26 de janeiro de 2012

Não me olhe nos olhos

De joelhos ao chão, com uma vergonha e uma resignação tão intensa que era impossível olhar-me nos olhos, cabeça baixa, imóvel e muda. Entre nós, o único meio de comunicação era uma placa que dizia qualquer coisa parecida com isso:

“Sou uma mãe. E, para uma mãe, só existe uma vergonha maior do que pedir dinheiro na rua: deixar seus filhos passarem fome. Desculpe não agradecer caso me ajude, já é difícil demais conversar com meus próprios familiares depois dessa decisão. Agora, coloco-me aqui, parada, à espera de qualquer auxílio de Deus e dos homens de bem”.

Eu não acredito em esmolas. De jeito nenhum aceito dar dinheiro aos outros – a menos que estejam de fato produzindo algo: trabalhos artísticos, livros, comida e etc – porque, sinceramente, confio que dar suporte a essas pessoas é um papel do Estado, não meu. Mas, quando vi aquela mulher prostrada diante de mim daquela forma degradante em Santiago de Compostela, na Espanha, considerei ajudar. Fiquei atônito por uns instantes observando. Pouco importava os que passavam, doadores ou não, caçoadores ou não, cachorros ou humanos: ela não se movia. Olhos fixos no chão, queixo apoiado na singela placa de madeirite sobre os joelhos.

Era como se ela houvesse abdicado de sua condição de mulher, de cidadã ou o que seja porque a vergonha pelo que fazia era muito maior que aquilo. Caminhei algumas quadras e aquilo foi me consumindo, o estômago embrulhando com o quanto o mundo havia dado errado para aquela pobre espanhola. Já nem estava conseguindo aproveitar a grandiosidade dos detalhes da arquitetura secular daquela cidade, destino de tantas peregrinações.

- Cara, não consigo, tenho que voltar lá e ajudar aquela mulher. Que merda. – Eu disse pra um dos meus colegas. E ele decidiu voltar comigo.

Voltamos falando como era dramática aquela situação, como deveria ser único aquele sofrimento, como... Quando chegamos ao lugar e eu já ia tirar alguns trocados para dar à ela, meu amigo disse:

- Mas era essa ou aquela ali na frente? Ou será que não foi aquela de azul do outro lado da rua?

De repente, como quando alguém mostra um dead pixel pra você na sala do cinema, percebemos a realidade que não dava pra ignorar! Dezenas de mulheres, posicionadas exatamente iguais, com a mesmíssima placa. Um grande espetáculo do choque, uma gigantesca peça em meio a Santiago!

A áurea nela e a angústia em mim se evaporaram, não ajudei porque percebi – talvez não em todas – um oportunismo no ar, fiz conexões mil com a tradição católica da culpa e me senti incrivelmente ingênuo. A vida pode nos surpreender, sempre.

17 de janeiro de 2012

De sonho e de sangue

Existe uma coisa que une todos os povos da América Latina. E não estou falando nada sobre os problemas históricos e desafios econômicos que acumulamos ao longo dos nossos poucos seis séculos de existência com o nome que usamos agora. Falo algo de hoje, do panorama atual do nosso dia-a-dia.

Eu gosto bastante de uma frase que é atribuída ao Machado de Assis, "temos que ser homens de nosso tempo e nosso país". Uma interpretação possível do que o autor carioca quis dizer com isso é que precisamos estar envolvidos nos nossos problemas e no nosso contexto, seja econômico, social, cultural ou o que for. Mas hoje, se eu tivesse a oportunidade, sugeriria que Machado substituísse a palavra país por continente.

Vivemos um momento de inigualável sintonia entre todos as nações latinoamericanas. O século XXI tem, mais uma vez, tudo para ser o nosso século. Se, por um lado, lideranças de grupos marginalizados vem alcançando os postos mais altos de cada país: militares de esquerda na Venezuela, índios na Bolívia, mulheres no Brasil, na Argentina e no Chile. Por outro, os sucessivos colapsos financeiros na Europa e nos EUA expõem as falhas do modelo vigente. E isso é percebido - detalhe que torna tudo ainda mais estupendo - pelos próprios europeus e estadunidenses. Essa conjuntura dá mais uma vez aos latinos-americanos a chance de serem aqueles que dão as cartas em seu próprio jogo.

Mas, antes, é preciso saber em quê apostar. Eu vivo com um sentimento de que a década de 90 e a primeira do século XXI passaram muito rápido. Nós não aprendemos tudo que tínhamos que aprender com os movimentos de 80, de 70 e até mesmo de 60. Às vezes me parece que esquecemos de problemas muito essenciais do nosso quintal como acesso à educação, saneamento básico e distribuição de renda, para dispendermos nossa energia com revolta com agenda de bandas internacionais, falta de estrutura de aeroportos ou preços de produtos high-tech.

Não me entendam mal e nem me interpretem errado. Não estou dizendo para abandonar tudo o que fazemos e voltarmos àquela antiga ideologia radical (de ambos os lados) dos anos de ferro brasileiros. Isso por dois motivos: o primeiro é que hoje em dia nada disso funcionaria mais, o contexto mudou, as teorias precisam mudar junto; o segundo é que 8 e 80 quase sempre dão errado. O que estou tentando dizer é que alguma coisa ficou pelo caminho, ainda temos que terminar (ou completar) o que começaram.

E uma das mais contundentes e atuais provas que vi de que existe uma conexão cognitiva muito profunda entre todos nós, povos da América Latina, foi um dos episódios do ciclo da TV pública Argentina "Presidentes de Latinoamérica". Um trabalho documental - quase uma Grande Reportagem biográfica, na verdade - sobre o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Um video imperdível, seja pela peculiaridade da história de Lula, seja por nos mostrar como uma iniciativa argentina conseguiu transmitir tão bem uma fase importantíssima da História brasileira. Bem mais sensível e informativo do que o "Lula, o filho do Brasil", o pequeno (1h20min) documentário expõe as dificuldades que o presidente passou, suas posições ideológicas, sua família e, inclusive, o assistencialismo ostensivo assumido ou a forma como ele é venerado mesmo que, em alguns casos, as pessoas nem ao menos saibam enumerar as melhorias mensuráveis que seus oito anos de governo trouxeram além do "fez muito pela gente".

Esse texto ficou bastante confuso, cheio de ideias que, certamente, poderiam ser arranjadas de uma forma melhor. De todo modo, segue abaixo o video, um trabalho que nos faz repensar sobre nosso lugar, nossos objetivos e sobre como somos nós mesmos que temos que (e podemos) ir lá e conquistá-los.

"A Unasul, no século XXI,  pode fazer uma mudança radical do que aconteceu no século XX,  descolonizar a mente de boa parte da nossa elite e fazê-la começar a acreditar que a solução dos nossos problemas está em nós e não está fora do nosso continente", Lula.

Os 10 piores clichês cinematográficos

Vi esse video por aí e tinha que colocar ele por aqui!


"Let's kill it before it grows"

10 de janeiro de 2012

A caverna de outra forma

Aproveitando essa fase meio debandada pra filosofia, vou postar um stop motion bacana que vi baseado em uma das obras mais conhecidas do Platão. É uma alegoria de Caverna (presente num diálogo entre Platão, seu irmão e Socrates, no começo do Livro VII) foi dirigida por Michael Ramsay e os bonecos são feitos de argila. Mais de 4000 fotos foram necessárias para fazer o curta que levou o prêmio de melhor animação no USA Film Festival Short film and Video Competition 2008.


Lembrei daquela frase que dizem que é o Einstein:
"A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original"

(via S&H)

8 de janeiro de 2012

Três portas para o infinito

Filosofia é um tema que me interessa pra caramba. Não sei nada - sem falso estilo - mas isso me incomoda pouco. O fascínio que me causa entender de relance ou me identificar com pequenas passagens dentro das galáxias conceituais que essa ciência artística nos apresenta é sem igual.

Aí, vagando pela internet como de costume, achei essa ótima série da BBC sobre existencialismo. São pequenos documentários veiculados em 1999 sobre os três maiores nomes dessa corrente de pensamento que surgiu na primeira metade do século XX e ainda parece profetizar muito do que vivemos hoje. Tudo numa linguagem bem simples, meio superficial - como todo programa de TV, mas ainda sim um ótimo cartão de boas vindas.

Que papel a moral ainda tem sobre nós? Qual é o significado da Liberdade? Até onde vai o verdadeiro potencial do Homem? Essas são algumas das questões que esses três gênios, demasiado humanos, nos apresentam. Nos apresentam abrindo diante de nós portas para a imensidão sem fim, tanto de suas próprias ideias, quanto da Filosofia e também de nós mesmos. Impressionante, né?

Vou postar na ordem em que assisti ao invés da que foi ao ar na época. Porque gosto mais do Sartre e - por enquanto - não conheço nada além desses simples quarenta e poucos minutos de Heidegger. Só por isso, gosto pessoal.