18 de novembro de 2009

O texto é meu e pronto


Eu estava sentado no balcão de um simples salão de festa quando ele me cumprimentou:


J. – Hey! Tudo bom?
M. – Eu te conheço?
J. – Sei lá. Você acabou de dizer “quando ele me cumprimentou”. Só estou seguindo as regras.
M. – Que maluquice é essa de se referir à narração do texto?
J. – Que maluquice é essa de escrever xum texto onde você é narrador, personagem (até aí tudo bem) e autor ao mesmo tempo? Faltou à aula de Teoria da Literatura? Narrador e Autor são pessoas diferentes.
M. – Como eu posso ser o autor e escrever minha própria vida?
J. – Ora, não é nisso mesmo que você acredita, Senhor Livre-arbítrio-a-qualquer-custo? Enfim, meu nome é Juan (putz, você tá sem criatividade pra nomes hoje, hein?!) e vim aqui para lhe ajudar com as mulheres…
M. – Primeiro, quem disse que preciso de ajuda com mulheres? Segundo, já que esse texto é meu, vamos fazer dele alguma coisa mais útil.
J. – Mais ú… peraí, você disse útil? Ah, então tudo bem. Achei que havia dito melhor, já ia te perguntar o que era melhor que mulher… Texto mais útil como?
M. – Uai, é como o professor de Literatura diz… Um texto tem que carregar alguma discussão profunda debaixo dele… Suscitar uma boa reflexão…Sei lá, discutir a própria Literatura e seus elementos constituintes… Ou alguma coisa mais sociologia do tipo: como existem pessoas machistas nesse mundo e sobre o feminismo oportunista de hoje em dia… Ou ainda poderia apresentar os conflitos psicológicos de uma geração de jovens ávidos por desafios, mas perdidos em suas próprias palavras inebriantes…
J. – Ah, claro, senta lá, Cláudia.. Não quer acrescentar uma crítica feroz ao jornalismo apático e mentiroso que se pressupõe objetivo caminhando sobre o bem e o mal, não? Por favor! Você acha mesmo que conseguiria fazer isso? Para ser bom escritor tem que ser bom leitor… Você leu, no máximo, uns 50 livros até hoje e deve ter prestado menos atenção neles do que em jornalzinho de ônibus… Mas por falar em crítica literária… você tem escrito muitos diálogos, né? Ta começando a ficar previsível…
M. – Ou posso estar começando a achar meu estilo!
J. - Diálogos são muito complicados de entender… Quem lê se perde…
M. – Qual é… Eu coloco a inicial de quem está falando antes da fala… e quase nunca tem mais que três personagens na mesma cena… Sem falar que a leitura fica mais dinâmica e aproxima mais o leitor da narrativa… Estou te falando, acho que essa é minha estética literária…
J. – Pelo bem do mundo, espero que não…. Me vê duas caipi-vodkas aí, chefe!
M. – …
J. – O QUE É ISSO?!

Juan ficou estupefato com o corpo que viu atrás do balcão…



J. – E com o preço dessa caipi-vodka também! Mas você-narrador é quem manda… MEU DEUS, UM CORPO ATRÁS DO BALCÃO!? Olha, cuidado com esse tanto de conflitos nesse texto, você ainda tem que explicar o título, dar um desfecho que preste, o lance com as mulheres e agora esse corpo… isso vai ficar gigante, ninguém vai ler até o final….
M. – Ninguém nunca lê mesmo… E vamos parar com isso de “esse lance com as mulheres”.. que lance?
J. – Ora, você inventou um personagem todo despojado como eu, com o nome de Juan e nos colocou aqui, em um salão de dança cheio de gatinhas… Cara, todo mundo já percebeu que tudo isso não passa de uma embolação sem fim pra você escrever sobre essa tal fase “eu cansei de ser bonzinho” que você está passando, Mizaru…
M. – Juan, você nem me conhece, não sou tão clichê assim… Costumava ser, mas não sou mais…
J. – Tá tá… Escuta só A Verdade. Olha pra pista… Todas essas mulheres estão aqui para jogar… Tudo é um jogo… E, para elas, o vencedor tem que seguir quatro critérios muito simples. Você tem que ter Isenção [não se apegue a nenhuma delas], Pluralidade[Ora, todo mundo se cansa rápido... aproveita que o público tem memória curta e diversifique seu número de presas ao máximo],Clareza [Sem piadinhas racistas... estou falando aqui de ser claro, vai direto ao ponto, se precisar, chega beijando] e, claro, serCorreto [Quer dizer, um cara reto, nenhuma mulher gosta de pessoas tortas – em qualquer sentido – você tem quer ser sempre ereto nas suas ações].
M. – Parabéns, você é quem escreveu o Manual do Pegador?
J. – Percebi seu sarcasmo. Mas, pra ser sincero, aquilo é o maior plágio da história… Enfim, o que eu disse era na teoria, na prática eu fiz um sisteminha pá-pum: Look, check e get.
M. – Por quê em inglês?
J. – Porque fica mais cool e style… Em Português seria algo como Olhar, checar e pegar.
M. – Detesto quando pessoas dizem “seria algo como” antes de traduzir alguma coisa que é EXATAMENTE como ela diz e não “algo como”…

Juan não me deu atenção e só pediu para que eu o olhasse em ação. Virou-se para a primeira que viu. Colocou-a de costas para mim, para que eu pudesse o ver sobre os ombros dela. Juan a olhou nos olhos, deu-lhe uma bela apertada entre as pernas, fez um sinal de positivo para mim e tacou-lhe um beijo de cinema igual o tapa que levou logo de volta. Voltou massageando o rosto e me vendo gargalhar


J. – Buscar inspiração em Splish Splash do Roberto Carlos foi tenso…. E, pro seu governo, na música o beijo e o tapa não sãocomo de cinema, mas sim no cinema. De qualquer forma, valeu a pena. Peguei, né? O que você está anotando? Que papel é esse?
M. – Um texto que estou escrevendo…
J. – Ah, o título… Não pergunto mais nada. Isso já está muito metalinguístico pro meu gosto… Se desse algum palpite, aposto que você me responderia “O texto é meu e pronto”… Mas e aí? O que achou do meu método?
M. – Péssimo, não é pra mim. Cara, eu procuro uma coisa diferente. Uma relação baseada na cumplicidade, na confiança. Onde, juntos, duas pessoas possam compartilhar momentos legais e construir coisas bacanas… HEY, ACORDA!
J. – Desculpa… Peguei no sono aqui… Não eu, claro, mas você sabe que todo mundo acha isso um saco, né? … Ow… Me larga… Que eu fiz? Qual é? Mizaru, me ajuda aqui… ow….
Só pude ver Juan sendo levado pro cantão por um brutamontes gigante que, a supor por como a mulher que Juan tinha acabado de beijar chorava copiosamente, era o esposo chifrudo. Ainda consegui ouvir meu “amigo” dizer uma coisa:
J. – Mizaru, a morta… A morta do balcão!!!
De repente, a mulher do outro lado do balcão levanta e sai resmungando: Meu Deus, tenho que parar de beber….

15 de fevereiro de 2009

Looking for


Lucas caminhava pela rua como um louco. Um louco não, um lunático. Um daqueles que a gente olha e não sabe se sente dó ou inveja. Tão despreocupado e livre, ele cantarolava as músicas que tocavam no seu mp3. Cantarolava alto! Chegou até a puxar uma dama para dançar, do nada, na calçada. Ela não estava exatamente na mesma freqüência que ele, lhe deu um empurrão e um “sai pra lá, maluco”. O problema era dela, não fazia diferença para Lucas.
Se alguém lhe parasse e perguntasse qual era a “receita” daquela felicidade espontânea, ele não saberia responder. Seria a atitude de trocar o toque do seu despertador? Acordar ouvindo Brand New Start era mesmo revigorante. Mas não era essa a razão. Sabe quando as coisas simplesmente estão bem? Se Lucas parasse pra pensar nisso, talvez chegasse mais perto da fórmula da tal receita.
Bom, mas ninguém perguntou e ele não parou para pensar. Depois de acordar, desceu as escadas do prédio no ritmo Happiness is a warm gun. Cinco andares de degraus, o elevador pareceu tão chato.
Saiu pela portaria e até o porteiro sentiu que o rapaz estava diferente: o bom dia mecânico foi substituído por um “tenha um bom dia!”, isso mesmo, com exclamação no final, uma raridade.
Quando o randon do Ipod escolheu Cara Estranho ele riu sozinho pensando que aquela era mesmo uma ótima trilha para o dia de hoje. Não que não houvesse problemas, mas agora ele sabia que era tudo uma questão de tempo. Todas as grandes questões existenciais e as pequenas escolhas de cardápio... Tudo era só uma questão de tempo.
Ele ainda sentia dentro de si a sede que sempre sentiu. Uma sede forte do tipo que o faria olhar nos olhos de um peregrino do Saara e dizer: “Cara, eu sei exatamente como você se sente”. Não, não é que as coisas tinham, de uma hora pra outra, tornado-se perfeitas. Ele sabia que ainda ia cair muito, que ia ouvir muitos não’s e que, indubitavelmente [como diria seu pomposo professor de Sociologia no colégio], haveria o momento de reviver a sensação de peixe no aquário das focas. Mas Lucas tinha certeza absoluta que agora, mais cedo ou mais tarde, podia vencer qualquer luta que visse por aí.
Suas batidas cardíacas acompanhavam a melodia de Banana Pancakes. Mas só a melodia combinava com a cena de Lucas descendo do ônibus, porque não chovia, era um esplêndido e, quase que literalmente, fabuloso dia de sol. A cada esquina que virava, por cada pessoa que passava, ele estendia um grande sorriso e dizia “belo dia hoje, não?”. Claro que já sempre fazia isso com uma ou outra garota em dias normais. Pra puxar assunto, sabe?! Nunca funcionou realmente, mas não custava tentar.
Porém, dessa vez não havia restrição. Ele não notava o sexo, a beleza, a idade ou o que quer que seja do interlocutor, apenas cumprimentava, como um político em campanha eleitoral, só que sincero. Bem, político sincero não é uma coisa muito fácil de imaginar, enfim, ele estava cumprimentando todo mundo que andava pela calçada.
Ironicamente, dessa vez, a “tática” deu certo e ele ouviu um “Não tão lindo quanto você, gatinho”. Mas era de um cara! Normalmente ele teria se assustado, ficado com raiva ou qualquer coisa do tipo. Hoje, só riu, gargalhou na verdade, e continuou andando fingindo não ser com ele.
Quando Lucas parou em frente ao condomínio que era o destino de sua viagem, o velho e o moço tocou. Foi um momento solene. Ele refletiu bem e pensou em o quanto aquela música foi importante para que tudo isso acontecesse. Para que ele estivesse finalmente ali, em frente àquele prédio, prestes a passar mais um dia inesquecível. 
E como havia sido no começo, quando os Hermanos cantaram “...E eles têm razão quando vem dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo...” a coragem encheu seu peito e ele apertou o interfone do 13º andar.
- oi ...

11 de fevereiro de 2009

Armadilhas escondidas


João Roberto, o pai, ouvia o rádio do carro bem baixinho. Não queria acordar sua mulher e seus dois filhos. Aqueles dois peraltas estavam agora dormindo e, pelo retrovisor, podia-se notar como eles lembravam o semblante tranqüilo e despreocupado da mãe.
James, o mais velho, parecia possuir metade da idade do irmão, física e intelectualmente. Era um jovem moreno de 16 anos, cheio de vida. Já tinha passado por poucas e boas. O pai lembrou-se, rindo, de como quase o expulsara de casa por conta de uma garota que ele supostamente havia engravidado. Depois descobriu que tudo não passava de um plano juvenil para que os dois namoradinhos vivessem juntos. O garoto era mesmo muito corajoso.
Brian, um anjo. 8 anos apenas e já se dizia um homem. Tinha “planos” para os negócios da família. Se alguém perguntasse o que ele faria nos próximos setenta e oito anos e nove meses, provavelmente, ele saberia responder por cada segundo. Justamente pos isso, ninguém perguntava. Um cérebro único, já pulara duas séries na escola, mas que tinha um grau de sensibilidade elevado demais. “Elevado demais” o pai se lembrou de quando discutiu sobre isso com sua mulher... “Não se preocupe, meu amor. É o jeito dele... seu filho não é gay!” e deu uma gargalhada abafada quando a cena voltou a acontecer em sua mente. Claro que não era gay, ele nunca pensara isso. Tinha orgulho dos garotos, cada um de seu jeito.
Ele olhava pelo retrovisor e, a cada característica em comum, se voltava para confirmar em Karen. Uma singela levada oriental no traço dos olhos, o rosto arredondado, cabelos lisos e negros como a noite que lhe fazia companhia.
As placas passavam em alta velocidade na auto-estrada deserta. Ele olhou para o relógio, duas da madrugada. Karen havia insistido veementemente para que parassem em uma pousada, para que ele descansasse. Na hora não fazia o menor sentido, viajar à noite é até melhor, menos movimento, contra-argumentou. Chegariam muito mais rápido. Chegariam?
O rádio começou a falhar. “Last night, no way... I wa........daddy....I roll that way”. Ele desligou a caixa de abelhas. Quando desligou se arrependeu no mesmo instante. O silêncio era desolador. Havia o som do motor, mas era um som que inexplicavelmente potencializava a força do vazio... exceto, claro, pelas ensurdecedoras carretas que passavam vez ou outra.
As pálpebras começaram a pesar... Cada segundo parecia adicionar dez quilos em cada uma. “Não posso dormir... minha família, tudo que tenho de mais importante, está nesse carro”. Mas era uma noite de grandes lições: o sono é surdo e impiedoso. Ele cochilou e, imediatamente, acordou assustado. “Não posso mais continuar, vou parar”.
Mas não havia sinal de civilização por perto. O último posto passou hà 10 quilômetros? Ou seria há 15? Longe demais... Ele seguiu e o sono aumentou. As curvas pareciam maiores, mais difíceis, mais freqüentes e perigosas.
Um silêncio profundo.
Buzina, luzes, gritos, freios... batidas, batidas fortes, repetitivas e fofas.
Ele abriu os olhos, Karen tentava impedir Brian em um de seus raros acessos de “impulsividade infantil”.
- Pare com isso, meu filho. Seu pai está tentando descansar. – Aconselhou a mãe.
- Mas eu quero continuar a viagem, senão vamos demorar muito pra chegar – Disse Brian.
 James ia dizer algo, mas se calou, todos se calaram ao ver o pai atônito.
João Roberto nem notou , apenas agradeceu profundamente pela segunda chance.

3 de fevereiro de 2009

O andarilho


Oito da noite. “Por que você não vai trabalhar?” escuto. Três homens jovens, animados e, o mais espantoso, “alegres”, intimidam um velho que dormia sob uma marquise. “Por que você não vai trabalhar?”... Aquilo ecoou em mim... É! Por quê?  Gosto pelo não fazer? Preguiça? Frustração? Coerção?
Pela manhã. “Por que você não vai trabalhar?” escuta. Andando pelo centro da floresta de árvores petrificadas, entre os carros, ensurdecendo-se com os gritos das pessoas, ensandecendo-se com o desprezo de todos. Acostumado com os vidros fechados, com os olhares vazios que transpassam seus ossos como se fossem feitos de celofane, ou menos, como se simplesmente não fossem. Acostumado? Realmente alguém pode acostumar-se com isso?
Calado, envergonhado, como se sentisse que sua presença no mundo fosse um ultraje a “perfeição” das obras divinas, ele arrasta a perna esquerda. O olhar fita o chão dois palmos há sua frente... tampinhas metálicas, restos de cigarro, dejetos de pombos... o horizonte belo de um andarilho.
Eu nunca vi alguém conversar com um... Ninguém conversa com andarilhos, mendigos, maltrapilhos, pedintes, marginais, porcos, animais... "Animais não, pessoas!"- Diria um moralista anônimo que estivesse passando. Pessoas pensantes? Mas pensar não era justamente o que definia pessoa? Então por que o desprezo? Hipócritas transeuntes se enforcam nos nós de seus conceitos ambíguos.
Fim da manhã. Ele saiba, sem relógio, que horas eram. Os odores mornos de carne cozida, betume, arroz e gás carbônico denunciavam que as “pessoas” estavam comendo. O tempo para ele não passa em segundos ou minutos. São os intervalos entre as crises de fome que marcam sua orientação cronológica. Ele ouviu dizer que se tratava de “relógio biológico”, não fazia diferença. Não se pode vender nem trocar “relógios biológicos” por alimento.
“Por que você não vai trabalhar?” sentiu, ao perceber a multidão se afastando e desviando dele por onde passasse. Talvez se ele trabalhasse, os outros não levantariam do banco onde ele senta. Talvez se ele trabalhasse, tivesse alguém para compartilhar a beleza do por do sol na praça. Talvez se ele soubesse ler, escrever, ou soubesse algum ofício... Talvez se ele soubesse, ele trabalhasse... Talvez... Se ele soubesse.
Anoitece. Mais um dia passa. O andarilho indigente continua a caminhar, arrastando aquela maldita perna esquerda. O que diabos aconteceu com ela? Quem sabe um tiro heróico da segunda guerra mundial ou uma ridícula paralisia não tratada. Quem sabe? Mais um dia passa. Um dia que se arrastou como aquela perna... lentamente... à deriva... moribundo.
Dias que perecem séculos. Meses, blocos psicodélicos com dezenas de séculos preenchidos com um monótono e insistente nada. Os olhos azuis dele não tem mais o que buscar, só o horizonte belo de um andarilho. Aqueles fundos olhos azuis esverdeados, verdes azulados ou vermelhos esmeralda-oceano. Olheiras profundas, rosto fechado, pesado. Os anos pesam tanto? A desesperança pesa tanto? Os pensamentos pesam tanto? A angústia pesa tanto?
Oito e um. “Por que você não vai trabalhar?” escuto novamente. “Ei... que cheiro é esse? Álcool?! Não... Não façam isso! Eu não fiz nada contra vocês! Não! Tirem daqui esse fogo... Afastem de mim essa chama”... chama o andarilho... clama o andarilho...
Passa uma mosca entre eu e janela. Distraio-me e pisco. Estou de pijama, no quarto seguro do terceiro andar. Dentes escovados e lâmpadas apagadas. Exceto pela meia-luz do abajur que ilumina um livro sobre o criado ao lado da cama. Olho e não consigo me lembrar [ou decidir] o que mesmo que ia fazer. Dormir? Ou seria agir?