13 de maio de 2008

O perdão materno

Por Ennio H. R. Silva”



Era uma noite excepcionalmente fria, a tristeza parece ter essa propriedade. Meu marido não suportou e subiu para o quarto, na sala restamos eu e meu filho, Roger. Eu olhava nos olhos dele e ele me parecia o bebê que já fora um dia, chorando sincera e pesarosamente.
Tudo havia começado há três semanas. Quando entrei no quarto e o computador dele estava ligado. Vasculhando as páginas abertas não acreditei: sistemas bancários invadidos, arquivos de vírus pela pasta, números de CPF’s desconhecidos e vários cartões de crédito. Fiquei atônita por uns segundos, depois copiei as informações, deixei tudo como antes e saí.
Não contei nada ao meu marido, eu mesma não acreditava. Investiguei por três semanas para desmentir minhas suspeitas. Eu o havia criado com tanto zelo, atenção, conforto. Roger não tinha motivos para roubar, bastava pedir.
Dias de tensão, sem dormir. A cada transação criminosa confirmada meu coração se dividia em pedaços menores. Hoje de manhã, pouco depois do “suspeito” ir para a escola, confirmei que o último cartão de crédito também era clonado.
Chorei o dia todo e não fui trabalhar. Quando anoiteceu, esperei até que os dois chegassem e chamei-os, meu garoto e meu marido, à mesa e mostrei as provas.
Nesse momento, pude ver o choque nos olhos deles, o maior se enfurecendo e o menor se desesperando.
Agora, meu filho está me pedindo perdão, jurando que não fará nada mais, temendo a polícia. Claro que irei perdoá-lo, o que ele pensa? Minha mãe já dizia: “o amor verdadeiro é o amor materno.”.
Mas, tragicamente, ela também profetizou: “A confiança é um primoroso cálice de cristal. Contudo, é delicadíssimo, quando se trinca, quebra-se com muito mais facilidade e sua sublime beleza jamais se recupera”.

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