16 de agosto de 2008

Olho por olho

Por Ennio H. R. Silva"


- Assassino! Traidor! Vândalo... Eram essas as palavras que ele ouvia diariamente nos últimos meses. Como se não bastasse a agonia e humilhação que os próprios significados carregam, o som era uma tortura a mais. Ele ouvia quase que sussurros, as sílabas fluíam agudas e pausadas dos lábios do interlocutor. Sem cessar, aquele rosto pálido, sem corpo, praticamente imerso na escuridão daquele gélido lugar, repetia sadicamente as acusações lancinantes:
- Assassino! Traidor! Vândalo...
Não havia muito tempo, aquela casa não era assim. A luz costumava entrar por todos os lados. De dentro, ele podia ouvir as vozes das pessoas do lado de fora, os sons agradáveis do cotidiano. Os entes queridos, como sua esposa e sua filha, eram sempre presentes: seus sorrisos, vozes, olhares, cheiros... Tudo habitava o local, as boas lembranças pairavam freneticamente desordenadas por toda parte naqueles dias.
Muitas pessoas abdicariam de muito para ter o que o proprietário dessa casa, Arthur, tinha ou parecia ter: uma vida normal. Como qualquer homem normal, ao caminhar apressado pelo centro, ele não era notado; de manhã tomava café com leite e torradas e à noite leite puro; Arthur odiava esperar na fila do banco e também costumava, se estivesse sentado no ônibus, segurar a bolsa de quem estivesse de pé.
Arthur, aliás, realmente costumava pegar o ônibus. Eram suas férias e ele havia desenvolvido essa estranha mania de tomar o coletivo sem um destino certo. Como diz o filósofo, há coisas que o Homem faz e nem mesmo ele é capaz de compreender. Mas talvez, Arthur pensasse que, se distanciando fisicamente de sua casa, ele poderia escapar também daquela outra casa, a sombria casa das memórias, sua mente.
Tão insistente quanto ele em aplicar essa técnica, era o fracasso que dela decorria. Bastava cerrar os olhos que ele voltava ao quarto mórbido e seu acompanhante lá estava... a voz vinha de longe... Aproximando-se... Intimidando-o:
- Assassino! Traidor! Vândalo...
Antes de tudo começar Arthur era coronel, tinha uma carreira militar ascendente pautada na lealdade incondicional, na honra e na coragem. É provável que justamente essa última virtude que o tenha incentivado a reagir contra tudo isso quando percebeu que havia o que não era como deveria ser: torturas, seqüestros, negligência, chacina, truculência.
Havia outros que também odiavam o que ele odiava. Quando se conheceram, as ações do grupo não passavam de discussões de boteco. Mas as coisas evoluíram... Comícios inflamados... Panfletos subversivos... Até que chegaram a verdadeira lei de Talião.
No calor do momento tudo fazia muito sentido e era muito justo. O que devia ser feito foi e tudo mudara. Porém, naquele momento as lembranças eram como uma névoa densa e negra que ocupavam sua mente; sua consciência não era mais que um inquisidor; seus ombros pareciam muito pesados; sua família não estava mais por perto e ele ainda podia ver o vermelho pecaminoso do sangue escorrendo de seus dedos.
Foi quando o ônibus parou, trazendo-o de volta à realidade, e ele desceu. Estava na rodoviária e a lembrança do que iria fazer o iluminou subitamente. Passando por uma banca de jornais, ele leu raridades em todas as primeiras páginas: boas notícias.
Embora tivesse se lembrado, não acreditou até ouvir a voz doce de sua filha gritando por ele e de vê-la atravessar, correndo, o saguã-la atravessar correndo o sagu gritando por ridades em todas as primeiras pedos.uestros,rte.o ao seu encontro. Aquilo foi como um feixe de luz forte demais para que a neblina negra o pudesse barrar. O beijo de reencontro em sua mulher, então, foi para a inquisição mental de Arthur pior que as pragas do Egito Antigo para Ramsés.
Elas voltavam do exílio e ele voltava do delírio.

De olhos abertos, Arthur agora pôde realmente notar a realidade a sua volta. Todos podiam dizer o que fosse preciso, os crianças podiam brincar nas ruas, os pais podiam ir trabalhar, todos podiam dormir em paz. Enfim, nada havia sido em vão.

"Há pessoas que devem pagar pelo que fizeram e há líderes que merecem memoriais por seus sacrifícios"

6 de agosto de 2008

Bastidores de um romance

Por Ennio H. R. Silva"


Era primavera e toda esta loucura parecia coerente e infalível. Eu tinha uma namorada e, depois que lhe contei que minha família se mudaria, ficamos pensando em fugir.
Aquela idéia não saía de nossas cabeças. Nós estávamos juntos há quatro meses – uma eternidade para a juventude – e nos separar não era uma opção.
Com custo, economizamos duzentos e cinqüenta reais – uma fortuna – e da escola fomos para a rodoviária. O primeiro ônibus que partiria tinha como destino Belo Horizonte, em Minas Gerais. Embarcamos sem hesitar.
Chegando à capital mineira, o plano era ingenuamente simples, arrumar emprego e alugar um apartamento – hoje desconfio de que ler muitos romances, como fazíamos eu e minha garota, não é tão bom para a mente quanto se pensa.
Desembarcamos e procuramos, insistentemente, um emprego. A busca foi desde vice-presidente executivo – adolescentes bucólicos – até entregador de pizza. O fracasso foi avassalador, mas – e essa é a única lembrança feliz de tudo isso – dormimos juntos sob a beleza do céu do “Parque Municipal”.
Porém, quando se está faminto, aproveita-se menos ainda do “romantismo” da vida. Comendo doações, com o dinheiro e algumas caronas viajamos por Barbacena, Niterói, Rio de Janeiro, Guarulhos. Sempre a mesma história, sempre a fome aumentando e o romance acabando.
Depois, em São Paulo, uma boa alma nos empregou, mas a saudade de casa era muita. À noite, eu e ela conversamos, eu citei minha mãe: “Não há lugar melhor que o lar”; ela nos lembrou da internet, das cartas. Então, aceitamos a separação e voltamos.
É bom lembrar de tudo, a tristeza da fome e a felicidade do reencontro. Agora isso não passa de uma piada – engraçadíssima – agora, pois já passou.
Afinal, os romances estão nos livros e nos sonhos, aqui, não há nada além do sarcasmo indiferente da vida real.

3 de agosto de 2008

Show Business

Por Ennio H. R. Silva"



“Meu trabalho? Meu trabalho é ser político!”. Esse é meu último dia em Luz, muitas coisas boas aconteceram e outras nem tanto. Dentre as ruins, essa certeza que carrego de que, para muita gente, ao invés das eleições, nesse segundo semestre, teremos é um processo seletivo de algum concurso público qualquer.

A lanchonete da minha família, O Chalé, me dá a grande possibilidade de conversar com muitas pessoas. Uma das conclusões trágicas a que cheguei foi esta: Na minha cidade, como em vários lugares, ser vereador ou prefeito é uma profissão cujos pré-requisitos são apenas a maioridade e a popularidade. Alguns pensam, ao comparar com os outros cargos públicos, que os disputados nas eleições são melhores porque não há prova e se paga bem melhor.

Eis o problema principal: o salário. Quem me conhece, realmente, sabe o que eu penso e não gastarei essas linhas para re-re-re-expor minhas “utópicas, radicais e retrógradas” idéias. Vamos, desta vez, jogar pelas regras do jogo.

“O papel do vereador é elaborar e apreciar leis de sua competência ou do Poder Executivo [...] fiscalizar e acompanhar a execução das leis em geral e [...] Sempre se posicionar a favor da população e dos interesses coletivos.”. Isso não fui eu quem escreveu, apenas citei o próprio site da Câmara Municipal de Luz (http://www.camaramunicipaldeluz.mg.gov.br/pagina.php?id=44). Mas não me espantaria se quatro ou cinco de nossos ilustres candidatos sofresse um infarto ao ler a citação e falecesse sussurrando, “O quê?! Trabalhar?”.
Mudando um pouco de assunto, mas nem tanto. Minha memória ainda está viva sobre as matérias que estudei para o vestibular e o gosto pessoal pela História ajuda um pouco nesse caso. Segundo o historiador Luis Koshiba, em “História do Brasil”, o coronelismo ocorria durante a República Velha no Brasil e o termo coronel “era utilizado para designar os fazendeiros ou comerciantes mais ricos da cidade”.

Com muito pesar, tenho que admitir que minha cidade, em plenos dias atuais, ainda é um exemplo de “curral eleitoral”. Quem tem dinheiro tem poder e influência. Pessoas e “peixes” que se elegem consecutivamente há décadas e nunca fazem propostas de real ajuda. Ex-prefeito que quer ser vereador e vice-versa. Não importa o cargo “o importante, meu rapaz, é estar na lembrança do povo. Sabe, eleitor tem memória fraca” e político, vergonha pouca!

Pensando na definição de vereador, chegamos à renegada verdade: não se É político, se ESTÁ político. O representante deveria candidatar-se, dar sua contribuição e ceder lugar a outro que também possa ajudar. Os cargos públicos não deveriam ser almejados pelo status e remuneração que causam, e sim pelo grande potencial de transformação e grande responsabilidade que retêm. Não deveriam, repito.

Todo esse circo só causa três reações ao público: imobiliza os alienados, faz rir os dominantes e revolta os outros. Bem, não sou fã de humor negro. Cada vez mais percebo que não tarda a algum candidato, na sua afobação típica por falar bem, parafrasear coerentemente a conhecida frase dos executivos: “Não é nada pessoal, é apenas política”.

1 de agosto de 2008

Saber de lá e saber de cá

Por Ennio H. R. Silva"



Eu gosto do interior. Viver as fazendas de plantações imensas, explorar terras virgens a procura de alguma grande descoberta, beber água do rio sem medo, ver os animais, subir nas árvores. Tudo isso é realmente bom, nos traz uma paz que a selva de pedra nunca trará. Mas, o melhor que há, e os genuínos homens do sertão hão de concordar comigo, é a prosa frouxa que sucede o anoitecer.

Vez ou outra acontece, depois de um dia duro nos cafezais ou, como o compadre João, um dia guiando e ordenhando o gado, cada um pega sua viola e a roda se forma em volta do calor da madeira em brasa. As mulheres preparam o “cumê” e um ou outro guri foge da cama e inventa de espiar o que está acontecendo.

Todos nos juntamos para cantar a música e a poesia, nos juntamos, tal como os índios sorrateiros em seus esconderijos na relva, para homenagear, lembrando histórias, os que vivem sob a terra onde estamos.

Digo-lhe, e sou sincero, que prezo muito os números e palavras dos doutores da cidade, mas não baixo a cabeça não! Porque sei que nenhum saber é o melhor, nem é o de lá nem o de cá.

E caso alguém duvide, como amiúde ocorre com os viajantes que passam por essas bandas, tenho sempre na ponta da língua um causo que vale, modéstia à parte, mais que muito livro que circula por aí.

Como o do Compadre Bragança e Seu Silveira. Esses dois hoje já quase caducam, afinal foram os primeiros a chegar por aqui. Há mais de cinqüenta anos, o governo arranjou um modo deles mudaram-se pra cá, deu um pedaço bom de terra para os dois. O pior (ou melhor) é que foi um em pareado com o outro.

Compadre Bragança conta que até hoje nunca viu um macho mais rabugento que o tal do Silveira. Como eram bem pobres, Seu Silveira vivia reclamando, não fazia quase nada além disso:

- Ora! De que adianta tanta terra se não há dinheiro para plantar? Não tem estrada que preste, posto de saúde, escola... Nada!

Diz meu compadre que também não estava achando aquilo lá uma maravilha, mas que prezava muito aquele pedaço de chão pra ficar reclamando e que prometera pra si mesmo que, com o suor do seu trabalho, iria virar a mesa.

No começo ele não virou, mesmo porque nem mesa tinha. Mas trabalhava dia-a-dia com afinco e zelo. E o Seu Silveira também. Afinal, dizem que nem água costumava cair do céu na época, que dirá comida. Por amor e por obrigação, era assim que trabalhavam.

Certa vez, o Compadre ficou sabendo que o Silveira tinha vendido suas terras por um preço alto e iria se mudar pra cidade. Diz ele que até tentou fazer a cabeça do maluco, mas não deu jeito não, o Silveira se foi e o Bragança ficou.

Os anos foram passando e aos poucos as coisas foram melhorando. Nada foi fácil, toda semana Compadre Bragança separava dois dias do trabalho pra ir à cidade, um para cobrar serviço dos políticos em suas reuniões e o outro pra tratar da cooperativa de fazendeiros que ele mesmo ajudou fundar e que, aliás, existe até hoje e que nunca entrou um peão corrupto. “Roubou da cooperativa, roubou de todos” diz o compadre. Pra compensar trabalhava aos sábados e domingos também.

Sempre apareciam umas propostas de compra da fazenda ou algo do tipo. Dizem que ele recebeu uma que os zeros que vinham no cheque davam pra mais de uma linha de caderno, mas isso já é história. Outros forasteiros, esses do exterior, queriam estudar e mandar as plantas daqui lá pra Europa e ainda pagavam aluguel. O compadre nunca nem pensou na idéia. A propriedade era da familia Bragança por isso, como ele ainda defende, só ele e os parentes podiam viver lá.

Assim, pegando no pé de quem deve e trabalhando bastante, as coisas mudaram. Veio a energia, escola, hospital e a natureza continua aí, firme e forte.

Quanto ao Seu Silveira, pobre coitado! Qual não foi a surpresa do Compadre Bragança em ver, trinta anos depois de sua partida, o conhecido magro e doente pedindo abrigo à sua porta. Na cidade só se importam com o saber de lá, com diploma e tudo mais.
Seu Silveira podia até ter dinheiro, que logo acabou, mas não tinha esse tal saber.

Desde então o Bragança vive feliz sendo um dos maiores fazendeiros da região e Seu Silveira é seu empregado, seu mais rabugento empregado.


"O patriotismo é a expressão máxima da solidariedade. Valorizar o coletivo em detrimento dos interesses individuais"