
Eu gosto do interior. Viver as fazendas de plantações imensas, explorar terras virgens a procura de alguma grande descoberta, beber água do rio sem medo, ver os animais, subir nas árvores. Tudo isso é realmente bom, nos traz uma paz que a selva de pedra nunca trará. Mas, o melhor que há, e os genuínos homens do sertão hão de concordar comigo, é a prosa frouxa que sucede o anoitecer.
Vez ou outra acontece, depois de um dia duro nos cafezais ou, como o compadre João, um dia guiando e ordenhando o gado, cada um pega sua viola e a roda se forma em volta do calor da madeira em brasa. As mulheres preparam o “cumê” e um ou outro guri foge da cama e inventa de espiar o que está acontecendo.
Todos nos juntamos para cantar a música e a poesia, nos juntamos, tal como os índios sorrateiros em seus esconderijos na relva, para homenagear, lembrando histórias, os que vivem sob a terra onde estamos.
Digo-lhe, e sou sincero, que prezo muito os números e palavras dos doutores da cidade, mas não baixo a cabeça não! Porque sei que nenhum saber é o melhor, nem é o de lá nem o de cá.
E caso alguém duvide, como amiúde ocorre com os viajantes que passam por essas bandas, tenho sempre na ponta da língua um causo que vale, modéstia à parte, mais que muito livro que circula por aí.
Como o do Compadre Bragança e Seu Silveira. Esses dois hoje já quase caducam, afinal foram os primeiros a chegar por aqui. Há mais de cinqüenta anos, o governo arranjou um modo deles mudaram-se pra cá, deu um pedaço bom de terra para os dois. O pior (ou melhor) é que foi um em pareado com o outro.
Compadre Bragança conta que até hoje nunca viu um macho mais rabugento que o tal do Silveira. Como eram bem pobres, Seu Silveira vivia reclamando, não fazia quase nada além disso:
- Ora! De que adianta tanta terra se não há dinheiro para plantar? Não tem estrada que preste, posto de saúde, escola... Nada!
Diz meu compadre que também não estava achando aquilo lá uma maravilha, mas que prezava muito aquele pedaço de chão pra ficar reclamando e que prometera pra si mesmo que, com o suor do seu trabalho, iria virar a mesa.
No começo ele não virou, mesmo porque nem mesa tinha. Mas trabalhava dia-a-dia com afinco e zelo. E o Seu Silveira também. Afinal, dizem que nem água costumava cair do céu na época, que dirá comida. Por amor e por obrigação, era assim que trabalhavam.
Certa vez, o Compadre ficou sabendo que o Silveira tinha vendido suas terras por um preço alto e iria se mudar pra cidade. Diz ele que até tentou fazer a cabeça do maluco, mas não deu jeito não, o Silveira se foi e o Bragança ficou.
Os anos foram passando e aos poucos as coisas foram melhorando. Nada foi fácil, toda semana Compadre Bragança separava dois dias do trabalho pra ir à cidade, um para cobrar serviço dos políticos em suas reuniões e o outro pra tratar da cooperativa de fazendeiros que ele mesmo ajudou fundar e que, aliás, existe até hoje e que nunca entrou um peão corrupto. “Roubou da cooperativa, roubou de todos” diz o compadre. Pra compensar trabalhava aos sábados e domingos também.
Sempre apareciam umas propostas de compra da fazenda ou algo do tipo. Dizem que ele recebeu uma que os zeros que vinham no cheque davam pra mais de uma linha de caderno, mas isso já é história. Outros forasteiros, esses do exterior, queriam estudar e mandar as plantas daqui lá pra Europa e ainda pagavam aluguel. O compadre nunca nem pensou na idéia. A propriedade era da familia Bragança por isso, como ele ainda defende, só ele e os parentes podiam viver lá.
Assim, pegando no pé de quem deve e trabalhando bastante, as coisas mudaram. Veio a energia, escola, hospital e a natureza continua aí, firme e forte.
Quanto ao Seu Silveira, pobre coitado! Qual não foi a surpresa do Compadre Bragança em ver, trinta anos depois de sua partida, o conhecido magro e doente pedindo abrigo à sua porta. Na cidade só se importam com o saber de lá, com diploma e tudo mais.
Seu Silveira podia até ter dinheiro, que logo acabou, mas não tinha esse tal saber.
Desde então o Bragança vive feliz sendo um dos maiores fazendeiros da região e Seu Silveira é seu empregado, seu mais rabugento empregado.
"O patriotismo é a expressão máxima da solidariedade. Valorizar o coletivo em detrimento dos interesses individuais"
2 comentários:
Adorei! Ótimo texto Ennio!!
Parabéns!! (Continue escrevendo, viu? =P )
Ennio... esse pra mim foi o melhor!!!
Ficou ótimo!
PRABÉNS...
continue escrevendo e me manda o link
no orkut pra eu ler...
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