das armas” do Pública, uma bandinha que me indicaram lá em BH, aí rodei uma meia hora, bateu a sede e agora estou aqui falando com você.