João Roberto, o pai, ouvia o rádio do carro bem baixinho. Não queria acordar sua mulher e seus dois filhos. Aqueles dois peraltas estavam agora dormindo e, pelo retrovisor, podia-se notar como eles lembravam o semblante tranqüilo e despreocupado da mãe.
James, o mais velho, parecia possuir metade da idade do irmão, física e intelectualmente. Era um jovem moreno de 16 anos, cheio de vida. Já tinha passado por poucas e boas. O pai lembrou-se, rindo, de como quase o expulsara de casa por conta de uma garota que ele supostamente havia engravidado. Depois descobriu que tudo não passava de um plano juvenil para que os dois namoradinhos vivessem juntos. O garoto era mesmo muito corajoso.
Brian, um anjo. 8 anos apenas e já se dizia um homem. Tinha “planos” para os negócios da família. Se alguém perguntasse o que ele faria nos próximos setenta e oito anos e nove meses, provavelmente, ele saberia responder por cada segundo. Justamente pos isso, ninguém perguntava. Um cérebro único, já pulara duas séries na escola, mas que tinha um grau de sensibilidade elevado demais. “Elevado demais” o pai se lembrou de quando discutiu sobre isso com sua mulher... “Não se preocupe, meu amor. É o jeito dele... seu filho não é gay!” e deu uma gargalhada abafada quando a cena voltou a acontecer em sua mente. Claro que não era gay, ele nunca pensara isso. Tinha orgulho dos garotos, cada um de seu jeito.
Ele olhava pelo retrovisor e, a cada característica em comum, se voltava para confirmar em Karen. Uma singela levada oriental no traço dos olhos, o rosto arredondado, cabelos lisos e negros como a noite que lhe fazia companhia.
As placas passavam em alta velocidade na auto-estrada deserta. Ele olhou para o relógio, duas da madrugada. Karen havia insistido veementemente para que parassem em uma pousada, para que ele descansasse. Na hora não fazia o menor sentido, viajar à noite é até melhor, menos movimento, contra-argumentou. Chegariam muito mais rápido. Chegariam?
O rádio começou a falhar. “Last night, no way... I wa........daddy....I roll that way”. Ele desligou a caixa de abelhas. Quando desligou se arrependeu no mesmo instante. O silêncio era desolador. Havia o som do motor, mas era um som que inexplicavelmente potencializava a força do vazio... exceto, claro, pelas ensurdecedoras carretas que passavam vez ou outra.
As pálpebras começaram a pesar... Cada segundo parecia adicionar dez quilos em cada uma. “Não posso dormir... minha família, tudo que tenho de mais importante, está nesse carro”. Mas era uma noite de grandes lições: o sono é surdo e impiedoso. Ele cochilou e, imediatamente, acordou assustado. “Não posso mais continuar, vou parar”.
Mas não havia sinal de civilização por perto. O último posto passou hà 10 quilômetros ? Ou seria há 15? Longe demais... Ele seguiu e o sono aumentou. As curvas pareciam maiores, mais difíceis, mais freqüentes e perigosas.
Um silêncio profundo.
Buzina, luzes, gritos, freios... batidas, batidas fortes, repetitivas e fofas.
Ele abriu os olhos, Karen tentava impedir Brian em um de seus raros acessos de “impulsividade infantil”.
- Pare com isso, meu filho. Seu pai está tentando descansar. – Aconselhou a mãe.
- Mas eu quero continuar a viagem, senão vamos demorar muito pra chegar – Disse Brian.
James ia dizer algo, mas se calou, todos se calaram ao ver o pai atônito.
João Roberto nem notou , apenas agradeceu profundamente pela segunda chance.
4 comentários:
Interessante, Tchiennin..bem reflexivo, acho q muitas pessoas deviam ler isso, pra terem mais responsabilidade sobre suas responsabilidades...
Abraço.
adorei o texto!
você escreve cada dia melhor! =)
gostei a forma que você desenvolveu o personagem-pai e mostrou como ele é carinhoso com a família, e principalmente como você conseguiu desenvolver a personalidade dos garotos sem que eles tivessem efetivamente voz.
o desenrolar da história é envolvente e passamos a nos importar com os personagens, o que torna o final ainda mais comovente - ótimo, ótimo!
Eu acho que... gostei muito dessa parte "Uma singela levada oriental no traço dos olhos, o rosto arredondado, cabelos lisos e negros como a noite que lhe fazia companhia."
A descrição mais bonita e leve que eu poderia ler ouvindo Jack Johnson* :)
*Dessa vez eu consegui fazer os dois ao mesmo tempo, mas tive que voltar a frase toda às vezes, xDD
parabéns Ennio, realmente lindo o texto!
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