3 de novembro de 2008

Abstinência criativa




Esse blog nunca foi espaço para confições do tipo "querido diário", mas dizem que há primeira vez para tudo.

Enfim, estou sem criatividade nem tempo pra escrever no blog... não sei até que ponto isso tem relação com o curso, com as pessoas lendo o que eu escrevo, com minha irresponsabilidade oculta até esse período e afins.

O que tenho a dizer é que o blog não morreu.... ele está descansando, digamos, um dia ele volta. Quando todo mundo (inclua-se  eu) menos esperar escreverei alguma coisa.


Ponto final, digo, vírgula


P.S.: Enquanto isso eu curto meu LastFM: http://www.lastfm.com.br/user/enniohrs



16 de agosto de 2008

Olho por olho

Por Ennio H. R. Silva"


- Assassino! Traidor! Vândalo... Eram essas as palavras que ele ouvia diariamente nos últimos meses. Como se não bastasse a agonia e humilhação que os próprios significados carregam, o som era uma tortura a mais. Ele ouvia quase que sussurros, as sílabas fluíam agudas e pausadas dos lábios do interlocutor. Sem cessar, aquele rosto pálido, sem corpo, praticamente imerso na escuridão daquele gélido lugar, repetia sadicamente as acusações lancinantes:
- Assassino! Traidor! Vândalo...
Não havia muito tempo, aquela casa não era assim. A luz costumava entrar por todos os lados. De dentro, ele podia ouvir as vozes das pessoas do lado de fora, os sons agradáveis do cotidiano. Os entes queridos, como sua esposa e sua filha, eram sempre presentes: seus sorrisos, vozes, olhares, cheiros... Tudo habitava o local, as boas lembranças pairavam freneticamente desordenadas por toda parte naqueles dias.
Muitas pessoas abdicariam de muito para ter o que o proprietário dessa casa, Arthur, tinha ou parecia ter: uma vida normal. Como qualquer homem normal, ao caminhar apressado pelo centro, ele não era notado; de manhã tomava café com leite e torradas e à noite leite puro; Arthur odiava esperar na fila do banco e também costumava, se estivesse sentado no ônibus, segurar a bolsa de quem estivesse de pé.
Arthur, aliás, realmente costumava pegar o ônibus. Eram suas férias e ele havia desenvolvido essa estranha mania de tomar o coletivo sem um destino certo. Como diz o filósofo, há coisas que o Homem faz e nem mesmo ele é capaz de compreender. Mas talvez, Arthur pensasse que, se distanciando fisicamente de sua casa, ele poderia escapar também daquela outra casa, a sombria casa das memórias, sua mente.
Tão insistente quanto ele em aplicar essa técnica, era o fracasso que dela decorria. Bastava cerrar os olhos que ele voltava ao quarto mórbido e seu acompanhante lá estava... a voz vinha de longe... Aproximando-se... Intimidando-o:
- Assassino! Traidor! Vândalo...
Antes de tudo começar Arthur era coronel, tinha uma carreira militar ascendente pautada na lealdade incondicional, na honra e na coragem. É provável que justamente essa última virtude que o tenha incentivado a reagir contra tudo isso quando percebeu que havia o que não era como deveria ser: torturas, seqüestros, negligência, chacina, truculência.
Havia outros que também odiavam o que ele odiava. Quando se conheceram, as ações do grupo não passavam de discussões de boteco. Mas as coisas evoluíram... Comícios inflamados... Panfletos subversivos... Até que chegaram a verdadeira lei de Talião.
No calor do momento tudo fazia muito sentido e era muito justo. O que devia ser feito foi e tudo mudara. Porém, naquele momento as lembranças eram como uma névoa densa e negra que ocupavam sua mente; sua consciência não era mais que um inquisidor; seus ombros pareciam muito pesados; sua família não estava mais por perto e ele ainda podia ver o vermelho pecaminoso do sangue escorrendo de seus dedos.
Foi quando o ônibus parou, trazendo-o de volta à realidade, e ele desceu. Estava na rodoviária e a lembrança do que iria fazer o iluminou subitamente. Passando por uma banca de jornais, ele leu raridades em todas as primeiras páginas: boas notícias.
Embora tivesse se lembrado, não acreditou até ouvir a voz doce de sua filha gritando por ele e de vê-la atravessar, correndo, o saguã-la atravessar correndo o sagu gritando por ridades em todas as primeiras pedos.uestros,rte.o ao seu encontro. Aquilo foi como um feixe de luz forte demais para que a neblina negra o pudesse barrar. O beijo de reencontro em sua mulher, então, foi para a inquisição mental de Arthur pior que as pragas do Egito Antigo para Ramsés.
Elas voltavam do exílio e ele voltava do delírio.

De olhos abertos, Arthur agora pôde realmente notar a realidade a sua volta. Todos podiam dizer o que fosse preciso, os crianças podiam brincar nas ruas, os pais podiam ir trabalhar, todos podiam dormir em paz. Enfim, nada havia sido em vão.

"Há pessoas que devem pagar pelo que fizeram e há líderes que merecem memoriais por seus sacrifícios"

6 de agosto de 2008

Bastidores de um romance

Por Ennio H. R. Silva"


Era primavera e toda esta loucura parecia coerente e infalível. Eu tinha uma namorada e, depois que lhe contei que minha família se mudaria, ficamos pensando em fugir.
Aquela idéia não saía de nossas cabeças. Nós estávamos juntos há quatro meses – uma eternidade para a juventude – e nos separar não era uma opção.
Com custo, economizamos duzentos e cinqüenta reais – uma fortuna – e da escola fomos para a rodoviária. O primeiro ônibus que partiria tinha como destino Belo Horizonte, em Minas Gerais. Embarcamos sem hesitar.
Chegando à capital mineira, o plano era ingenuamente simples, arrumar emprego e alugar um apartamento – hoje desconfio de que ler muitos romances, como fazíamos eu e minha garota, não é tão bom para a mente quanto se pensa.
Desembarcamos e procuramos, insistentemente, um emprego. A busca foi desde vice-presidente executivo – adolescentes bucólicos – até entregador de pizza. O fracasso foi avassalador, mas – e essa é a única lembrança feliz de tudo isso – dormimos juntos sob a beleza do céu do “Parque Municipal”.
Porém, quando se está faminto, aproveita-se menos ainda do “romantismo” da vida. Comendo doações, com o dinheiro e algumas caronas viajamos por Barbacena, Niterói, Rio de Janeiro, Guarulhos. Sempre a mesma história, sempre a fome aumentando e o romance acabando.
Depois, em São Paulo, uma boa alma nos empregou, mas a saudade de casa era muita. À noite, eu e ela conversamos, eu citei minha mãe: “Não há lugar melhor que o lar”; ela nos lembrou da internet, das cartas. Então, aceitamos a separação e voltamos.
É bom lembrar de tudo, a tristeza da fome e a felicidade do reencontro. Agora isso não passa de uma piada – engraçadíssima – agora, pois já passou.
Afinal, os romances estão nos livros e nos sonhos, aqui, não há nada além do sarcasmo indiferente da vida real.

3 de agosto de 2008

Show Business

Por Ennio H. R. Silva"



“Meu trabalho? Meu trabalho é ser político!”. Esse é meu último dia em Luz, muitas coisas boas aconteceram e outras nem tanto. Dentre as ruins, essa certeza que carrego de que, para muita gente, ao invés das eleições, nesse segundo semestre, teremos é um processo seletivo de algum concurso público qualquer.

A lanchonete da minha família, O Chalé, me dá a grande possibilidade de conversar com muitas pessoas. Uma das conclusões trágicas a que cheguei foi esta: Na minha cidade, como em vários lugares, ser vereador ou prefeito é uma profissão cujos pré-requisitos são apenas a maioridade e a popularidade. Alguns pensam, ao comparar com os outros cargos públicos, que os disputados nas eleições são melhores porque não há prova e se paga bem melhor.

Eis o problema principal: o salário. Quem me conhece, realmente, sabe o que eu penso e não gastarei essas linhas para re-re-re-expor minhas “utópicas, radicais e retrógradas” idéias. Vamos, desta vez, jogar pelas regras do jogo.

“O papel do vereador é elaborar e apreciar leis de sua competência ou do Poder Executivo [...] fiscalizar e acompanhar a execução das leis em geral e [...] Sempre se posicionar a favor da população e dos interesses coletivos.”. Isso não fui eu quem escreveu, apenas citei o próprio site da Câmara Municipal de Luz (http://www.camaramunicipaldeluz.mg.gov.br/pagina.php?id=44). Mas não me espantaria se quatro ou cinco de nossos ilustres candidatos sofresse um infarto ao ler a citação e falecesse sussurrando, “O quê?! Trabalhar?”.
Mudando um pouco de assunto, mas nem tanto. Minha memória ainda está viva sobre as matérias que estudei para o vestibular e o gosto pessoal pela História ajuda um pouco nesse caso. Segundo o historiador Luis Koshiba, em “História do Brasil”, o coronelismo ocorria durante a República Velha no Brasil e o termo coronel “era utilizado para designar os fazendeiros ou comerciantes mais ricos da cidade”.

Com muito pesar, tenho que admitir que minha cidade, em plenos dias atuais, ainda é um exemplo de “curral eleitoral”. Quem tem dinheiro tem poder e influência. Pessoas e “peixes” que se elegem consecutivamente há décadas e nunca fazem propostas de real ajuda. Ex-prefeito que quer ser vereador e vice-versa. Não importa o cargo “o importante, meu rapaz, é estar na lembrança do povo. Sabe, eleitor tem memória fraca” e político, vergonha pouca!

Pensando na definição de vereador, chegamos à renegada verdade: não se É político, se ESTÁ político. O representante deveria candidatar-se, dar sua contribuição e ceder lugar a outro que também possa ajudar. Os cargos públicos não deveriam ser almejados pelo status e remuneração que causam, e sim pelo grande potencial de transformação e grande responsabilidade que retêm. Não deveriam, repito.

Todo esse circo só causa três reações ao público: imobiliza os alienados, faz rir os dominantes e revolta os outros. Bem, não sou fã de humor negro. Cada vez mais percebo que não tarda a algum candidato, na sua afobação típica por falar bem, parafrasear coerentemente a conhecida frase dos executivos: “Não é nada pessoal, é apenas política”.

1 de agosto de 2008

Saber de lá e saber de cá

Por Ennio H. R. Silva"



Eu gosto do interior. Viver as fazendas de plantações imensas, explorar terras virgens a procura de alguma grande descoberta, beber água do rio sem medo, ver os animais, subir nas árvores. Tudo isso é realmente bom, nos traz uma paz que a selva de pedra nunca trará. Mas, o melhor que há, e os genuínos homens do sertão hão de concordar comigo, é a prosa frouxa que sucede o anoitecer.

Vez ou outra acontece, depois de um dia duro nos cafezais ou, como o compadre João, um dia guiando e ordenhando o gado, cada um pega sua viola e a roda se forma em volta do calor da madeira em brasa. As mulheres preparam o “cumê” e um ou outro guri foge da cama e inventa de espiar o que está acontecendo.

Todos nos juntamos para cantar a música e a poesia, nos juntamos, tal como os índios sorrateiros em seus esconderijos na relva, para homenagear, lembrando histórias, os que vivem sob a terra onde estamos.

Digo-lhe, e sou sincero, que prezo muito os números e palavras dos doutores da cidade, mas não baixo a cabeça não! Porque sei que nenhum saber é o melhor, nem é o de lá nem o de cá.

E caso alguém duvide, como amiúde ocorre com os viajantes que passam por essas bandas, tenho sempre na ponta da língua um causo que vale, modéstia à parte, mais que muito livro que circula por aí.

Como o do Compadre Bragança e Seu Silveira. Esses dois hoje já quase caducam, afinal foram os primeiros a chegar por aqui. Há mais de cinqüenta anos, o governo arranjou um modo deles mudaram-se pra cá, deu um pedaço bom de terra para os dois. O pior (ou melhor) é que foi um em pareado com o outro.

Compadre Bragança conta que até hoje nunca viu um macho mais rabugento que o tal do Silveira. Como eram bem pobres, Seu Silveira vivia reclamando, não fazia quase nada além disso:

- Ora! De que adianta tanta terra se não há dinheiro para plantar? Não tem estrada que preste, posto de saúde, escola... Nada!

Diz meu compadre que também não estava achando aquilo lá uma maravilha, mas que prezava muito aquele pedaço de chão pra ficar reclamando e que prometera pra si mesmo que, com o suor do seu trabalho, iria virar a mesa.

No começo ele não virou, mesmo porque nem mesa tinha. Mas trabalhava dia-a-dia com afinco e zelo. E o Seu Silveira também. Afinal, dizem que nem água costumava cair do céu na época, que dirá comida. Por amor e por obrigação, era assim que trabalhavam.

Certa vez, o Compadre ficou sabendo que o Silveira tinha vendido suas terras por um preço alto e iria se mudar pra cidade. Diz ele que até tentou fazer a cabeça do maluco, mas não deu jeito não, o Silveira se foi e o Bragança ficou.

Os anos foram passando e aos poucos as coisas foram melhorando. Nada foi fácil, toda semana Compadre Bragança separava dois dias do trabalho pra ir à cidade, um para cobrar serviço dos políticos em suas reuniões e o outro pra tratar da cooperativa de fazendeiros que ele mesmo ajudou fundar e que, aliás, existe até hoje e que nunca entrou um peão corrupto. “Roubou da cooperativa, roubou de todos” diz o compadre. Pra compensar trabalhava aos sábados e domingos também.

Sempre apareciam umas propostas de compra da fazenda ou algo do tipo. Dizem que ele recebeu uma que os zeros que vinham no cheque davam pra mais de uma linha de caderno, mas isso já é história. Outros forasteiros, esses do exterior, queriam estudar e mandar as plantas daqui lá pra Europa e ainda pagavam aluguel. O compadre nunca nem pensou na idéia. A propriedade era da familia Bragança por isso, como ele ainda defende, só ele e os parentes podiam viver lá.

Assim, pegando no pé de quem deve e trabalhando bastante, as coisas mudaram. Veio a energia, escola, hospital e a natureza continua aí, firme e forte.

Quanto ao Seu Silveira, pobre coitado! Qual não foi a surpresa do Compadre Bragança em ver, trinta anos depois de sua partida, o conhecido magro e doente pedindo abrigo à sua porta. Na cidade só se importam com o saber de lá, com diploma e tudo mais.
Seu Silveira podia até ter dinheiro, que logo acabou, mas não tinha esse tal saber.

Desde então o Bragança vive feliz sendo um dos maiores fazendeiros da região e Seu Silveira é seu empregado, seu mais rabugento empregado.


"O patriotismo é a expressão máxima da solidariedade. Valorizar o coletivo em detrimento dos interesses individuais"

31 de maio de 2008

Um primeiro de maio

Por Ennio H. R. Silva



Aquela manhã estava cinzenta e triste. Eu olhava ansiosamente, do esconderijo seguro que estava, a esquina por onde os manifestantes surgiriam. Era dia primeiro de maio e eu sabia que haveria protestos naquela praça. Mesmo simpatizando-me com as causas de igualdade e justiça defendidas, não podia me dar ao luxo de ser visto pela polícia e sucumbir em sua repressão truculenta. Se eu fosse pego, todo o movimento poderia ruir.
A massa surgiu da rua perpendicular para a principal. Nos rostos deles percebi um misto de alegria, ao ver o caminho livre pela frente, de raiva, pela necessidade das reivindicações e de força que emana naturalmente da união.
Meu presságio fora quase uma previsão: a polícia se impôs mordazmente. Jatos de água marcaram o início da ação policial e já desestruturaram o bloco de civis. Em seguida, bombas de gás e balas de borracha abalaram-lhes mais ainda. No fim, o som forte dos bastões contra os escudos da tropa superava os brados dos "subversivos".
No outro dia, vi a nota no jornal: "quatro mortos e dez feridos em manifestação de 1º de maio". E percebi o quanto, em relação à cena vivida, as palavras são pálidas e frias.

26 de maio de 2008

O suspiro de um velho índio

Por Ennio H. R. Silva"


É no mínimo curioso como as coisas insistem em me ocorrer nos momentos mais inusitados. Não minto ao dizer que, naquele dia, estava tranqüilo sentado na praça. Definitivamente, estava no auge do “não-fazer”, não lia, não pensava e nem mesmo olhava ou ouvia algo em especial. Na verdade, vagabundeava plenamente, vislumbrava transatlânticos no asfalto da avenida, estava ali parado para ver a vida passar.

Pois ela não passou, me olhou por um instante e sentou-se junto a mim naquele banco velho e descascado! Sim, porque aquele senhor era a própria vida e seus milhões de anos em carne e osso. Ofegante e de olhos profundos como quem infinitamente fitou um horizonte fabuloso que nunca chegou. Era um índio já idoso, de pele muito enrugada, ressecada e tão vermelha quanto o grão do guaraná. Ele parecia carregar o mundo nas costas e, a julgar pelo formato esguio de sua coluna, a mundo é muito pesado.
 
Oinên, esse era o nome dele, dizia ter sido grande Pajé de uma tribo no interior do Brasil. Há muitas luas, quando o Brasil não era Brasil, era nada, melhor, era tudo, era terra de tudo, terra do deus tudo, Tupã, era terra de todos e terra de ninguém. Oinên fora, além de Pajé, pescador e guerreiro, mas exigia ser chamado de Filho de Tupã.
 
Quando ouvi essas palavras, me deti e fitei aquele homem do meu lado, não crendo no que acontecia naquele instante. Olhei seu tipo franzino, de cocar, tanga, pinturas de guerra pelo corpo raquítico, uma expressão grave, aquilo não tinha nexo. Mas , quando nos entreolhamos, ele parecia ver até o mais obscuro ponto da minha alma. Ele voltou a falar e percebi que suas palavras faziam sentido, sentimento, emoção, reflexão, perceber, analisar, sentir, enfim, faziam sentido até demais:
 
- Estou cansado, meu jovem! Infinitamente cansado! Caminhei muito e isso cansa. Desde o Alasca à terra do fogo, dá África do Sul à Sibéria passando por Lisboa. Mr. Fogg quis 80 dias para dar a volta no planeta, pois eu também o rodeei e não me envergonho em dizer que essas pernas e braços demoraram três décadas para tal. Ouvi muito e isso cansa. Desde o choro triste de fome dos milhões de Africanos, Europeus, Asiáticos, Americanos e dos povos da Oceania, até ao clamor suplicante das mães que perdem filhos, dos filhos que perdem mães, dos humanos, enfim, que se perdem. Do imperativo assalto do menor delinqüente que quer um almoço aos brados estrondosos de políticos em diferentes palanques pelo mundo e com o interesse e sede de poder iguais. Falei muito e isso cansa. Senti muito e isso cansa. 

Cansado estou do Homem que nunca aprende a FAZER tão esplendidamente quanto DIZ. Cansei de buscar o inalcançável. Cansei de crer na mudança que não vem. Cansei de falar aos ouvidos dos ventos. Cansei de ser o Caxias. Cansei de ser o extrovertido. Cansei de buscar o reforço que nunca chega. Cansei dos amigos que não ouvem, querem ser ouvidos e não têm nada a dizer. Cansei dos gatos entre os ratos. Cansei, sobretudo, do nosso egoísmo idiota e cego. Cansei... Cansei...
 
- Mas se você, tão sábio e vivido, desistir, os mais novos sequer tentarão – Eu disse – O que resta então, a morte?
- Caraíba, eu sei da minha responsabilidade, nunca desistirei. Nunca, pois essa é minha essência, minha origem, eu sou a luta incessante, a batalha diária, o Filho de Tupã que vê o clarão distante da fogueira na mata fechada. A morte? Eia a morte! Que venha ela e seus guerreiros galopantes porque meus antepassados me ensinaram que “a morte é, para um covarde, o fim. Porém para os corajosos ela é apenas um merecido descanso”. E eu te digo – sussurrou Oinên levantando-se para partir – não sou covarde, sou corajoso. Um corajoso índio cansado.

17 de maio de 2008

O ponto de interrogação é uma lanterna


Acredito que filosofar é, e nada mais, ter sede de conhecimento, ser apaixonado pelo novo, não ter medo dos riscos. Enfim, se lançar, pelo impulso da curiosidade, na nebulosa escuridão do desconhecido. Utilizar o desejo pelo saber para iluminar o incógnito. Filosofar é ter oito anos de idade....


"Oito anos
Intérprete: Adriana Calcanhoto
Por: Dunga / Paula Toller

Por que você é Flamengo
E meu pai Botafogo?
O que significa
"Impávido colosso"?

Por que os ossos doem
enquanto a gente dorme?
Por que os dentes caem?
Por onde os filhos saem?

Por que os dedos murcham
quando estou no banho?
Por que as ruas enchem
quando está chovendo?

Quanto é mil trilhões
vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?

Well, well, well
Gabriel...

Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a terra roda?
Por que deitar agora?

Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?

Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?

Do que é feita a nuvem?
Do que é feita a neve?
Como é que se escreve
Reveillon?"


E eu queria ter oito anos de idade...

13 de maio de 2008

Memórias de um ex-hacker

Por Ennio H. R. Silva”



Ainda me lembro da minha primeira invasão: quinze de março de dois mil e cinco. Uma terça-feira ensolarada e tranqüila, acima de suspeitas, o melhor dia para agir.
Da porção mais isolada do meu quarto tudo levou alguns segundos. Duas mordidas no sanduíche, um gole de refrigerante e o dinheiro estava na nova conta: eu era um Hacker.
A adrenalina de driblar o sistema, ser melhor que a máquina me motivava e me viciava. Dia após dia, permanecia em frente ao computador, transferindo dinheiro, eliminando arquivos e enviando vírus. Era tudo um grande jogo.
Meus contratantes nunca quiseram contato direto comigo, pouco me importava. Eu tinha apenas dezoito anos e morava com meus pais, ou seja, fazia aquilo menos pelo dinheiro que pelo desafio.
Porém, um dia o sol estava por trás das nuvens. Quando acordei, eu senti que algo ruim aconteceria. À tarde, tive a confirmação do presságio, a polícia invadiu minha casa, fui preso, julgado e condenado.
Em todo caso, hoje o que tortura meu sono não são os dias que restantes da pena ou o desgosto da minha família. O que assombra minha mente todo o tempo são os rostos do tribunal, melhor, o desprezo, a repulsa e o nojo daqueles olhos sobre mim.
Enfim, a percepção de que o que fiz não era um desafio ou um jogo. Era crime: crime eletrônico.

O perdão materno

Por Ennio H. R. Silva”



Era uma noite excepcionalmente fria, a tristeza parece ter essa propriedade. Meu marido não suportou e subiu para o quarto, na sala restamos eu e meu filho, Roger. Eu olhava nos olhos dele e ele me parecia o bebê que já fora um dia, chorando sincera e pesarosamente.
Tudo havia começado há três semanas. Quando entrei no quarto e o computador dele estava ligado. Vasculhando as páginas abertas não acreditei: sistemas bancários invadidos, arquivos de vírus pela pasta, números de CPF’s desconhecidos e vários cartões de crédito. Fiquei atônita por uns segundos, depois copiei as informações, deixei tudo como antes e saí.
Não contei nada ao meu marido, eu mesma não acreditava. Investiguei por três semanas para desmentir minhas suspeitas. Eu o havia criado com tanto zelo, atenção, conforto. Roger não tinha motivos para roubar, bastava pedir.
Dias de tensão, sem dormir. A cada transação criminosa confirmada meu coração se dividia em pedaços menores. Hoje de manhã, pouco depois do “suspeito” ir para a escola, confirmei que o último cartão de crédito também era clonado.
Chorei o dia todo e não fui trabalhar. Quando anoiteceu, esperei até que os dois chegassem e chamei-os, meu garoto e meu marido, à mesa e mostrei as provas.
Nesse momento, pude ver o choque nos olhos deles, o maior se enfurecendo e o menor se desesperando.
Agora, meu filho está me pedindo perdão, jurando que não fará nada mais, temendo a polícia. Claro que irei perdoá-lo, o que ele pensa? Minha mãe já dizia: “o amor verdadeiro é o amor materno.”.
Mas, tragicamente, ela também profetizou: “A confiança é um primoroso cálice de cristal. Contudo, é delicadíssimo, quando se trinca, quebra-se com muito mais facilidade e sua sublime beleza jamais se recupera”.

29 de abril de 2008

Rômulo e Juliana: Um clássico contemporâneo

Por Ennio H. R. Silva”



Aquela noite parecia mais vazia que o habitual, logo os bares também pareciam mais acolhedores.

Sentei no balcão, há um metro de uma mesa ocupada por um casal, e pedi um whisk.

Não direi nada sobre eles, pois, dizendo eu que a moça era bela, branca e pura enquanto o acompanhante era mal vestido, inquieto, esguio e frígido, certamente me taxariam como sensacionalista e preconceituoso, ao julgá-los pelo estereótipo, então, não direi nada.

O fato que é que conversavam, melhor, discutiam. Entretanto, não gritavam e pouco gesticulavam, era uma discussão íntima e primordial.

Não, não podeis me acusar de bisbilhotar a vida alheia leitor, em verdade, não era eu que os ouvia, e sim o diálogo deles que, inevitavelmente, chegava aos meus tímpanos.

O trecho que ouvi, livre de acréscimos ou decréscimos, foi assim:

- Rômulo, o que importa é nosso amor! – Suspirou, visivelmente aflita, a moça.
- Sim, Juliana, mas é impossível, sua família... – Falou o outro, menos emocionado que maquiavélico.
- Não entendo, sou maior de idade, e você, até onde sei, nunca se importou com a sua. – Ela disse.
- Não me importo mesmo, mas não trabalho e seu cartão de crédito foi bloqueado....não valeria a pena.
- Não diga isso, meu amor, tudo valeria! Por nós, tudo valeria a pena! – Defendeu Juliana com palavras e lágrimas.
- Tudo? – Perguntou Rômulo, delicadamente, como que posicionando uma peça de xadrez em um tabuleiro metafísico.
- Sim! Por quê? Você vê alguma saída? – E, subitamente, ela se alegrou.
- A menos que... Bom, sua família tem grana... Poderíamos forjar um seqüestro... Eles pagariam muito por você, meu anjo... Não faríamos isso pelo dinheiro, óbvio, faríamos por amor... Assim poderíamos viajar... Juntos... E eu poderia investir na minha banda – Xeque-mate.
- Claro Rômulo... Viajaríamos... Sem destino, sem mapas, guiados pelo amor – Rômulo bocejou longamente nesse momento, todavia, isso é apenas um detalhe.

Eles se levantaram, por um momento nos entreolhamos: Rômulo e eu. No olhar dele estava a indiferença e a astúcia; quando passaram por mim, percebi, no perfume de Juliana, um cheiro crônico de ingenuidade.

28 de abril de 2008

Perseverança e humildade


"Concordo plenamente com os grandes sábios que dizem: 'Toda grande caminhada começa pelo primeiro passo'. Mas, sempre me pergunto: O que seria desse sem os vários outros que sucedem-no"

Ennio H. R. Silva

27 de abril de 2008

Correspondência (in)esperada

Por Ennio H. R. Silva”



Brasília, 22 de setembro de 2183;
Excelentíssimos doutores do IBDG;

Como vocês sabem, sou Tiago Ribeiro Costa ou FH-04/77, o único sobrevivente dos quatro voluntários para o projeto “Fiax Homo” (extra-oficialmente denominado: “Homem Perfeito”).
Sei que vocês, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Genético, têm me procurado insistentemente e ainda devem estar surpresos com os rumos diversos que cada um de nós, os voluntários, escolhemos. Não sei dizer o porquê, mas senti que mereciam uma satisfação.

Quando fugimos do Laboratório Experimental de Manaus (LEM), no dia vinte e dois de setembro de dois mil e setenta e sete, nos refugiamos em uma tribo indígena e, dada a nossa sede pelo conhecimento (um dos resultados dos experimentos do projeto), debatemos a cerca dos objetivos da vida do Homem. Ao fim de quarenta e oito horas de discussões ininterruptas, provamos definitivamente que o real motivo da existência humana é a ajuda mútua.

A FH-02/77, ou Jéssica como ela mesma havia escolhido, decidiu que ajudar a humanidade seria privá-la da interação com seres como nós. Segundo Jéssica, nosso elevado nível intelectual seria motivo de conflitos e guerras, estimulando a barbárie e o caos. Então, entristeceu-se profundamente e, três meses depois, descobri seu suicídio.

Áurea Albuquerque (FH-03/77) discordou, inferindo que a única forma de decisivamente ajudar a humanidade, tal como temos capacidade, seria nos entregar à vida pública. Assim, aplicaríamos todo nosso potencial para ajudar os homens a conviver e prosperar. Como devem ter percebido, ela foi a primeira presidente do sexo feminino do Brasil, porém foi assassinada trinta e três dias após sua posse, justamente por FH-01/77.

Ele, que se autodenominava Rogério Santos, tornou-se matador de aluguel. Para Rogério, nossa missão era “acelerar o processo de seleção natural” (e receber por isso). Ele foi morto há uma semana, numa emboscada da Polícia Federal.

Bem, a satisfação está dada e minha consciência tranqüila.

Quanto a mim? Estou em algum lugar do Brasil, minha pátria amada, que, obviamente, não é no endereço do remetente. Tenho uma mulher, dois filhos e um táxi.

Quanto a minha opinião sobre eu e a humanidade? Tenho absoluta certeza de que a melhor forma de ajudar os homens é distanciá-los de monstros fleumáticos como vocês e, por isso, todos os funcionários do IBDG receberam essa carta cujo interior estava preenchido com gás venenoso e a tinta é mortalmente tóxica.


Cordialmente,
Tiago Ribeiro Costa

Felicidade crepuscular...

Por Ennio H.R. Silva “



Para mim, a hora mais esperada de qualquer dia é quando o sol se põe, pois no lugar desse astro belíssimo vejo outros dois, igualmente dourados, ardentes e vitais.

Sim, com o ocaso do dia se vão os computadores, os escritórios, os clientes e as gravatas. Seus olhos chamam minha atenção, essas duas flechas que me ultrapassam, metafisicamente, o peito e lêem minha mente e prevêem meus atos.

Seus olhos, pupilos dos ourives, hipnotizariam a qualquer mortal, mas preferiram-me, o mais sortudo dentre os homens que já existiram e ainda hão de existir. Não há um dia sequer que eu não agradeço por estar contigo, pois seus olhos são tão belos, de vida irradiante, que até mesmo os cegos, viventes da perpétua noite sem lua, fazem deles faróis de orientação.

Não há dúvidas! Você é a legítima mineira, de Minas, do interior do Brasil, pois esses olhos teus não são obra humana, são o artesanato predileto de Gaia. E como se tudo isso não bastasse, a cooperação perfeccionista das abelhas-mestras desse mundo deu-lhes um toque especial: a doçura, a serenidade, a pureza, o mel.

Todos os dias, depois que o sol se recolhe, estamos aqui, a sós, eu, você, seus olhos e a felicidade... Não me falta nada.

26 de abril de 2008

O Começo do fim da minha vida



Bom, nasce aqui o blog Palavras e Idéias. Esse é o inicio de uma nova fase na minha vida e na minha carreira profissional. Portanto, achei propício iniciar minhas incursões digitais. Contudo, é importante deixar claro que esse veículo nada pretende de ambicioso, seu fim está em simplesmente existir como possibilidade de evasão para minhas idéias textuais exporáticas. Estou apenas começando na vida de amante das palavras (ou jornalista, escritor, o que for), assim muitas idéias serão banais, imbecis e os erros de gramática permearão minhas postagens. Mas enfim, como eu disse esse sitio digital não é, inicialmente, para ninguém é para descartar um pouco do peso que carrego na alma e na mente. Mas, se quiser ler, internauta, leia, se quiser comentar comente, se quiser elogiar, sugerir, criticar, faça-o. Só Deus sabe o que essa experiência pode gerar.

"Esse é só o começo do fim da nossa vida...." Los Hermanos.