Fazia muito tempo que eu não entrava aqui. Essa casa que
conheço tão bem, onde cresci, passei os dias da minha infância e adolescência,
está abandonada há anos. A culpa não é só minha, ninguém mais visita a casa.
Todos os parentes, amigos, sonhos e alegrias que habitavam esses pequenos
cômodos se foram. Paulatinamente nos esquecemos de nós.
Talvez nos apegamos demais à aconchegante idéia de que casas
não se mexem, de que ela seria a mesma eternamente. Só aquele velho casebre branco
de janelas desbotadas, sem forro, de telhas, imóvel, parado bem no meio da conhecida rua do morro que leva à Igreja.
Faltou sensibilidade para perceber que, diferentemente, nós mudaríamos,
seguiríamos vivendo e nos afastando cada vez mais dele.
Eu mesmo não sei porque decidi vir agora. Montei na
bicicleta, dei algumas voltas e, quando percebi, já estava quase em frente ao
portão. Mas era necessário retornar, passar por aquela cerca esfacelada, abrir a
porta e me deparar com a poeira do passado. Minhas alérgicas narinas, era de se
esperar, reparam mais na poeira do que no passado, mas o resto de mim...
As coisas estavam todas lá, cobertas por uma espessa camada
de pó e uma fantasmagórica roupa de cama branca. O que veio antes: os fantasmas de dia
das bruxas americano feitos de lençol ou o hábito de esconder memórias e
espíritos sob velhos panos brancos? Ao mesmo tempo que aquele lugar me era
extremamente familiar, já sentia-me intensamente alheio a ele. De coisas bobas
como a posição da antiga cadeira de balanço, já putrefata, até uma maldita parede
vermelha entre a copa e a sala. Eu não me lembrava dessa parede tão incômoda, inapropriada, hostil, petulante... quase vulgar.
E me irritava profundamente me sentir alheio na
casa da minha infância, mas como não haveria de ser? Eu, eu-agora,
jamais havia dormido naqueles quartos, jantado naquela cozinha ou ralado meus
joelhos naquele quintal de chão batido. Eu não, só um quase esquecido
fantasminha de lençol que viveu há alguns anos atrás.
Tirei o casaco e comecei a limpar tudo. Retirei todos
os lençóis, fiz uma grande fogueira e os queimei um a um. Não havia mais razão
para esconder os móveis. Que fossem usados, destruídos ou doados, pouco
importa, mas escondidos não mais. Quando terminei e vi toda a bagunça, parecia
impossível organizar aquilo. Impossível e sem sentido, eu não voltaria a morar ali,
estava só de passagem. Porém era o que eu queria fazer e quase fiz.
Mas ainda não consegui, a parede vermelha me impede.
Estou com uma marreta na mão, parado em frente a ela. Encarando-a. Quase sentindo aquela cor profunda, à prova da passagem do tempo, me encarar de volta. Sem mais ninguém aqui, sem
razão aparente – a não ser o fato de que sempre se tem que começar por algum lugar –
para derrubá-la, ciente do risco de que todo o teto pode ruir, ciente da
possibilidade de que a sala fique muito mais arejada.
Contudo, essa cena é tragicamente incontornável. Eu, a marreta, o vermelho, o cheiro de pano queimando, o crepitar das chamas no quintal, as paredes brancas em volta e um certeiro feixe de sol que passa por uma falha no telhado e repousa sobre meu ombro esquerdo.
Contudo, essa cena é tragicamente incontornável. Eu, a marreta, o vermelho, o cheiro de pano queimando, o crepitar das chamas no quintal, as paredes brancas em volta e um certeiro feixe de sol que passa por uma falha no telhado e repousa sobre meu ombro esquerdo.
Ainda não me decidi se este é um calor de afago ou de incentivo.
