27 de abril de 2008

Correspondência (in)esperada

Por Ennio H. R. Silva”



Brasília, 22 de setembro de 2183;
Excelentíssimos doutores do IBDG;

Como vocês sabem, sou Tiago Ribeiro Costa ou FH-04/77, o único sobrevivente dos quatro voluntários para o projeto “Fiax Homo” (extra-oficialmente denominado: “Homem Perfeito”).
Sei que vocês, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Genético, têm me procurado insistentemente e ainda devem estar surpresos com os rumos diversos que cada um de nós, os voluntários, escolhemos. Não sei dizer o porquê, mas senti que mereciam uma satisfação.

Quando fugimos do Laboratório Experimental de Manaus (LEM), no dia vinte e dois de setembro de dois mil e setenta e sete, nos refugiamos em uma tribo indígena e, dada a nossa sede pelo conhecimento (um dos resultados dos experimentos do projeto), debatemos a cerca dos objetivos da vida do Homem. Ao fim de quarenta e oito horas de discussões ininterruptas, provamos definitivamente que o real motivo da existência humana é a ajuda mútua.

A FH-02/77, ou Jéssica como ela mesma havia escolhido, decidiu que ajudar a humanidade seria privá-la da interação com seres como nós. Segundo Jéssica, nosso elevado nível intelectual seria motivo de conflitos e guerras, estimulando a barbárie e o caos. Então, entristeceu-se profundamente e, três meses depois, descobri seu suicídio.

Áurea Albuquerque (FH-03/77) discordou, inferindo que a única forma de decisivamente ajudar a humanidade, tal como temos capacidade, seria nos entregar à vida pública. Assim, aplicaríamos todo nosso potencial para ajudar os homens a conviver e prosperar. Como devem ter percebido, ela foi a primeira presidente do sexo feminino do Brasil, porém foi assassinada trinta e três dias após sua posse, justamente por FH-01/77.

Ele, que se autodenominava Rogério Santos, tornou-se matador de aluguel. Para Rogério, nossa missão era “acelerar o processo de seleção natural” (e receber por isso). Ele foi morto há uma semana, numa emboscada da Polícia Federal.

Bem, a satisfação está dada e minha consciência tranqüila.

Quanto a mim? Estou em algum lugar do Brasil, minha pátria amada, que, obviamente, não é no endereço do remetente. Tenho uma mulher, dois filhos e um táxi.

Quanto a minha opinião sobre eu e a humanidade? Tenho absoluta certeza de que a melhor forma de ajudar os homens é distanciá-los de monstros fleumáticos como vocês e, por isso, todos os funcionários do IBDG receberam essa carta cujo interior estava preenchido com gás venenoso e a tinta é mortalmente tóxica.


Cordialmente,
Tiago Ribeiro Costa

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