17 de janeiro de 2012

De sonho e de sangue

Existe uma coisa que une todos os povos da América Latina. E não estou falando nada sobre os problemas históricos e desafios econômicos que acumulamos ao longo dos nossos poucos seis séculos de existência com o nome que usamos agora. Falo algo de hoje, do panorama atual do nosso dia-a-dia.

Eu gosto bastante de uma frase que é atribuída ao Machado de Assis, "temos que ser homens de nosso tempo e nosso país". Uma interpretação possível do que o autor carioca quis dizer com isso é que precisamos estar envolvidos nos nossos problemas e no nosso contexto, seja econômico, social, cultural ou o que for. Mas hoje, se eu tivesse a oportunidade, sugeriria que Machado substituísse a palavra país por continente.

Vivemos um momento de inigualável sintonia entre todos as nações latinoamericanas. O século XXI tem, mais uma vez, tudo para ser o nosso século. Se, por um lado, lideranças de grupos marginalizados vem alcançando os postos mais altos de cada país: militares de esquerda na Venezuela, índios na Bolívia, mulheres no Brasil, na Argentina e no Chile. Por outro, os sucessivos colapsos financeiros na Europa e nos EUA expõem as falhas do modelo vigente. E isso é percebido - detalhe que torna tudo ainda mais estupendo - pelos próprios europeus e estadunidenses. Essa conjuntura dá mais uma vez aos latinos-americanos a chance de serem aqueles que dão as cartas em seu próprio jogo.

Mas, antes, é preciso saber em quê apostar. Eu vivo com um sentimento de que a década de 90 e a primeira do século XXI passaram muito rápido. Nós não aprendemos tudo que tínhamos que aprender com os movimentos de 80, de 70 e até mesmo de 60. Às vezes me parece que esquecemos de problemas muito essenciais do nosso quintal como acesso à educação, saneamento básico e distribuição de renda, para dispendermos nossa energia com revolta com agenda de bandas internacionais, falta de estrutura de aeroportos ou preços de produtos high-tech.

Não me entendam mal e nem me interpretem errado. Não estou dizendo para abandonar tudo o que fazemos e voltarmos àquela antiga ideologia radical (de ambos os lados) dos anos de ferro brasileiros. Isso por dois motivos: o primeiro é que hoje em dia nada disso funcionaria mais, o contexto mudou, as teorias precisam mudar junto; o segundo é que 8 e 80 quase sempre dão errado. O que estou tentando dizer é que alguma coisa ficou pelo caminho, ainda temos que terminar (ou completar) o que começaram.

E uma das mais contundentes e atuais provas que vi de que existe uma conexão cognitiva muito profunda entre todos nós, povos da América Latina, foi um dos episódios do ciclo da TV pública Argentina "Presidentes de Latinoamérica". Um trabalho documental - quase uma Grande Reportagem biográfica, na verdade - sobre o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Um video imperdível, seja pela peculiaridade da história de Lula, seja por nos mostrar como uma iniciativa argentina conseguiu transmitir tão bem uma fase importantíssima da História brasileira. Bem mais sensível e informativo do que o "Lula, o filho do Brasil", o pequeno (1h20min) documentário expõe as dificuldades que o presidente passou, suas posições ideológicas, sua família e, inclusive, o assistencialismo ostensivo assumido ou a forma como ele é venerado mesmo que, em alguns casos, as pessoas nem ao menos saibam enumerar as melhorias mensuráveis que seus oito anos de governo trouxeram além do "fez muito pela gente".

Esse texto ficou bastante confuso, cheio de ideias que, certamente, poderiam ser arranjadas de uma forma melhor. De todo modo, segue abaixo o video, um trabalho que nos faz repensar sobre nosso lugar, nossos objetivos e sobre como somos nós mesmos que temos que (e podemos) ir lá e conquistá-los.

"A Unasul, no século XXI,  pode fazer uma mudança radical do que aconteceu no século XX,  descolonizar a mente de boa parte da nossa elite e fazê-la começar a acreditar que a solução dos nossos problemas está em nós e não está fora do nosso continente", Lula.

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