5 de fevereiro de 2015

"Nada mais fácil de amar que uma menina sem nome que é pura ideia, que é entregue pelo destino, vulnerável e lúbrica, pronta para ser resgatada, fugir e reaparecer. Mas essa mulher o odiava. Às vezes ela o acusava de tê-la salvado à força. Por que tu me tirou da água? Não era pra me tirar. Com mais frequência ela o acusava de tê-la abandonado. Como tu foi capaz de me abandonar? Como pôde me deixar ir embora? Mas eu te salei, ele argumentava. Ela balançava a cabela dizendo não. Por que tu não perguntou meu nome? Por que não segurou a minha mão? Por que não corrou atrás? Por que me deixou ir? Tu não me quis. E isso para ele soava terrivelmente injusto. Como ele podia ter sabido? Fez o que precisava ser feito. Fez tudo que podia ter feito. Como era injusto que ela olhasse para trás depois de tanto tempo e o acusasse de ter agido de outra forma naquele instante. Será que ela não lembrava de ter saído correndo sem dizer palavra? [...] Nunca lhe ocorreu contá-la a ninguém, escrevê-la, desenhá-la. Por que essa história? Porque uma história? De onde tinha surgido e onde tinha ficado guardada todo esse tempo?"

Barba ensopada de sangue, 
Daniel Galera. 

8 de dezembro de 2014

Carta aberta em defesa do Amigo Oculto


Estes são tempos sombrios. Não há como negar. Da falta de água em São Paulo até à constatação de que o chocolate pode estar caminhando para a extinção. As notícias boas estão, vertiginosamente, se tornando mais raras a cada segundo, camaradas! Em contextos pré-apocalípticos como este que compartilhamos, há de se considerar justa toda forma de amor, já diria Lulu Santos. Vamos multiplicar os momentos felizes! Cultos religiosos, retiros de autoconhecimento, grupos de leitura, confraternizações da empresa com entrega de Participação nos Resultados, Comitês Revolucionários UltraJovens, reuniões do AA e, evidentemente, jogos de Amigo Oculto.

Pessoas de pouca fé e índole duvidosa dirão que jogos de Amigo Oculto não entram na categoria de momentos felizes. Ousarão eles ressaltar os instantes incômodos na hora de comprar algo para quem não se conhece. Destacarão de forma vil as repetitivas descrições ambíguas que não levam a lugar algum dos mais “engraçadinhos” (Meu amigo ocuuultooo… está nesta sala! Tem… duas pernas…. E fala portuguê-ês! ha ha ha!!). Não satisfeitos em seus argumentos vãos, esses infiéis natalinos podem até jogar baixo, insinuando que 90% dos presentes que a gente recebe são pessimamente escolhidos. 

Contudo, não quero aqui entrar no mérito dessas infâmias contra a melhor das brincadeiras de Natal. Nem direi que meus adversários são uns amargurados que tiveram uma experiência ruim na infância e que deveriam procurar um profissional para ajudar-lhes a compreender que a vida sempre se reinventa a cada amanhecer, como já disse Augusto Cury, provavelmente. Não! Vamos tirar os olhos do retrovisor, candidata!

Amigo Oculto, meus amigos e amigas, é a celebração do dar e receber, desprendido do consumismo. É presentear com um PS4 porque você sabe que a pessoa vai adorar, mesmo correndo o risco de ganhar um par de meias do seu cunhado que não dá a mínima. É se divertir com a interna de outras duas pessoas, dita na descrição, pelo simples fato de que você não quer se sentir excluído naquele momento. É se esforçar para adentrar à mente “do outro”. É uma experiência sociológica! Antropológica! Psicológica! Quiçá – ou principalmente – ontológica! Tá, não é pra tanto… mas vocês me entenderam.

O bom Amigo Oculto (ou ‘Amigo Secreto’, para os cariocas) precisa seguir alguns pré-requisitos. A) Nem todo mundo pode ser empolgado demais, senão fica caríssimo. B) Nem todo mundo pode ser tão próximo, senão fica sem presentes ruins e sem histórias memoráveis (lembra aquela vez que o Fulano deu um kit de cerveja artesanal gourmet pro Ciclano, que tava tentando parar de beber na época?). C) Ninguém pode colocar restrições de presentes (Pode dar meia e vale-presente sim. E, se reclamar, ganha um cartão sem graça só com assinatura e mensagem padrão também!). D) Em caso de grupo de não-familiares, é imprescindível que seja perto do Natal para a ‘diversão’ já começar na impossível marcação da data para a entrega dos presentes. E) Claro, se pessoas que já se pegaram estiverem no grupo, melhor ainda. (Adendo: Depois da Declaração Universal dos Jogos de Amigo Oculto, ratificada na Paris de 1948, Simone deixou de ser trilha sonora obrigatória, mas ainda é um ato facultativo, para agradar aos mais roots).

Antes que me chamem de sádico (ou de me julgarem), dou meu principal argumento: é preciso dar espaço ao inusitado na vida. O ano todo, na rotina do dia a dia, somos tragados pelo ordinário. Amigo Oculto é a hora de dar um pequeno “atl+tab” nessa vidinha sua aí e receber uma surpresa, poxa. Boa ou – mais provavelmente – nem tão boa assim. E o que é que tem? Um presente ruim por dez risadas e quatro ou cinco momentos de hilariante constrangimento. Troca justa!

Se nada disso os convenceu da necessidade de mantermos viva esta tradição milenar (Há relatos rupestres de aborígenes australianos fazendo imitações uns dos outros antes de trocar suculentas asinhas assadas de cacatua por meias de pele de coala. Ou não), então, meus caros… vou usar a sabedoria dos meus pais, que todo ano sentenciam: “Amigo Oculto é chato demais, mas desse jeito, pelo menos, crianças e adultos ganham presentes. Ninguém fica sem”.

Por mais momentos nonsense!
Por mais constrangimentos hilários!
Por mais presentes pra todo mundo!
Por mais Amigo Oculto!

P.S.: Na semana passada, eu faltei por aqui. Estava brincando de lançar meu primeiro livro (www.editoraletramento.com.br/nomeiodanoticias.html). Aos que sentiram minha falta: desculpa. Aos que não sentiram: de nada.

P.p.s.: Apesar de tudo isso, este ano não vai ter Amigo Oculto na minha casa. Espero que esta carta mude a opinião dos meus familiares.

29 de outubro de 2014

Na clausura

Não nego que sou menos santo que os outros. Fiz o que fiz. E estou aqui esperando me dizerem que já posso sair. Um intervalo de tempo entre duas vidas distintas que deveria ser incontável. Foi o que ela me disse. No julgamento, enquanto os guardas me guiavam depois da sentença: "Apodrece atrás das grades! Eu quero que você perca a conta do tempo que perdeu na clausura porque eu perderei o meu contando o quanto você me roubou!". Fria. Paulatina. Palavras roucas saindo, uma a uma, da boca de quem chorou por dias. Eu não sabia que alguém podia sentir tanto ódio. Eu nunca senti. Nem contra eles. Estava em um transe de adrenalina que distorceu minha própria justiça. Às vezes é assim, a vida coloca sangue em nossas mãos para lhe ajeitarmos as linhas. Entre meu objetivo e eu estava um obstáculo. Nada mais simples. Fiz o que fiz. Eu não me arrependo de ter ajudado as coisas a serem como são. O estranho é imaginar que me deram o mesmo isolamento que dão aos monges pacifistas do Tibete. Quando não há nenhuma distração, você se encontra consigo mesmo. Acho que é por isso que ela quis que eu me perdesse no tempo aqui dentro: para que a névoa que encobre a realidade, a nuvem baixa que envolve a Mata Atlântica no topo do morro, a neblina densa que entra pela janela aberta no inverno e esconde a mobília... para que tudo isso se dissipe e eu possa ver quem, afinal, há por trás. Ela quer que eu me veja por trás do que aconteceu e que me encare, sem opções para onde desviar o olhar. Então, se eu não posso mais devolver o que lhe tomei, é com o mesmo senso de equidade particular que uma vez os fantasmas da minha mente distorceram, que persigo diuturnamente o destino que ela me designou. Não me interessa falar com ninguém. Não me interessa comprar cigarros. Não me interessa receber os que ficaram lá fora. Não me interessa quanto tempo falta. É tudo distração. É tudo névoa e me causa náusea. Quero "perder a conta". Mas, bem agora, na cela cinza que divido com Davidson, meus olhos se distraem. E veem, mais uma vez, ele fazer outro risco na parede de lá. É o fim de um dia qualquer. No início, ignorei o ritual. Depois, pedi que parasse. "Não vejo a hora de sair daqui", ele respondeu. Nem eu, mas esta insistência metódica das marcas diárias está me fazendo ver o horizonte se aproximar. Os assimetricamente desenhados grupos simétricos de quatro traçados verticais e um diagonal começam a formar um calendário na minha cabeça. Não tenho nada contra o Davidson. Eu só quero cumprir minha pena. Não a que o juiz escreveu. A que ela me sussurrou. Quero cumprir minha pena e encontrar minha paz. Mas, entre meu objetivo e eu, arranhando a parede e me causando gasturas, está um obstáculo recurvado.