16 de agosto de 2012

Minha utopia particular




Fazia muito tempo que eu não entrava aqui. Essa casa que conheço tão bem, onde cresci, passei os dias da minha infância e adolescência, está abandonada há anos. A culpa não é só minha, ninguém mais visita a casa. Todos os parentes, amigos, sonhos e alegrias que habitavam esses pequenos cômodos se foram. Paulatinamente nos esquecemos de nós.

Talvez nos apegamos demais à aconchegante idéia de que casas não se mexem, de que ela seria a mesma eternamente. Só aquele velho casebre branco de janelas desbotadas, sem forro, de telhas, imóvel, parado bem no meio da conhecida rua do morro que leva à Igreja. Faltou sensibilidade para perceber que, diferentemente, nós mudaríamos, seguiríamos vivendo e nos afastando cada vez mais dele.

Eu mesmo não sei porque decidi vir agora. Montei na bicicleta, dei algumas voltas e, quando percebi, já estava quase em frente ao portão. Mas era necessário retornar, passar por aquela cerca esfacelada, abrir a porta e me deparar com a poeira do passado. Minhas alérgicas narinas, era de se esperar, reparam mais na poeira do que no passado, mas o resto de mim...

As coisas estavam todas lá, cobertas por uma espessa camada de pó e uma fantasmagórica roupa de cama branca. O que veio antes: os fantasmas de dia das bruxas americano feitos de lençol ou o hábito de esconder memórias e espíritos sob velhos panos brancos? Ao mesmo tempo que aquele lugar me era extremamente familiar, já sentia-me intensamente alheio a ele. De coisas bobas como a posição da antiga cadeira de balanço, já putrefata, até uma maldita parede vermelha entre a copa e a sala. Eu não me lembrava dessa parede tão incômoda, inapropriada, hostil, petulante... quase vulgar. 

E me irritava profundamente me sentir alheio na casa da minha infância, mas como não haveria de ser? Eu, eu-agora, jamais havia dormido naqueles quartos, jantado naquela cozinha ou ralado meus joelhos naquele quintal de chão batido. Eu não, só um quase esquecido fantasminha de lençol que viveu há alguns anos atrás.

Tirei o casaco e comecei a limpar tudo. Retirei todos os lençóis, fiz uma grande fogueira e os queimei um a um. Não havia mais razão para esconder os móveis. Que fossem usados, destruídos ou doados, pouco importa, mas escondidos não mais. Quando terminei e vi toda a bagunça, parecia impossível organizar aquilo. Impossível e sem sentido, eu não voltaria a morar ali, estava só de passagem. Porém era o que eu queria fazer e quase fiz.

Mas ainda não consegui, a parede vermelha me impede. Estou com uma marreta na mão, parado em frente a ela. Encarando-a. Quase sentindo aquela cor profunda, à prova da passagem do tempo, me encarar de volta. Sem mais ninguém aqui, sem razão aparente – a não ser o fato de que sempre se tem que começar por algum lugar – para derrubá-la, ciente do risco de que todo o teto pode ruir, ciente da possibilidade de que a sala fique muito mais arejada.

Contudo, essa cena é tragicamente incontornável. Eu, a marreta, o vermelho, o cheiro de pano queimando, o crepitar das chamas no quintal, as paredes brancas em volta e um certeiro feixe de sol que passa por uma falha no telhado e repousa sobre meu ombro esquerdo. 

Ainda não me decidi se este é um calor de afago ou de incentivo.