3 de fevereiro de 2009

O andarilho


Oito da noite. “Por que você não vai trabalhar?” escuto. Três homens jovens, animados e, o mais espantoso, “alegres”, intimidam um velho que dormia sob uma marquise. “Por que você não vai trabalhar?”... Aquilo ecoou em mim... É! Por quê?  Gosto pelo não fazer? Preguiça? Frustração? Coerção?
Pela manhã. “Por que você não vai trabalhar?” escuta. Andando pelo centro da floresta de árvores petrificadas, entre os carros, ensurdecendo-se com os gritos das pessoas, ensandecendo-se com o desprezo de todos. Acostumado com os vidros fechados, com os olhares vazios que transpassam seus ossos como se fossem feitos de celofane, ou menos, como se simplesmente não fossem. Acostumado? Realmente alguém pode acostumar-se com isso?
Calado, envergonhado, como se sentisse que sua presença no mundo fosse um ultraje a “perfeição” das obras divinas, ele arrasta a perna esquerda. O olhar fita o chão dois palmos há sua frente... tampinhas metálicas, restos de cigarro, dejetos de pombos... o horizonte belo de um andarilho.
Eu nunca vi alguém conversar com um... Ninguém conversa com andarilhos, mendigos, maltrapilhos, pedintes, marginais, porcos, animais... "Animais não, pessoas!"- Diria um moralista anônimo que estivesse passando. Pessoas pensantes? Mas pensar não era justamente o que definia pessoa? Então por que o desprezo? Hipócritas transeuntes se enforcam nos nós de seus conceitos ambíguos.
Fim da manhã. Ele saiba, sem relógio, que horas eram. Os odores mornos de carne cozida, betume, arroz e gás carbônico denunciavam que as “pessoas” estavam comendo. O tempo para ele não passa em segundos ou minutos. São os intervalos entre as crises de fome que marcam sua orientação cronológica. Ele ouviu dizer que se tratava de “relógio biológico”, não fazia diferença. Não se pode vender nem trocar “relógios biológicos” por alimento.
“Por que você não vai trabalhar?” sentiu, ao perceber a multidão se afastando e desviando dele por onde passasse. Talvez se ele trabalhasse, os outros não levantariam do banco onde ele senta. Talvez se ele trabalhasse, tivesse alguém para compartilhar a beleza do por do sol na praça. Talvez se ele soubesse ler, escrever, ou soubesse algum ofício... Talvez se ele soubesse, ele trabalhasse... Talvez... Se ele soubesse.
Anoitece. Mais um dia passa. O andarilho indigente continua a caminhar, arrastando aquela maldita perna esquerda. O que diabos aconteceu com ela? Quem sabe um tiro heróico da segunda guerra mundial ou uma ridícula paralisia não tratada. Quem sabe? Mais um dia passa. Um dia que se arrastou como aquela perna... lentamente... à deriva... moribundo.
Dias que perecem séculos. Meses, blocos psicodélicos com dezenas de séculos preenchidos com um monótono e insistente nada. Os olhos azuis dele não tem mais o que buscar, só o horizonte belo de um andarilho. Aqueles fundos olhos azuis esverdeados, verdes azulados ou vermelhos esmeralda-oceano. Olheiras profundas, rosto fechado, pesado. Os anos pesam tanto? A desesperança pesa tanto? Os pensamentos pesam tanto? A angústia pesa tanto?
Oito e um. “Por que você não vai trabalhar?” escuto novamente. “Ei... que cheiro é esse? Álcool?! Não... Não façam isso! Eu não fiz nada contra vocês! Não! Tirem daqui esse fogo... Afastem de mim essa chama”... chama o andarilho... clama o andarilho...
Passa uma mosca entre eu e janela. Distraio-me e pisco. Estou de pijama, no quarto seguro do terceiro andar. Dentes escovados e lâmpadas apagadas. Exceto pela meia-luz do abajur que ilumina um livro sobre o criado ao lado da cama. Olho e não consigo me lembrar [ou decidir] o que mesmo que ia fazer. Dormir? Ou seria agir?

3 comentários:

Jessica disse...

Que feliz ver esse blog reativado!
Já disse e volto a dizer: você deveria continuar escrevendo aqui.
Adorei o texto. História tocante e involvente, simplesmente belíssima!
Já me peguei pensando nesse tipo de coisa, e acho que de fato o não podemos parar pra pensar: e sim começar a agir.

Anônimo disse...

Naum tenho palavras, Tiennin..belo texto.

Aline Carvalho disse...

Uma verdade: belo texto.