
- Assassino! Traidor! Vândalo... Eram essas as palavras que ele ouvia diariamente nos últimos meses. Como se não bastasse a agonia e humilhação que os próprios significados carregam, o som era uma tortura a mais. Ele ouvia quase que sussurros, as sílabas fluíam agudas e pausadas dos lábios do interlocutor. Sem cessar, aquele rosto pálido, sem corpo, praticamente imerso na escuridão daquele gélido lugar, repetia sadicamente as acusações lancinantes:
- Assassino! Traidor! Vândalo...
Não havia muito tempo, aquela casa não era assim. A luz costumava entrar por todos os lados. De dentro, ele podia ouvir as vozes das pessoas do lado de fora, os sons agradáveis do cotidiano. Os entes queridos, como sua esposa e sua filha, eram sempre presentes: seus sorrisos, vozes, olhares, cheiros... Tudo habitava o local, as boas lembranças pairavam freneticamente desordenadas por toda parte naqueles dias.
Muitas pessoas abdicariam de muito para ter o que o proprietário dessa casa, Arthur, tinha ou parecia ter: uma vida normal. Como qualquer homem normal, ao caminhar apressado pelo centro, ele não era notado; de manhã tomava café com leite e torradas e à noite leite puro; Arthur odiava esperar na fila do banco e também costumava, se estivesse sentado no ônibus, segurar a bolsa de quem estivesse de pé.
Arthur, aliás, realmente costumava pegar o ônibus. Eram suas férias e ele havia desenvolvido essa estranha mania de tomar o coletivo sem um destino certo. Como diz o filósofo, há coisas que o Homem faz e nem mesmo ele é capaz de compreender. Mas talvez, Arthur pensasse que, se distanciando fisicamente de sua casa, ele poderia escapar também daquela outra casa, a sombria casa das memórias, sua mente.
Tão insistente quanto ele em aplicar essa técnica, era o fracasso que dela decorria. Bastava cerrar os olhos que ele voltava ao quarto mórbido e seu acompanhante lá estava... a voz vinha de longe... Aproximando-se... Intimidando-o:
- Assassino! Traidor! Vândalo...
Antes de tudo começar Arthur era coronel, tinha uma carreira militar ascendente pautada na lealdade incondicional, na honra e na coragem. É provável que justamente essa última virtude que o tenha incentivado a reagir contra tudo isso quando percebeu que havia o que não era como deveria ser: torturas, seqüestros, negligência, chacina, truculência.
Havia outros que também odiavam o que ele odiava. Quando se conheceram, as ações do grupo não passavam de discussões de boteco. Mas as coisas evoluíram... Comícios inflamados... Panfletos subversivos... Até que chegaram a verdadeira lei de Talião.
No calor do momento tudo fazia muito sentido e era muito justo. O que devia ser feito foi e tudo mudara. Porém, naquele momento as lembranças eram como uma névoa densa e negra que ocupavam sua mente; sua consciência não era mais que um inquisidor; seus ombros pareciam muito pesados; sua família não estava mais por perto e ele ainda podia ver o vermelho pecaminoso do sangue escorrendo de seus dedos.
Foi quando o ônibus parou, trazendo-o de volta à realidade, e ele desceu. Estava na rodoviária e a lembrança do que iria fazer o iluminou subitamente. Passando por uma banca de jornais, ele leu raridades em todas as primeiras páginas: boas notícias.
Embora tivesse se lembrado, não acreditou até ouvir a voz doce de sua filha gritando por ele e de vê-la atravessar, correndo, o saguão ao seu encontro. Aquilo foi como um feixe de luz forte demais para que a neblina negra o pudesse barrar. O beijo de reencontro em sua mulher, então, foi para a inquisição mental de Arthur pior que as pragas do Egito Antigo para Ramsés.
Elas voltavam do exílio e ele voltava do delírio.De olhos abertos, Arthur agora pôde realmente notar a realidade a sua volta. Todos podiam dizer o que fosse preciso, os crianças podiam brincar nas ruas, os pais podiam ir trabalhar, todos podiam dormir em paz. Enfim, nada havia sido em vão.
"Há pessoas que devem pagar pelo que fizeram e há líderes que merecem memoriais por seus sacrifícios"
7 comentários:
q profundo ennio...
=)
Achei ótima a abordagem sobre a auto-tortura mental do Arthur. Também foi interessante a maneira com que você criou um clima de expectativa acerca 'daquele gélido lugar' - que ao fim do texto se revela ser a memória de um algoz daquela corja que 'governou' o Brasil há algumas décadas. Bem, penso que o espaço do seu texto pode ser o Brasil, apesar de você não ter delimitado. Aliás, isso é genial.Porque dessa forma o texto ganha maior abrangência, se adequando também à situação política que existiu em vários países da América Latina ao longo a Guerra Fria.
Enfim, achei ótimo o texto. Você está indo muito bem nas narrativas. Tem certeza que prefere o jornalismo?!?!?!? rsrsrsrs t+
Opa...
Acho que a idéia rola igual bola, mas quem mais você acha que entraria nessa?
Aliás, gostei do texto, ficou bom!!! ^^
Nossa Ennio, simplesmente perfeito seu texto!
Ótima escrita, história envolvente, ótimo desenvolvimento de personagem!
Parabéns!
AH, porquinho! Você me enche de orgulho!!! Vous avez faites un excellent travail!
Abração!
Não li muitos dos seus textos ainda e nem entendo tanto do assunto, mas esse texto é muito bom! Já sabe o que eu acho dessas coisas de memórias torturantes, lembranças pertubadoras... Assunto ótimo e cenário também! Parabéns!
Esse texto vai continuar sendo especial pra você.
Ficando sem escrever o tempo que for, você nunca perderá essa essência. Fato.
parabéns ;D
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