
Tenho uma confissão a fazer: invejei.
- "Até" você?
Sim. Sucumbi cegamente às malícias do demônio dos olhos verdes. De toda minha alma e essência, cobicei-a: a primeira namorada de Manuel Bandeira. E odiei imensamente o poeta por ter o que sempre desejei. Desde o primeiro momento em que li aquele poema
Porquinho-da-índia, imaginava-a, Senhorita Porquinho-da-Índia, e o quão feliz ela seria comigo e não foi com ele. Eu construiria para ela um quarto todo cheio de tubos, do chão ao teto, onde minha pequena pudesse ver segura seu universo inteirinho. E, em cada gaiola, haveriam três fogões - sem gás - para ela se esconder. Como o pai que chega a inventar (!) um escorpião sem veneno para realizar os anseios do filho, eu faria dela mais feliz do que qualquer um poderia, seria eu melhor, até mesmo, que o Grande Bandeira.
E não venha me dizer que poderia ser qualquer um, que eu poderia agora mesmo ir a um lugar e encontrar um porquinho qualquer que fosse. Não! Eu queria aquele, tão cheio de inocência e melancolia, tão amado e frágil, todo metáforas e lirismo, o singelo e imortal porquinho-da-índia daquele poema. E, se eu o tivesse... se eu o tivesse, minha existência seria plena!
Quando minha mãe, conforme de fato fazia, gritasse ao eu ainda pequeno, "Ei, menino, não vá se esquecer de arrumar o quarto!" ou qualquer outro simplório-impossível problema de meninice, eu responderia. Responderia não, proclamaria, com um formalismo deslocado, irônico e brincalhão que cai tão bem às crianças de seis anos:
- Oh, pois sim, compreendo e bem que gostaria, mas agora infelizmente não posso, tenho que alimentar a Senhorita Porquinho-da-índia...
E pronto. Iria ao quarto dela com os pequeninos pedaços de ração na palma da mão e lhe daria parte a parte. Uma por uma. E depois de alimentá-la com todo carinho, puxaria o banquinho e ficaria ali sentado admirando o mundo dela. Vendo ela correr por todos aqueles corredores de tubos coloridos. Subindo pelo amarelo, descendo pelo azul, correndo no vermelho... Ficaria ali perplexo olhando a felicidade fácil daquele bichinho. Deslumbrado em ver a existência comum de quem come, dorme e brinca de correr por tubos multicores. Ela se esqueceria de seus fogões perigosos se fosse minha, Bandeira...
E aí, quando eu estivesse no maior dos meus êxtases, no auge dos meus devaneios, quase me perguntando "será que ela percebe que são sempre os mesmos tubos ou acha que o seu universinho é infinito?"... Nesse instante é que minha mãe chegaria na "frestinha" da porta. Ela me olharia com ternura e se esqueceria do quarto bagunçado, do vaso quebrado, do dever por fazer e tudo o mais. Só ia me abraçar e dizer: "filho, já está anoitecendo, vem jantar com a gente, vem..."
E assim seriam todos os meus dias ao lado da Senhorita Porquinho-da-Índia. Como eu invejo você, Poeta Menor! Se minha musa fosse minha, imortal como é, ainda estaria aqui, junto a mim, alimentando esse sentimento sem tamanho e sem forma. Então, quando alguém no mundo lá fora gritasse:
- Ei, homen, não vá se esqueçer do trabalho! Nem dos estudos, nem do relatório, nem dos Clássicos, nem do Saber, nem das Guerras, nem da Humanidade, nem da Filosofia, nem da Justiça, nem da Fome, nem do Trabalho de Conclusão de Curso, nem das festas, nem dos amigos, nem dos outros, nem do amor, nem da dor, nem da Perfeição, nem do Povo, nem do Foco, nem de ser alguém nessa vidinha sua aí!
Então - e como me dói o coração pensar nessas injustiças da vida, Manuca! - eu poderia proclamar de novo:
- Oh, pois sim, compreendo e bem que gostaria, mas agora infelizmente não posso, tenho que alimentar a Senhorita Porquinho-da-índia...