8 de setembro de 2012

Paixão de soslaio



Era alta, esguia, branca, com negros cabelos lisos que desciam até à cintura, olhos castanhos e parecia jovem. Todos os dias, quando eu descia ao bar para tomar algo, repetia-se o ritual. Ela entrava, ordinariamente, dirigia-se diretamente ao balcão, pedia um cigarro apenas e uma dose de rum. A partir daí, revessava-se entre três movimentos simples: diluir o gelo no rum com os longos dedos com unhas rubras, sorver um mediano – nem demorado ou muito menos apressado – gole de bebida ou uma tragada profunda no cigarro.

Minto. Esses eram os três estágios medíocres daquele show banal do qual só eu era espectador. Compunham o primeiro ato. Havia, é preciso dizer, o Nada e o Tudo.  Dois instantes diametralmente opostos no comportamento daquela estranha, duas cenas daquele enredo diário que, desconfio, eram os responsáveis por toda a ansiedade e saudade que passei a sentir por aquela mulher sem nome e sem história.

Cerca de oito ou nove minutos depois que Ela entrava, sucedia-se o Nada. Com a dose e o cigarro perto do fim, Ela retirava o filtro da boca devagar (ou assim eu imaginava?) e permitia que o braço pendesse lentamente. De pé, apoiando o braço direito no balcão e o esquerdo estendido: Indicador e médio seguravam o que sobrava do cigarro e os demais dedos restavam entrefechados. Um tanto vulgar, é verdade. A fumaça que despretensiosamente subia pelas nuances de seu corpo reforçava teses pouco respeitosas sobre Ela, outra conclusão igualmente plausível.  Eu bem pensaria que estava â espera de alguma companhia (que bem poderia ser eu) se não fosse o olhar vazio.

Por trás do forte traçado negro do lápis nos olhos, era difícil acreditar que havia íris, pupila ou mesmo alma. Petrificada, Ela mirava o horizonte além das paredes imundas daquela taverna sufocante. Parecia que viajava tão distante quanto o homem jamais conseguiu ir. Não sei se em busca de alguém, um amor fraterno, maternal, carnal, ou talvez à procura dela mesma. Numa perturbadora incursão dentro do universo de si, mergulhando sem equipamentos nas mais profundas águas: os lençóis de nossas memória. 

Então, enquanto eu estava hipnotizado pelo imenso abismo daqueles olhos escuros como o céu noturno do campo entre as estrelas carentes de atenção; nesse momento, o braço subia outra vez, trazia o cigarro de volta aos frouxos lábios vermelhos e Ela não tragava.  Só tocava com a mão direita uma fina pulseira no pulso esquerdo. Sabe-se lá a história daquele acessório, daquelas unhas e daqueles lábios.

Quando chegava a esse ponto, já estava certo do que viria: a epifania.  De uma só vez, tragava o resto do cigarro (e meus olhos pareciam capazes de dar um zoom a fim de perceber melhor os detalhes da fumaça que quase escapava pela boca entreaberta, mas era imediatamente sugada para dentro daquele mistério alvo), virava-se para o garçom e chamava-o pelo nome:

- Pedro, pode tocar a minha, por favor, meu amigo?

Quem negaria? Eu não e, pra minha sorte, nem Pedro. Então, era a última vez daqueles longos dedos tocarem o copo de rum naquela noite e Ela entornar o derradeiro terço de dose em um gole só. Nos primeiros dias, eu ainda aguardava uma canção tipo balada, uma música em que aquela mulher pudesse se soltar, escapar de toda sensação de sufoco que parecia ter e sentir-se livre. Mas não, a música “dela” era Blackbird.

Já nos primeiros acordes, Ela se levantava, atravessava o salão em direção a uma mesa mais reservada que o balcão, onde pudesse (como de fato sempre fazia) sibilar cada palavra da letra no ritmo e (eu poderia jurar) sotaque corretos. Quando passava, ficava visível a mim, se não estivesse de calças, a tatuagem que tinha na panturrilha direita: um desenho complexo, talvez exotérico ou um símbolo em outro idioma, coisa que nunca descobri o que era, por mais que eu tenha tentado. De olhos fechados, Ela balançava a cabeça no compasso da guitarra de Paul e seu belo rosto era quase encoberto pela cachoeira negra que derramava-se rente sua pele.

Ao invés de despir-se de toda a maldita névoa incógnita que a envolvia, Ela mergulhava absolutamente naquela excêntrica áurea reclusa. Eu esperava que se acabasse de dançar e gritar na “pista”, porém preservava ainda mais suas histórias e gestos. Depois disso, de Tudo, Nada e do cigarro com rum, ia embora. Algumas noites mais cedo noutras mais tarde, nunca soube dizer. Pra mim, desaparecia em meio à penumbra daquela mesa ou era pulverizada pela alegria estridente dos demais casais e grupos de amigos que chegavam para ouvir algum hit novo da Billboard. Nunca a vi sair, uma hora estava lá, quando eu ia ao banheiro, pedia outra bebida, me entretinha na escrita, piscava o olho ou coisa que o valha, já havia sumido.

Obviamente, me apaixonei. Durante dias e semanas fiquei fascinado pelo mistério e a beleza que envolviam aquela mulher, sempre com roupas em tons escuros, linda e – aparentemente – tão distante do meu particular mundo rotineiro e monótono. Aliás, tão distante de qualquer mundo que não fosse o dela. Mas, como já disse a pouco, não encontrei momento certo para me aproximar. Pra mim, aquele ritual se tornou sagrado e grave demais para ser desmanchado por uma tola abordagem mal (ou bem?) intencionada.

Tão súbita quanto foi sua chegada, logicamente, foi seu desaparecimento. O que era de se esperar? Que gritasse ao bar inteiro: “Pessoal - e você que fica aí sentado no canto todos os dias - hoje é meu último dia aqui no bar!”. Aguardei por semanas que ela voltasse, por outras tantas horas imaginei porque não voltava, um mês fiquei a criar hipóteses sobre sua história, histórias sobre sua tatuagem, anotava possíveis nomes que teria nas margens da minha caderneta...  mas, nunca mais a vi e agora não há o que fazer.

Não existe mais sentido vir a esse bar, sentar-me aqui. Até mesmo essas palavras que sempre escrevi nessa mesa, tornaram-se mais vazias e pedantes do que já eram, graças à partida d’Ela. Se, pelo menos, eu tivesse um nome... Quantas chances tive! Eu poderia tê-la abordado na mesa depois que a música terminasse, talvez assim que ela desse o primeiro gole, ou ainda, poderia ter chamado o garçom e pedido que tocasse aquela canção para ela, antes o fizesse Ela mesma...  Mas agora não há mais pistas ou vestígios. A essa hora, ainda cedo para os outros boêmios, só estamos eu e o garçom aqui. Eu e aquele sortudo garçom que era chamado pelo nome...

- Pedro. Ei, Pedro! Vem cá... Posso te fazer uma pergunta, meu amigo?

5 de setembro de 2012

À beira-mar




Ocean, ocean, ocean... O inglês funciona bem melhor do que o português para representar a imensidão do mar. Sentado aqui, de frente pra esse infinito azul, sobre a areia morna e sob a sombra fresca, tudo o que escuto é essa quase-onomatopeia: ocean, o-cean, ôu-xeãnn....A força inabalável de Poseidon suga as margens da praia para as profundezas das águas, a maré se afasta, os grãos de areia são arrastados; subitamente, a onda se erge, imponente (ôu....). O equilíbrio se desfaz, tão fugaz quanto como se construiu, a onda quebra na areia, revira tudo, regurgita o que não quer na espuma, sem negociar (xeãnn...). Ocean, ocean, ocean...

Engraçadas as bobagens que se pensa quando a passagem de tempo deixa de importar. Umas saudades daquelas palavras que nomeiam rostos que já não me lembro, uma consciência serena de que esses serão os dias mais calmos e, porém, mais monótonos da minha vida.

A maré traz um baú sem tesouro dentro, só há um cubo-mágico meio atrapalhado.