
Aquela noite parecia mais vazia que o habitual, logo os bares também pareciam mais acolhedores.
Sentei no balcão, há um metro de uma mesa ocupada por um casal, e pedi um whisk.
Não direi nada sobre eles, pois, dizendo eu que a moça era bela, branca e pura enquanto o acompanhante era mal vestido, inquieto, esguio e frígido, certamente me taxariam como sensacionalista e preconceituoso, ao julgá-los pelo estereótipo, então, não direi nada.
O fato que é que conversavam, melhor, discutiam. Entretanto, não gritavam e pouco gesticulavam, era uma discussão íntima e primordial.
Não, não podeis me acusar de bisbilhotar a vida alheia leitor, em verdade, não era eu que os ouvia, e sim o diálogo deles que, inevitavelmente, chegava aos meus tímpanos.
O trecho que ouvi, livre de acréscimos ou decréscimos, foi assim:
- Rômulo, o que importa é nosso amor! – Suspirou, visivelmente aflita, a moça.
- Sim, Juliana, mas é impossível, sua família... – Falou o outro, menos emocionado que maquiavélico.
- Não entendo, sou maior de idade, e você, até onde sei, nunca se importou com a sua. – Ela disse.
- Não me importo mesmo, mas não trabalho e seu cartão de crédito foi bloqueado....não valeria a pena.
- Não diga isso, meu amor, tudo valeria! Por nós, tudo valeria a pena! – Defendeu Juliana com palavras e lágrimas.
- Tudo? – Perguntou Rômulo, delicadamente, como que posicionando uma peça de xadrez em um tabuleiro metafísico.
- Sim! Por quê? Você vê alguma saída? – E, subitamente, ela se alegrou.
- A menos que... Bom, sua família tem grana... Poderíamos forjar um seqüestro... Eles pagariam muito por você, meu anjo... Não faríamos isso pelo dinheiro, óbvio, faríamos por amor... Assim poderíamos viajar... Juntos... E eu poderia investir na minha banda – Xeque-mate.
- Claro Rômulo... Viajaríamos... Sem destino, sem mapas, guiados pelo amor – Rômulo bocejou longamente nesse momento, todavia, isso é apenas um detalhe.
Eles se levantaram, por um momento nos entreolhamos: Rômulo e eu. No olhar dele estava a indiferença e a astúcia; quando passaram por mim, percebi, no perfume de Juliana, um cheiro crônico de ingenuidade.



