
Sabe, acabei de ouvir uma história muito estranha. Diz que num lugar muito, muito distante e coisa e tal havia um garoto. Um garoto que havia nascido para ser príncipe, quer dizer, um garoto para o qual haviam dito tinha nascido para ser príncipe. Fechado numa torre, isolado de todos, esse garoto tinha nascido e vivia. Não sei direito como, conseguiram criar o tal do menino longe de todo mundo e de tudo. Na sala que era o quarto dele, entregavam-lhe algumas páginas, uma vez por ano. Justamente nessas páginas que estava escrito aquela baboseira toda de ser príncipe.
Eu não sei como ensinaram o garoto a ler, mas só que ele sabia ler e que lia aquilo obssecada e repetidamente. Ele lia nas folhas que havia de agir assim, pensar assado e se comportar de um jeito diferente. Todo mundo sabe que príncipes não são iguais a qualquer um. E que ele não deveria pensar como um príncipe, embora e justamente já estivesse destinado a ser. Depois de certo tempo, um bom bocado de anos, pararam de chegar as cartas. Mas ele não se surpreendeu, elas sempre diziam que isso ia acontecer. "um belo dai, vossa majestade deixará de receber esses escritos e isso significará que terá chegado a hora crucial". E assim foi.
Ele esperou por duas ou três estações. Queria se certificar de que o momento havia mesmo chegado, afinal não se sentia príncipe ainda. Não o membro real iluminado de quem as cartas falavam. Aquele quem conhecia a tudo e a todos. O qual todos do reino depositariam suas esperanças e o que guiaria seu povo à Glória. Isso porque as cartas não traziam os conhecimentos em si, só diziam "você precisa saber isso" e nunca o que "isso" significava.
O garoto "príncipe", então, girou a maçaneta da porta de seu quarto a qual, segundo lera, permanecia sempre trancada. Não é que a porta abriu?! Me contaram que esse moleque saiu por aí então com aquela ideia fixa para fora do castelo. Mas o castelo não era castelo, era só um pequeno conjugado no centro de uma grande cidade.
Sem entender nada, ele vagou procurando os membros da família real. "Onde está o rei?" peguntou ao primeiro que viu. "Rei? Que rei? Isso aqui é um país livre e agora, o máximo que vai encontrar é um presidente", respondeu o vendedor da padaria da esquina com cara espantada e debochada. Aos risos de todos, esse menino saiu desnorteado pela avenida movimentada.
Ele, segundo diziam aquelas letras cursivas em papel amerelado de sua infância, era filho de grandes intelectuais do reino. O Rei e a Rainha mais sábios de toda a História. Por isso, sabia que tinha uma inteligência e um olhar crítico ímpar. Eu sei lá como, o tal do moleque conseguiu se adaptar mais ou menos bem ao meio. Ele fez uma prova na melhor escola superior do mundo e, isso quem me contou não explicou direito, acertou tudinho.
Todos à volta se admiravam com a capacidade e o potencial do garoto que ficava feliz com aquilo. Tanto se espantavam - qual irônica não é a arte das Letras - o chamavam de Príncipe. Príncipe, que não era mais príncipe coisa nenhuma, seguia então se enganando naquela etérea ilusão de aconchego.
Mas, com todo mundo bem sabe e o poeta escreveu bem "mentir para si mesmo é sempre a maior mentira". Príncipe ou como quiserem chamar esse coitado, percebia a farça toda lá no fundo d'alma. Enquanto todos os outros se encantavam com sua sabedoria, ele tinha certeza que era raso e vão. Sabia que tudo não passava de ter a sorte de ouvir justo as perguntas quais sabia enrolar melhor. E, claro, uma pitada de sorte.
Depois contaram ao pequeno-velho-homem-garoto-príncipe que toda sua família havia morrido em uma sangrenta "Guerra pela Liberdade" que comemoravam uma vez por mês - Viva a Liberdade! - naquele longínquo Estado. E tudo que aquele povo festivo e alegre falava advinha da vitória sobre a família, o sangue e o passado do pobre diabo herói desse conto.
Mas ninguém sabia. E não poderia saber, pensava ele. Ora, ninguém denuncia ao inimigo seu próprio tendão de aquiles! O príncipe seguiu anos e décadas sem entender e prosseguindo sua caminhada sem seus antigos pergaminhos anuais. No "castelo" ele sabia exatamente como agir, o que fazer. Embora nunca agisse e fizesse, ele sabia. Agora agia e fazia sem saber se estava certo e sentindo, solitária e recorrentemente, que estava errado.
Havia algo nele que o denunciava. Algo que o inimigo percebia inquieto: "esse não é dos nossos. não sei o que ele é, mas não é como nós". O moleque sabia, sentia nos olhares dos outros e nele mesmo.
Na vida social e fora dela, ele seguia os caminhos que lhe eram impostos por opção, mas com consciência de que aquele não era o seu lugar, o seu universo. "Ora, melhor isso que nada", ele pensava. Todos mortos, todos velhos, seu mundo havia sucimbido e esquecido do último, aquele que conservaria a espécie. Porém, espécie de um só não é espécie, é um só.
Nas noites frias e nos dias ensolarados, ele lia e relia os velhos pergaminhos (que pareciam muito mais velhos do que de fato eram, ele observara). Lendo se perdia nas bucólicas descrições: "e vossa majestade terá um mundo ao seu redor. Nosso justo reino que sempre prezou pela igualdade o acolherá como é. Haverá o Sir Diácono Primeiro, que será seu irmão confidente e inseparável. Toda a tropa do exército o ouvirá falar e seguirá seus dizeres sobre o Mundo Melhor. Sua família o aguarda ansiosamente para que juntos gozem de inúmeros banquetes e festas ao som da Companhia Imperial de Entretenimento. E haverá uma donzela, uma que como vós está sendo criada isolada de tudo e de todos para que só tenha olhos para vossa majestade na maioridade. Ela lhe reconhecerá pelo trejeito, pela distinção e pela nobreza..."
Horas e horas a fio o idoso-velho-novo-príncipe-rei-cidadão perdia-se nas letras dos pergaminhos em vão. Se havia uma certeza, era de que toda a dinastia das cartas havia ruído... chegava e questionar-se: "será mesmo que existiu? Não terá sido um pobre gari ou humilde diarista quem me encontrara ainda bebê e havia ousado iludir-me assim? Não passará isso tudo de uma doce e inconsequente ilusão de um homem lunático? Não serei eu só mais um, que se engana sem saber? Nunca os vi e nem eles a mim..."
Só sei eu que, no fim, ele achou a tal da moça numa esquina, esbarrando, derrubando os livros dela e trocando olhares românticos. Ela, sem o menor esforço, reconheceu nele, com um brilho ímpar, as três virtudes das quais ouvira dizer em seus papiros de meninice: o trejeito, a distinção, a nobreza. Os dois assim, depois de alguns meses de cortejo à moda antiga, se casaram, foram felizes para sempre e tudo o mais.
Mas é claro, isso, graças só ao aspecto puramente ficcional dessas linhas que você acabou de ler.