De joelhos ao chão, com uma vergonha e uma resignação tão intensa que era impossível olhar-me nos olhos, cabeça baixa, imóvel e muda. Entre nós, o único meio de comunicação era uma placa que dizia qualquer coisa parecida com isso:
“Sou uma mãe. E, para uma mãe, só existe uma vergonha maior do que pedir dinheiro na rua: deixar seus filhos passarem fome. Desculpe não agradecer caso me ajude, já é difícil demais conversar com meus próprios familiares depois dessa decisão. Agora, coloco-me aqui, parada, à espera de qualquer auxílio de Deus e dos homens de bem”.
Eu não acredito em esmolas. De jeito nenhum aceito dar dinheiro aos outros – a menos que estejam de fato produzindo algo: trabalhos artísticos, livros, comida e etc – porque, sinceramente, confio que dar suporte a essas pessoas é um papel do Estado, não meu. Mas, quando vi aquela mulher prostrada diante de mim daquela forma degradante em Santiago de Compostela, na Espanha, considerei ajudar. Fiquei atônito por uns instantes observando. Pouco importava os que passavam, doadores ou não, caçoadores ou não, cachorros ou humanos: ela não se movia. Olhos fixos no chão, queixo apoiado na singela placa de madeirite sobre os joelhos.
Era como se ela houvesse abdicado de sua condição de mulher, de cidadã ou o que seja porque a vergonha pelo que fazia era muito maior que aquilo. Caminhei algumas quadras e aquilo foi me consumindo, o estômago embrulhando com o quanto o mundo havia dado errado para aquela pobre espanhola. Já nem estava conseguindo aproveitar a grandiosidade dos detalhes da arquitetura secular daquela cidade, destino de tantas peregrinações.
- Cara, não consigo, tenho que voltar lá e ajudar aquela mulher. Que merda. – Eu disse pra um dos meus colegas. E ele decidiu voltar comigo.
Voltamos falando como era dramática aquela situação, como deveria ser único aquele sofrimento, como... Quando chegamos ao lugar e eu já ia tirar alguns trocados para dar à ela, meu amigo disse:
- Mas era essa ou aquela ali na frente? Ou será que não foi aquela de azul do outro lado da rua?
De repente, como quando alguém mostra um dead pixel pra você na sala do cinema, percebemos a realidade que não dava pra ignorar! Dezenas de mulheres, posicionadas exatamente iguais, com a mesmíssima placa. Um grande espetáculo do choque, uma gigantesca peça em meio a Santiago!
A áurea nela e a angústia em mim se evaporaram, não ajudei porque percebi – talvez não em todas – um oportunismo no ar, fiz conexões mil com a tradição católica da culpa e me senti incrivelmente ingênuo. A vida pode nos surpreender, sempre.